Você contaria com uma promessa feita para daqui a 20 ou 30 anos sabendo que quem vai pagá-la ainda nem entrou no mercado de trabalho? É mais ou menos isso que fazemos quando planejamos a aposentadoria contando que o INSS continuará oferecendo no futuro as mesmas condições de hoje. O INSS funciona, em grande parte, pelo regime de repartição. Isso significa que as contribuições de quem está trabalhando hoje ajudam a pagar os benefícios de quem já está aposentado. É como uma família em que os filhos ajudam a sustentar os pais: se há quatro filhos dividindo a conta, o esforço de cada um é menor. Se amanhã forem apenas dois cuidando dos mesmos pais por mais tempo, alguém terá de contribuir mais. É justamente essa transformação que está ocorrendo no Brasil. Em 2023, 15,6% da população tinha 60 anos ou mais. Segundo as projeções do IBGE, essa proporção deve chegar a 37,8% em 2070. Ao mesmo tempo, a fecundidade caiu para menos de dois filhos por mulher e deve permanecer bem abaixo da taxa necessária para reposição da população. Teremos proporcionalmente mais idosos e menos pessoas nas gerações seguintes para financiar o sistema. E estar trabalhando não significa necessariamente contribuir regularmente para a Previdência. Em 2025, cerca de 38% dos trabalhadores brasileiros estavam na informalidade. Isso não significa que todos estejam fora do sistema previdenciário, mas ajuda a mostrar por que o número de pessoas ocupadas é maior do que a base de contribuintes regulares.Há ainda outra transformação no mercado de trabalho. Cada vez mais profissionais recebem por meio de pessoa jurídica em vez de terem vínculo CLT. Parte deles contribui para o INSS sobre uma base bem menor do que sua renda e, em alguns casos, próxima do mínimo. Assim, a pressão sobre a Previdência não vem apenas da redução proporcional do número de pessoas em idade ativa. A forma como parte delas contribui também pode diminuir a arrecadação previdenciária em relação ao que ocorreria no emprego formal. A conta já é pressionada hoje. Em 2025, o Regime Geral de Previdência Social arrecadou aproximadamente R$ 710 bilhões e gastou cerca de R$ 1,03 trilhão com benefícios, produzindo um déficit próximo de R$ 317 bilhões. Isso não significa que o INSS fechará as portas. Previdência pública não funciona como uma empresa. Significa apenas que a diferença precisa ser financiada por alguém. E as alternativas são conhecidas. Podemos cobrar mais contribuições, aumentar a idade para se aposentar, reduzir o crescimento ou o valor relativo dos benefícios, transferir mais recursos dos impostos para o sistema ou combinar algumas dessas medidas. Podemos discutir quem deve pagar essa conta. O que não podemos é supor que ninguém precisará pagá-la. Imaginar que teremos proporcionalmente menos contribuintes, mais aposentados recebendo por mais tempo e, ainda assim, as mesmas condições atuais sem aumentar o custo para alguém seria assumir que dinheiro dá em árvore. A história recente mostra que as regras podem mudar. A reforma da Previdência de 2019 alterou idades, fórmulas de cálculo e regras de transição. Para quem está perto da aposentadoria, as regras atuais são uma referência importante. Para quem pretende se aposentar daqui a 20 ou 30 anos, tratá-las como uma promessa imutável é bem mais arriscado. E o risco não é apenas receber menos. É também receber mais tarde. Imagine alguém que pretende parar de trabalhar aos 60 anos, mas que, quando chegar lá, só possa receber o benefício do INSS aos 67. Quem financiará esses sete anos? Seu próprio patrimônio, ou trabalhar por mais tempo. Para quem tem renda mais alta, existe ainda outro problema. Mesmo que nenhuma regra mude, o benefício do INSS é limitado por um teto. Para alguém acostumado a viver com R$ 20 mil, R$ 30 mil ou R$ 50 mil por mês, o benefício já representa apenas uma parcela do padrão de vida. O restante precisará vir de outras fontes. Por isso, precisamos separar duas perguntas. Podemos contar com a existência do INSS no futuro? É razoável trabalhar com a hipótese de que sim. Podemos contar que daqui a 20 ou 30 anos ele pagará nas mesmas condições de hoje? Essa é uma hipótese bem mais arriscada. O INSS pode ser uma das fontes de renda consideradas no planejamento. A incerteza está em quanto receberemos, quando poderemos começar a receber e quais serão as regras naquele momento. Quanto mais distante estiver a aposentadoria, maior deve ser a margem de segurança. O erro não é contar com o INSS. O erro é construir uma aposentadoria que só funciona se o INSS continuar exatamente como é hoje. Michael Viriato é planejador patrimonial e sócio fundador da Casa do Investidor. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
Quanto do seu futuro voc� deveria confiar ao INSS?
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