Risada de Mbapp� � novo alvo de m�todo de Pequim para silenciar cr�ticas externas

Risada de Mbapp� � novo alvo de m�todo de Pequim para silenciar cr�ticas externas

Kylian Mbappé passou a semana tentando apagar um incêndio que começou com uma risada. Num vídeo de bastidores gravado meses atrás para um programa francês e divulgado nesta semana, o atacante do Real Madrid comentava um meme feito com inteligência artificial que punha seu rosto no corpo de Mao Tsé-tung e chamava o retratado de "algum cara", "um ditador chinês". Em menos de 48 horas, três empresas chinesas que o patrocinavam (entre elas a Mengniu, maior fabricante de laticínios do país) romperam os contratos, suas contas nas redes sociais Weibo e Xiaohongshu foram congeladas e o grupo estatal dono da CCTV suspendeu a transmissão do Campeonato Espanhol. O jogador pediu desculpas em francês, inglês e chinês. Quem acompanha a relação da China com marcas e atletas estrangeiros já viu esse filme algumas vezes. Em 2019, um dirigente do Houston Rockets escreveu no Twitter que apoiava os protestos em Hong Kong e a NBA sumiu da TV chinesa por mais de um ano. Em 2021, a H&M foi retirada das lojas online do país por ter dito que se preocupava com denúncias de trabalho forçado em Xinjiang. Em quase todos esses casos, ninguém em Pequim precisou dar uma ordem por escrito. Uma conta ligada ao Partido Comunista aponta o culpado nas redes, as empresas chinesas cortam os laços antes de serem cobradas e o porta-voz da chancelaria diz, por fim, que o estrangeiro "feriu os sentimentos do povo chinês". A fórmula aparece no jornal do Partido desde 1959 e serve para apresentar a irritação do regime como se fosse revolta espontânea da população. O que distingue o caso de Mbappé dos anteriores é que o francês não tomou posição política nenhuma. Os atletas e as empresas punidos até aqui tinham falado de temas que Pequim trata como questão de soberania, como Taiwan, Hong Kong e Xinjiang, enquanto ele apenas riu de uma montagem com o rosto de um líder morto há 50 anos e que o Partido ainda protege como símbolo do regime. Por muito tempo, o argumento para ceder a Pequim era o tamanho do mercado consumidor chinês e hoje ele vale também para o dinheiro chinês que circula no esporte. Empresas do país gastaram cerca de US$ 500 milhões em patrocínios na última Copa do Mundo, atrás só das americanas. A própria Mengniu tinha usado Mbappé numa campanha ao lado de Messi meses antes do rompimento. Para um jogador do tamanho dele, os cerca de € 6,7 milhões em contratos perdidos pesam pouco. Quem tinha mais a perder era a liga espanhola, cujo presidente já estimou em € 100 milhões por ano o que o campeonato fatura na China e agora diz que mais de 20 clubes podem ser afetados. Cada atleta ou executivo estrangeiro com interesses no país aprende assim que uma frase pode custar caro para quem o emprega e passa a medir o que diz. Do lado chinês, a maioria dos que pediram boicote nem viu o vídeo. YouTube e Instagram são bloqueados no país e um dos principais aplicativos de futebol se recusou a traduzir a fala. Montagens com o rosto de Mao, como a que fez Mbappé rir, também não circulariam livremente por lá. Pequim nunca diz quanto tempo dura o castigo e essa indefinição faz parte do método. A NBA levou mais de dois anos para voltar plenamente à TV chinesa e a LaLiga ainda não sabe quando volta. Um prazo fixo permitiria fazer contas, enquanto a dúvida leva clubes e patrocinadores a preferir que seus atletas não comentem a China. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

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