Mostra de S�o Paulo faz 50 anos e desafia a era do algoritmo com o inesperado

Mostra de S�o Paulo faz 50 anos e desafia a era do algoritmo com o inesperado

O público é o júri. Foi com essa máxima que nasceu a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, o mais longevo festival de filmes internacionais do Brasil. Na época, a frase foi uma afronta à repressão da ditadura militar. Hoje, 50 anos depois, ela se renova frente às métricas de engajamento que ditam o que é consumido. Fundado em 1977, o evento continua com o mesmo propósito —exibir nos cinemas de São Paulo, durante duas semanas, filmes premiados nos principais festivais de cinema do mundo, entre eles Cannes, Veneza e Berlim. E, além disso, projetar na tela grande produções da safra anual com menos visibilidade, que não chegariam até o público brasileiro de outra forma. Nesta edição, por exemplo, estarão presentes "Fjord" e "Mulher Desconhecida", coroados em Cannes e Veneza. Integram a programação também "Primetime", estrelado por Robert Pattinson, um dos atores mais prestigiados de sua geração, "Amor Possível", do consagrado diretor sul-coreano Lee Chang-dong, "Look Back", adaptação do anime de Hirokazu Koreeda, e "Tigre de Papel", de James Gray. O americano, conhecido como um mestre do melodrama contemporâneo, desembarca na capital paulista para apresentar seu novo filme, a ser exibido na abertura do evento, nesta quarta-feira, e que tem Adam Driver e Scarlett Johansson no elenco. Vem também para o evento o diretor de épicos indianos S.S. Rajamouli, que alcançou prestígio mundial com "RRR - Revolta, Rebelião, Revolução", em 2022, e o americano Boots Riley, conhecido por narrativas críticas ao capitalismo. A lista continua com nomes menos populares entre o grande público, mas cultuados por cinéfilos, como o chinês Jia Zhangke, que apresenta "Torino Shadow", ou o sul-coreano Hong Sang-soo, com "Onde Repousar Meus Olhos" e "O Dia em que Ela Volta". Isso sem contar as sessões especiais de clássicos como o centenário "Aurora", da obra do armênio Artavazd Pelechian, e de trabalhos produzidos pelo português Paulo Branco, com títulos de Manoel de Oliveira, João César Monteiro, Raúl Ruiz e Chantal Akerman. São 380 filmes no total. Ao lado de nomes conhecidos, aparecem trunfos menos populares de 92 países. É o caso de "A. Rimbaud", do sino-americano Patrick Wang, sobre o poeta francês do século 19, ou "Ha-Chan, Shake Your Booty!", do nipo-americano Josef Kubota Wladyka. São produções que dificilmente aparecem em reels de Instagram. As bolhas de gosto das redes sociais, protegidas pelo algoritmo, são desafiadas por uma programação que defende a imprevisibilidade. O público pode se deparar com um filme iraniano de três horas, uma fantasia americana independente ou um clássico restaurado. "A sobrevivência de qualquer festival depende do equilíbrio entre o que é pop e o alternativo, por assim dizer. Filmes grandes, como 'Primetime', levam o público a ver coisas menos badaladas", diz Jonas Chadarevian, curador da Mostra ao lado de Renata de Almeida, diretora do evento. As redes sociais são uma faca de dois gumes. Se, por um lado, ajudam a criar burburinho, por outro, estimulam o chamado "fear of missing out" —a angústia de se sentir por fora de algum acontecimento e não falar sobre ele no X ou Letterboxd, rede social dedicada ao cinema. Para Chadarevian, o efeito colateral é o hiperfoco em filmes mais concorridos, que depois vão chegar ao circuito comercial. Os ingressos se esgotam rapidamente, enquanto outros longas promissores não recebem tanta atenção. "A Mostra é o anti-algoritmo. Ela traz coisas que você nem sabia que existiam e que pode gostar muito", diz a cineasta e apresentadora Marina Person. No ano passado, ela lançou a série documental "Viva o Cinema! Uma História da Mostra de São Paulo", disponível na HBO Max. Os quatro episódios relembram a história do evento e mostram