Segurança é uma das palavras mais valorizadas pelos investidores. Talvez por isso, sempre que alguém pergunta qual título público deveria comprar, a resposta costuma ser quase automática: "Tesouro IPCA". O raciocínio parece irrefutável. Se a inflação subir, o dinheiro continua protegido. Afinal, quem não gostaria de garantir um rendimento acima da inflação? O problema é que toda proteção tem um preço. E pouca gente sabe quanto está pagando por ela. Imagine duas pessoas contratando um seguro para o mesmo carro. Uma aceita pagar um prêmio elevado porque acredita que o risco de acidente é grande. A outra prefere economizar porque considera esse risco baixo. Nenhuma delas conhece o futuro. Apenas atribuem probabilidades diferentes ao mesmo evento. Com os títulos públicos acontece exatamente a mesma coisa. Quem compra um Tesouro Prefixado faz uma aposta: acredita que a inflação ficará relativamente comportada. Quem compra um Tesouro IPCA faz outra: prefere pagar para se proteger caso a inflação surpreenda para cima. A pergunta não é qual dos dois está certo. A pergunta correta é: quanto custa essa proteção? Existe um indicador pouco conhecido que responde exatamente a essa questão: a inflação implícita. Ela representa a inflação que faz um título prefixado e outro indexado ao IPCA oferecerem exatamente o mesmo retorno para um mesmo prazo. Se a inflação realizada for igual à inflação implícita, tanto faz qual dos dois títulos você escolheu. Se ficar abaixo dela, o prefixado terá proporcionado um resultado melhor. Se ficar acima, vence o título indexado ao IPCA. O interessante é que não é preciso fazer nenhuma conta. A Anbima divulga diariamente esse indicador em sua curva de juros no site. Basta observar a coluna "Inflação Implícita". É ali que aparece o preço que o mercado está cobrando para oferecer proteção contra uma inflação inesperada. Prazo (dias úteis) Taxas IPCA Taxas Prefixadas Inflação Implícita 252 8,2363 13,9124 5,2441 504 8,3453 14,2749 5,4728 756 8,4213 14,5413 5,6446 1.008 8,4114 14,6915 5,7928 1.260 8,3479 14,7649 5,9225 1.512 8,2574 14,7946 6,0385 1.764 8,1571 14,8015 6,1432 2.016 8,0568 14,7972 6,2378 2.268 7,9616 14,7878 6,3228 2.520 7,8739 14,7767 6,3989 E os números, replicados na tabela acima, chamam a atenção. Enquanto o Relatório Focus mostra expectativas de inflação em torno de 4,2% para 2027, 3,7% para 2028 e 3,5% para 2029, a inflação implícita negociada nos títulos públicos permanece acima de 5% em praticamente todos os prazos superiores a um ano e alcança aproximadamente 6,4% ao ano nos vencimentos mais longos. À primeira vista, parece uma contradição. Afinal, por que investidores estariam pagando por uma proteção tão cara se as projeções de inflação são muito menores? Existem duas explicações possíveis. A primeira é que o mercado esteja cobrando um prêmio elevado pelo risco de inflação. Como ninguém conhece o futuro, investidores exigem uma remuneração adicional para abrir mão da proteção oferecida pelos títulos indexados ao IPCA. Nesse caso, o Tesouro Prefixado pode representar uma oportunidade melhor, justamente porque esse prêmio estaria excessivamente elevado. A segunda possibilidade é que o mercado esteja enxergando um risco de inflação maior do que aquele refletido nas projeções dos economistas. Se isso acontecer, pagar mais pela proteção pode ser uma decisão acertada. Existe, porém, um detalhe que costuma passar despercebido. Para o Tesouro IPCA superar o Prefixado, não basta que a inflação fique acima das projeções do Focus. Ela precisa superar a inflação implícita existente no momento da compra. Caso contrário, o investidor terá pago mais pela proteção do que o benefício efetivamente recebido. Vale lembrar que a inflação implícita não representa uma previsão da inflação futura. Ela também incorpora prêmios de risco, liquidez e outros fatores que influenciam os preços dos títulos públicos. Ainda assim, ela revela algo extremamente valioso: quanto o mercado está disposto a pagar para reduzir sua incerteza. Talvez essa seja a principal lição. Muitos investidores procuram aplicações que eliminem os riscos. Mas elas simplesmente não existem. Até a busca por segurança envolve uma aposta, e um preço. Quem escolhe um Tesouro Prefixado aposta que a inflação ficará abaixo da inflação implícita. Quem escolhe um Tesouro IPCA aposta que ela ficará acima. Nenhum dos dois conhece o futuro. Apenas fazem apostas diferentes sobre ele. No fim, investir nunca foi encontrar um ativo que vence em qualquer cenário. Sempre foi decidir qual risco vale a pena assumir e quanto você está disposto a pagar para dormir mais tranquilo. Michael Viriato é planejador patrimonial e sócio fundador da Casa do Investidor. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
Voc� sabe quanto paga pela seguran�a nos investimentos?
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