Jair e Flávio Bolsonaro obtiveram, somente no segundo turno das eleições que disputaram (2018, 2022 e 2026), a soma de inacreditáveis 175.829.882 votos. Em 2018, para ficar apenas no estado de São Paulo, o simples fato de ser identificado como bolsonarista levou à Câmara Eduardo Bolsonaro, Carla Zambelli, Joice Hasselmann, Alexandre Frota, Luiz Philippe de Orleans e Bragança e muitos outros. Um inexpressivo Wilson Witzel foi eleito governador do Rio de Janeiro. Apareceu do nada e para o nada voltou. Em 2018, Jair Bolsonaro estava em um partido quase inexistente (PSL) e não tinha tempo de rádio e TV. Nem palanques nos estados. Em 2022, o PL conquistou 121 cadeiras na Câmara, o melhor desempenho de um partido em eleições realizadas desde a Constituição de 1988, e fez uma bancada poderosa no Senado.Qual clã chegou perto disso no Brasil? Os Sarneys, Antônio Carlos Magalhães, Calheiros, Barbalhos? Com todo o poder que tiveram e têm, não chegaram perto em termos de votos nacionais. A grife Bolsonaro tem um capital político inédito na história brasileira. Os grandes líderes nunca tiveram sucessores: ninguém sabe quem foram os filhos de Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek; o filho do Lula a gente sabe como é. Já Flávio quase venceu a eleição para a Presidência, e Michelle Bolsonaro será senadora pelos próximos oito anos. A direita brasileira não se sustenta no ar —ao contrário, tem forte respaldo na opinião pública. Pesquisa realizada pelo Ipsos-Ipec no mês passado mostrou que o índice de conservadorismo na sociedade tem crescido: de 2010 a 2026, a porcentagem de pessoas que apoiavam a pena de morte passou de 31% para 52%, e a das que defendiam a redução da maioridade penal, de 63% para 71%. O brasileiro está muito incomodado com as questões referentes à segurança pública. O mesmo levantamento apontou que 52% da população listou crime e violência como sua principal preocupação. Nesse contexto, uma corrente política que prega mais energia contra os criminosos e a flexibilização da posse e do porte de armas vai ao encontro das aspirações do eleitorado. Isso dá ao bolsonarismo uma força inédita. Pergunte para um eleitor comum na rua o que significa a sigla PL. Pouca gente saberá. Esclareça que se trata do partido dos Bolsonaros e todos compreenderão. A coisa muda totalmente de figura. O PT continuará sendo o PT sem o Lula. Provavelmente mais fraco. Já o PL "é" Bolsonaro. Além disso, esse movimento da direita representa a antítese do PT. O Partido dos Trabalhadores, durante muito tempo, foi do contra. Não assinou a Constituição, opôs-se ao Plano Real, bradou "Fora, FHC" depois que o presidente havia sido reeleito legitimamente. Ao assumir o poder, em 2003, Lula falou de uma suposta "herança maldita". Às vezes, ele, Lula, funciona como ombudsman de seu próprio governo, reclamando daquilo que sua administração não realizou. O PT, até 2018, não teve adversários que afrontassem o espírito bélico da esquerda. Fernando Henrique Cardoso, José Serra e Alckmin foram concorrentes cordiais, pareciam estar pedindo desculpas ao tentar ganhar a eleição de Lula: poodles diante de um rottweiler. Alguém se lembra de ter visto uma manifestação de rua dos tucanos? Um protesto barulhento de integrantes do PFL? Uma marca política não se constrói da noite para o dia. O bolsonarismo está aí. Representa uma alternativa, incorpora o antipetismo e, verdade seja dita, perdeu em 2022 e 2026 para si mesmo. Hoje, Jair Messias está em prisão domiciliar, e Flávio Bolsonaro cultiva a fama de fujão. A pergunta proposta aqui é se a direita brasileira precisa abandonar o bolsonarismo para voltar ao poder. O que precisamos saber, isso sim, é se o eleitor de direita abandonará o bolsonarismo. TENDÊNCIAS / DEBATES Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento
A direita precisa abandonar o bolsonarismo para voltar ao poder? N�O
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