depoimentos de frequentadores assíduos. A rotina dos "mostreiros" consiste em assistir a quatro filmes por dia, às vezes almoçar um pão de queijo na fila para entrar a tempo numa sessão. É preciso calcular o deslocamento de um cinema para o outro para contemplar todos os longas. "Tem um culto. A mostra ocupa um espaço importante na vida das pessoas que moram em São Paulo ou passam pela cidade", diz Person. A cada ano, essa rotina ganha uma identidade própria pelo cartaz da vez, criado por um artista ou cineasta. Já ilustraram o cartão-postal do evento artes de cineastas como Akira Kurosawa, Martin Scorsese, Wim Wenders e Satyajit Ray, além de artistas como Tomie Ohtake, Ziraldo e Christiane Kubrick, viúva do cineasta de "Barry Lyndon". Os cartazes das 50 edições são reunidos, agora, em um livro comemorativo, com páginas destacáveis, para o prazer do cinéfilo que quiser pendurá-los na parede. Todo esse ritual tonifica o senso de comunidade em torno da Mostra, e as gerações que cresceram na frente de telas se sentem atraídas pelo desejo de pertencer. "Tem gente jovem e empolgada que quer ver clássico restaurado. São cinéfilos muito atentos", diz Chadarevian. Segundo ele, o público do evento cresce a cada ano. Quando foi criada, a Mostra já tinha o intuito de reunir cinéfilos. O crítico de cinema Leon Cakoff fez a primeira edição do evento em 1977, no auditório do Masp. O encontro, que hoje parece corriqueiro, enfrentou a censura do regime militar. Foram exibidos filmes proibidos, como "A Batalha do Chile", documentário sobre o golpe militar no Chile. A ambiciosa trilogia de Patricio Guzmán, morto em setembro, será exibida nesta edição em cópias restauradas. Enquanto a gestão fardada desencorajava aglomerações pelas ruas para evitar manifestações, a Mostra movimentava pessoas pelas calçadas. Após a democratização, essa agitação ajudou a manter o circuito cinematográfico aquecido em fases difíceis, como durante o governo de Fernando Collor, quando foi extinta a Embrafilme, importante produtora e distribuidora estatal. Ao negociar com empresas estrangeiras para exibir filmes, a Mostra também colocou o Brasil no mapa dos festivais internacionais. Foi pelo evento, por exemplo, que o diretor Quentin Tarantino desembarcou no país pela primeira vez, ainda estreante com seu primeiro longa, "Cães de Aluguel". Em outros anos, desembarcaram em São Paulo nomes como Pedro Almodóvar, Abbas Kiarostami e Francis Ford Coppola. "Isso faz com que a cidade ganhe importância como capital cultural", diz Marina Person. Alguns desses momentos históricos são relembrados no livro "Antes que Eu Me Esqueça", de Renata de Almeida, e na exposição "Tempo e Movimento: Os 50 Anos da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo", em cartaz no Solar Fábio Prado. O espaço na avenida Brigadeiro Faria Lima vai sediar, desta vez, a Sala Petrobras, com mais de 400 lugares, que foi instalada na Cinemateca Brasileira em anos anteriores. Com a virada do milênio e a popularização dos cinemas de shopping, festivais de cinema também ajudam a oxigenar as salas de rua. "A Mostra traz filmes do mundo inteiro, e isso a torna democrática. Um cinema de rua está sujeito a intempéries, e não enjaulado. A Mostra casa com o cinema de rua por esse espírito libertário", diz Adhemar Oliveira, gestor do Espaço Petrobras de Cinema, na rua Augusta. Fora da região central, filmes internacionais recém-saídos do forno também serão exibidos, de forma gratuita, nas periferias de São Paulo, por meio dos Centros Educacionais Unificados, os CEUs. Entre as intempéries urbanas e econômicas do último meio século, a Mostra se manteve firme. O desempenho é um alívio depois de, em setembro, o Festival de Brasília, o mais antigo do país, quase ter cancelado sua edição por falta de verba. "Um evento da área cultural fazer 50 anos é louvável", afirma Oliveira.

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