Livro mostra como o samba tamb�m nasceu no Nordeste

Livro mostra como o samba tamb�m nasceu no Nordeste

[RESUMO] Projeto de amplo escopo, que abarca do período colonial à Primeira República, "Um Inventário de Violas, das Cantorias e dos Sambas Nortistas (de 1800 a 1930)" propõe uma releitura da história da música brasileira. A obra desloca o foco habitual do Sudeste para a perspectiva dos estados nordestinos, chamados de nortistas no século 19. Com vasta gama de documentação histórica (leis, cartas, relatos de estrangeiros, reportagens), livro expõe o complexo caldo cultural que formou a sonoridade do país. Em 26 de maio de 1838, O Carapuceiro, periódico pernambucano, publicou um artigo sobre as "antipathias e sympathias" de senhoras grávidas. Nele encontramos o seguinte trecho: "Quem há hi, que ignore as extravagantes antypathias de muitas senhoras, quando se achão gravidas? Huma toma aversão à carne, outra ao peixe: huma deixa puding para comer grude de côco; outra despreza pasteis de nata, e vai fartar-se em textos de quartinha: huma enoja de gerubeba, que amarga, como fel; outra não pode ouvir hum concerto de flauta, e violão, e deleita-se de escutar hum birimbau, ou huma marimba de negro [...]". Na sociedade escravista do Brasil do início do século 19, só mesmo as senhoras (ou sinhás) brancas podiam ter direito a extravagâncias durante a gravidez. Quem estava atento a isso era o frei Miguel do Sacramento Lopes Gama, fundador e único redator do Carapuceiro, que circulou por Recife, entre 1832 e 1847, com o subtítulo "periódico sempre moral, e só per accidens politico". O olhar irônico do periódico lembra muito as crônicas que Machado de Assis publicou na coluna dominical A Semana, na Gazeta de Notícias, de 1892 a 1897, no Rio. Cinquenta anos depois do jornal pernambucano, o Bruxo do Cosme Velho também estava atento às contradições de uma sociedade que acabara de abolir a escravidão, mas pouco havia mudado em suas características estruturais escravistas. O que deixa evidente essa dinâmica no texto do Carapuceiro é a construção narrativa apoiada na oposição entre os hábitos "civilizados" e aqueles de uma natureza, digamos, mais "selvagem", só permitidos para as grávidas: trocar o "puding" por grude de côco ou desprezar um concerto de flauta e violão para deleitar-se com os sons do berimbau e da marimba (dos negros). Histórias como essa compõem o livro "Um Inventário de Violas, das Cantorias e dos Sambas Nortistas (de 1800 a 1930)", com organização de Rodrigo Caçapa, músico e pesquisador pernambucano. São quase 800 páginas em que podemos ter acesso a uma ampla variedade de documentos, de periódicos e dicionários a relatos dos viajantes "naturalistas" europeus do século 19, traduzidos dos originais em alemão, francês e inglês por Alexandre Barbosa de Souza, que também assume a função de editor do livro. Esse inventário abarca uma região do Brasil antes chamada de "nortista" —era assim que o Sudeste, no século 19, se referia ao Nordeste brasileiro. A pesquisa de Caçapa foi guiada por um interesse pelos mesmos sons e pelas mesmas músicas que Mário de Andrade já havia registrado em suas viagens ao "norte", em 1928/29, o que daria origem à expedição Missão Folclórica, de 1938, que documentou os cocos (tipo de dança de roda), os folguedos, as danças dramáticas, as cantorias, os sambas. Mas enquanto Mário narrou como uma experiência etnográfica aquilo que na época era chamado de folclore, Caçapa inventariou uma documentação que nos permite hoje mergulhar naquilo que denomino de cultura sonora. Tal noção deve ser compreendida como o conjunto de práticas, percepções e concepções associadas às sonoridades e às escutas de uma dada comunidade ou sociedade em determinadas circunstâncias históricas. Inclui não só a produção e a percepção dos sons ambientes, mas também projeções imaginárias, as epistemologias do som, as práticas auditivas e suas tecnologias, as escutas impostas ou compartilhadas, a (in)audibilidade de certas culturas e/ou grupos sociais, a organização musical dos