Lydia Davis está preocupada com o quanto a inteligência artificial suga os recursos do mundo e "arruína paisagens inteiras" com seus enormes "data centers". Mas se preocupa ainda mais com o quanto ela está devorando o processo criativo de seus pupilos. "Não acho que vale o sacrifício", diz a autora americana, professora emérita da Universidade do Estado de Nova York em Albany, logo antes de aliviar o tom com uma brincadeira. "Francamente, não tenho certeza de que temos que saber tanta coisa assim." O problema não é bem a IA nem a internet —Davis lembra que desde a invenção da televisão o discurso geral e a articulação de ideias têm se tornado mais uniformes—, mas o fato de que hoje estamos "quase sendo treinados para ter déficit de atenção". "Recomendo aos meus alunos que tirem longas férias do celular, e alguns acham quase impossível ficar sozinhos com os próprios pensamentos. A concentração é fundamental para escrever, e estamos sendo privados dela." Tudo a Ler Receba no seu email uma seleção com lançamentos, clássicos e curiosidades literárias Nesta entrevista, a autora de 79 anos expande ideias que aparecem no seu livro mais recente —a compilação de ensaios "Um Pato Amado É Assado", traduzida por Camila von Holdefer para a WMF Martins Fontes— com orientações de uma veterana admirada sobre o processo de escrita. Uma de suas dicas, como ela reforça na afável conversa em vídeo com o repórter, é lembrar que "o jeito antigo de ir até uma enciclopédia para procurar alguma coisa era bom". "Embora recursos online sejam práticos, muitos deles são imprecisos, montados às pressas e/ou mal escritos", aponta ela no livro. "Pode-se dizer que, quanto mais antiga for a edição [de um livro], melhor ela é, ou ao menos mais cuidadosamente editada. E muito do conteúdo não vai estar desatualizado." Ler de tudo é um bom remédio, mas um conselho direto da autora é priorizar obras mais antigas. "Você não quer uma dieta constante de literatura contemporânea. Você já pertence ao seu tempo." Diz, afinal, que ler "Memórias Póstumas de Brás Cubas", de Machado de Assis, a despertou para o uso de capítulos curtos. E a "sensibilidade bizarra" e as "estranhas vozes narrativas" de Clarice Lispector a tocaram. Antes de continuar, é preciso deixar claro que Lydia Davis é uma das maiores escritoras dos Estados Unidos. Em 2013, passou a ocupar um panteão de apenas seis autores, ao lado de Philip Roth, Chinua Achebe e Alice Munro, quando foi reconhecida com o prêmio Man Booker Internacional pelo conjunto de sua obra. A distinção foi concedida de 2005 a 2015. Seu trabalho, porém, é pouco conhecido e publicado no Brasil. O escritor e editor Joca Reiners Terron, responsável por lançar agora os ensaios da autora na preciosa coleção Errar Melhor, tem pistas do porquê. "Antes de tudo, ela privilegia a forma curta, mal vista entre editores", afirma. "Além disso, formas curtas que não cabem em nenhum chiqueirinho: não são contos, nem poemas, nem ensaios. Então são o quê? Literatura livre, que reinventa a escrita como sinônimo de liberdade." Os textos curtos a tornaram célebre, mas a autora jura que não planejou isso. Pensa em bons começos —um exemplo é a frase de onde se pinçou o título da nova coletânea, "um pato amado é assado por engano"— e toca adiante até o ponto final, seja onde ele estiver. "Eu gosto de dinheiro, mas nunca senti que precisava ganhar dinheiro com meus livros, ou seja, que eles precisariam ser coisas vendáveis", diz a professora de carreira, ao recusar a ideia de que escrever em formatos insólitos seja arriscado. "Nunca senti isso. Então escrevo para agradar a mim mesma e a leitores como eu." Suas duas obras publicadas pela Companhia das Letras, "Tipos de Perturbação" e "Nem Vem", são rotuladas simplesmente como "ficções" —foram traduzidas por Branca Vianna. Seu único romance, "O Fim da História", saiu pela José Olympio com tradução de Julián Fuks e é melhor descrito como um estudo a quente sobre o que é fazer um romance. Davis resiste ao rótulo de "autora experimental" atribuído a ela com frequência. Diz que as pessoas usam essa palavra para qualquer coisa que "as deixe confusas, que pareça esquisita ou estranha". "Experimental dá a entender que o autor tinha um plano para testar alguma estratégia de escrita previamente concebida, para ver se funcionava", argumenta. "Como no geral prefiro começar um texto sem um plano definido e sem saber exatamente o que estou fazendo, não acho que os contos que resultam desse processo sejam, de forma alguma, experimentais." Terron lembra que Davis "tem um verdadeiro séquito nos cursos de escrita" brasileiros. "Ela descomplica algo que pode parecer muito complicado, escrever, e aponta trilhas pouco batidas na forma e nas influências. Basicamente, mostra que se você ler o que todos estão lendo, vai escrever algo que todos estão escrevendo. Seus ensaios generosamente apontam a saída do ciclo vicioso." Uma das recomendações mais inusitadas da americana é que os potenciais escritores aprimorem suas próprias personalidades. "Sempre digo aos estudantes para trabalhar em suas habilidades de percepção, na sua capacidade de discernir as coisas e manter a mentalidade aberta. