Em junho de 2025, em entrevista à Folha, disse que o Brasil precisava de um novo Plano Real. Defendia que o país precisava reunir suas principais lideranças políticas, empresariais, econômicas e sociais para construir um entendimento capaz de enfrentar o desequilíbrio das contas públicas e permitir que os juros voltassem a um patamar civilizado. Passado mais de um ano, a urgência daquela convocação só aumentou. Precisamos não apenas de um novo Plano Real para as contas públicas, mas de um pacto nacional para recuperar a capacidade de crescimento da economia e superar um dos maiores entraves ao nosso desenvolvimento: o custo extraordinariamente elevado do dinheiro. A reação dos mercados financeiros ao resultado das eleições merece reflexão. A alta do dólar e a queda das Bolsas foram apresentadas como se o país tivesse se tornado, de uma hora para outra, economicamente diferente. Mas o que mudou na estrutura produtiva, no endividamento das famílias, na capacidade de nossas empresas ou na situação fiscal do Estado? Nada disso se transforma de um dia para o outro. O que houve foi, em grande medida, a frustração das apostas de investidores. O mercado tem todo o direito de expressar suas expectativas, mas não recebeu das urnas o mandato para determinar sozinho como o Brasil deve organizar seu ajuste. Mas há uma questão ainda mais preocupante: estabeleceu-se uma espécie de interdição ao debate sobre os juros. Todos reconhecem que precisam cair, mas qualquer discussão sobre como alcançar esse objetivo que não se limite a cortes de despesas públicas é recebida com desconfiança ou desqualificada antecipadamente. O debate suscitado pelo trabalho técnico do economista André Lara Resende é um exemplo dessa dificuldade. Não precisamos concordar com suas propostas para reconhecer a importância de discuti-las. O que não podemos aceitar é que sejam censuradas antes mesmo de um debate lúcido. Uma sociedade que pretende resolver problemas complexos não pode transformar em tabu a discussão sobre o custo mais elevado da economia. Existe um consenso nacional: precisamos reduzir os juros. O endividamento dos indivíduos, das famílias, das empresas e dos governos exige isso. Precisamos, também, de responsabilidade fiscal. É necessário rever despesas, combater desperdícios, avaliar subsídios, eliminar privilégios e melhorar a eficiência do Estado. Mas o ajuste não pode, simplesmente, transferir a conta para os programas sociais e para quem mais depende deles. Há uma característica curiosa no Brasil: todos defendem o ajuste fiscal, desde que seja feito à custa dos outros. Cada segmento da sociedade tem sua proposta, mas quase sempre a despesa a ser cortada é aquela da qual não se beneficia. Quando se chega aos próprios interesses, desaparece a disposição para o sacrifício. Isso vale para todos, inclusive para o mercado financeiro. Também não podemos limitar a discussão ao resultado primário. Quando o déficit nominal se aproxima de 10% do PIB, é indispensável reconhecer o peso dos juros nessa equação. Nos 12 meses até agosto de 2026, os juros nominais do setor público custaram R$ 1,18 trilhão, ou 8,86% do PIB. Não há como discutir a sustentabilidade da dívida ignorando esse custo. Não se trata de defender a redução artificial dos juros. Trata-se de reconhecer que a política monetária também precisa ser discutida, que suas premissas não são dogmas e que a autonomia do Banco Central, conquista institucional importante, não significa ausência de debate ou imunidade à crítica. Precisamos reunir a inteligência nacional em torno de uma mesa não para impor uma solução previamente escolhida, mas para construir um diagnóstico comum e avaliar alternativas que compatibilizem equilíbrio fiscal, estabilidade monetária, redução dos juros e crescimento. O Plano Real foi bem-sucedido porque o Brasil conseguiu superar divergências e construir um consenso em torno de um objetivo maior. É essa capacidade de diálogo que precisamos recuperar. A eleição terminou. As apostas de parte do mercado foram frustradas. Mas nossos problemas estruturais continuam. É hora de abandonar a disputa sobre quem deve pagar a conta e começar a discutir como podemos torná-la menor para todos. O Brasil precisa de responsabilidade fiscal, monetária e social. Mas precisa, sobretudo, de coragem para pensar diferente, generosidade para ouvir e maturidade para construir soluções. Se não formos capazes de nos sentar à mesma mesa, continuaremos presos a juros que sufocam nosso presente e comprometem nosso futuro. E não podemos mais nos dar esse luxo. TENDÊNCIAS / DEBATES Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo.
Interdi��o ao debate sobre os juros tem de acabar
Full Article
Original Source
Read the full article at Www1 →KhanList aggregates and links to publicly available news content. We do not host full articles from third-party sources. Always verify important information with original sources.