sons e as formas como eles são percebidos e difundidos. A possibilidade de auscultar a cultura sonora nortista talvez seja a maior originalidade que este inventário de Caçapa nos traz, ainda que pelo filtro de escritos herdados dos letrados brasileiros, em geral marcados por preconceitos em relação ao tema. Como o próprio autor afirma na introdução: "É a tinta, a pena e a razão dos inimigos dos batuques e lundus, dos cocos, chulas, baianos, baiões e rojões, dos tambores de crioula e dos pagodes alagoanos que nos deixam entrever a pulsação, o balanço, a força musical e poéticas daqueles que tanto perseguiram, interditaram e maldisseram. É o Brasil, afinal". Inimigos, sim, mas alguns aliados também, como vimos através da fina ironia do Carapuceiro, trazendo a convivência entrelaçada entre os encantos do berimbau e da marimba dos negros e o desprezo pelo concerto de violão e flauta. Um complexo Brasil. Esse inventário de Caçapa se insere numa tradição de pesquisadores da primeira metade do século 20. Depois da geração de Mário de Andrade, Oneyda Alvarenga e Luiz Heitor Correia de Azevedo, esses estudiosos se interessaram pela cultura popular a partir de pesquisas independentes e obstinadas. Entre eles estavam o musicólogo padre Jaime Diniz, em Pernambuco, e jornalistas-pesquisadores-artistas como Ary de Vasconcelos, Jota Efegê, Edigar de Alencar, Almirante e José Ramos Tinhorão, no Rio de Janeiro. Antes de as universidades e as pesquisas acadêmicas se consolidarem no Brasil, a partir da segunda metade do século 20, textos desses autores construíram coleções de memórias. Trabalhando no Rio, que concentrava os principais meios de comunicação, esses pesquisadores realizaram uma verdadeira operação historiográfica, consolidando acervos estatais (por exemplo, o Museu da Imagem e do Som-RJ) e narrativas hegemônicas a partir de uma perspectiva do Sudeste, como analisa com precisão o historiador José Geraldo Vinci de Moraes no livro "Criar um Mundo do Nada" (Intermeios, 2019). Dessa operação, por exemplo, surge o mito (ou mistério) do samba nascido e criado no Rio. Caçapa, com a sua vertiginosa compilação de documentos, nos dá a possibilidade de reescrita dessa história, mas agora com um ponto de vista nortista. Por isso torna-se uma obra de referência. Para encerrar este texto, mais um exemplo saboroso coletado pelo livro. Em 25 de dezembro de 1922, o periódico fluminense Ilustração Brasileira publicou esta nota: [...] "Musica brasileira pelo telefone sem fio. O grupo artístico Turunas Pernambucanos realisou, às 8 ½ da noite, no studio montado no Palacio Moroe, pela Rio de Janeiro And S. Paulo Telephone Co., a audição de musical regional especialmente para ser reproduzida e ampliada por intermédio do telefone alto-falante da Companhia Estern Eletric, e irradiada pelo telefone sem fio, da Companhia Westinghouse, por intermédio da estação Corcovado". Na ocasião, os músicos nortistas Jararaca e Ratinho, que formavam os Turunas Pernambucanos, tocaram choro, embolada e toada sertaneja. Anos antes, em 1917, o carioca Donga havia gravado "Pelo Telefone", consagrado como o registro do primeiro "samba" por aqueles pesquisadores fluminenses que falamos acima. Mas é irônico e sintomático que a primeira transmissão por "telefone sem fio" tenha sido feita por nortistas —o que mostra como as violas, as cantorias e os sambas nortistas formavam o mesmo caldo cultural dos sambas do Rio. Os compositores Roberto Mendes e Jorge Pontual talvez tenham feito a melhor síntese disso na canção "O Samba Antes do Samba": "O samba já existia antes do samba/ Lá no Recôncavo onde tudo começou/ Passaram-se muitos anos e muitas rodas de bamba / Só bem depois o telefone tocou, tocou/ Pra avisar o resto do Brasil/ O que Ciata sabia e lhe contou/ Pelo telefone o som chegou ao Rio/ Mas foi na Bahia que ele começou". Talvez tenha começado na Bahia. Mas também começou em Pernambuco, em Alagoas, no Rio Grande do Norte —enfim, na diversidade nortista dos muitos Brasis.

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