O nome da mostra "Soft Ground", ou solo macio, remete ao lugar que a acolhe e aos questionamentos em torno desse lugar. A região de Comporta, ao sul de Lisboa, possui cerca de 45 quilômetros de faixa de areia contínua, uma das maiores extensões do sul da Europa. Esse santuário, protegido por leis ambientais rígidas, se vê ameaçado pela mudança climática, que vem castigando o continente com especial rigor nos últimos anos, e por predadores do mercado imobiliário. São justamente esses os eixos que norteiam a exposição. "Estamos sempre atentos às preocupações dos nossos artistas, com quem conversamos frequentemente. O tema da mostra surgiu naturalmente nessas conversas", diz a portuguesa Maria Ana Pimenta, sócia e diretora internacional da galeria brasileira Fortes D’Aloia & Gabriel. "Soft Ground" reúne 45 obras de grande potência e diversidade, com preços que vão de € 2.000 a € 120 mil, ou entre R$ 12 mil e R$ 720 mil. Foi Pimenta quem teve a ideia, em 2021, de realizar um "summer show", uma mostra de verão, em Comporta. Sucesso de vendas e repercussão, o evento entrou no calendário português de arte contemporânea. A edição deste ano foi organizada em parceria com duas outras galerias, a portuguesa Kubik e a brasileira Mendes Wood DM. Os "summer shows" são uma tendência no mercado de arte europeu. Galerias como a Hauser & Wirth, de Zurique, e a Parra & Romero, de Madri, criaram operações do gênero nas ilhas espanholas de Menorca e Ibiza. Comporta é um equivalente português desses destinos de luxo. "Ao longo dos anos descobrimos que os frequentadores da região são apreciadores de arte e possuem poder aquisitivo para comprar obras", afirma Maria Ana Pimenta. Comporta tem hoje o metro quadrado mais caro de Portugal, superando a Avenida da Liberdade, que está para Lisboa como a Champs Élysées está para Paris. O valor pode chegar a € 16 mil euros, perto de R$ 100 mil, de acordo com a consultoria britânica Knight & Frank, referência no mercado imobiliário europeu. Há uma pressão intensa de cadeias hoteleiras internacionais sobre as pequenas cidades da região, que são responsáveis pela fiscalização ambiental. As obras expostas na "Soft Ground" refletem, direta ou indiretamente, as questões ambiental e imobiliária. "Progressões de Fogo (Fumaça)", da brasileira Rivane Neuenschwander, faz parte de uma série de desenhos em papel arroz queimado por incenso. A chama se alastra de forma análoga ao fogo sobre mato seco. Incêndios devastam todos os anos, no verão, parte da cobertura florestal portuguesa. O fenômeno da desertificação é uma das principais preocupações de Laís Amaral, nascida em São Gonçalo, município periférico do Rio de Janeiro, que é também berço do atleta antirracista Vinícius Júnior. Sua obra está representada por uma pintura da série "Ressurgir", que remete à regeneração da natureza após processos de devastação. Neuenschwander, 59, e Amaral, 33, representam gerações diferentes da arte contemporânea brasileira. Há também artistas radicados no exterior, como Marcius Galan, que vive na cidade de Indianapolis, nos Estados Unidos. No deserto de Al Ula, na Arábia Saudita, Galan gravou com o celular uma planta resistindo ao vento, e, a partir dessa imagem árida, criou uma obra que trabalha sons e texturas. A exposição é ambientada em dois lugares a uma distância de dez minutos de caminhada, a Casa da Cultura da Comporta e o Espaço Museológico do Museu do Arroz. O Espaço Museológico já era ocupado há três anos pela galeria portuguesa Kubik, que se uniu neste ano à Fortes D’Aloia & Gabriel para colocar de pé a "Soft Ground". "A ideia é que haja um diálogo entre artistas de diferentes países", diz João Azinheira, dono da Kubik. Há vários nomes portugueses na exposição, a maior parte deles representada pela Kubik. O texto que acompanha o catálogo é de autoria de Filipa Ramos, curadora de várias exposições no espaço europeu e autora do livro "The Artist as Ecologist", ou o artista como ecologista. Ramos escreveu sobre Comporta: "Enchentes recentes, tempestades, erosão costeira e o aumento das temperaturas tornaram visíveis as mudanças ambientais, enquanto a especulação e as economias sazonais reconfiguram o terreno social. A crise é, ao mesmo tempo, ecológica, social e política. Ela se manifesta na água e na areia, na moradia e no trabalho, na infraestrutura e nos ecossistemas, no frágil equilíbrio entre aquilo que é protegido e aquilo que é consumido." E conclui: "O que é preservação pode também produzir deslocamento. A paisagem que parece aberta e acolhedora é cada vez mais atravessada por forças econômicas que determinam quem pode permanecer, quem pode trabalhar, quem pode visitar e quem pode chamar esse lugar de lar."
Mostra em Comporta re�ne 45 obras sobre amea�as ambientais e imobili�rias
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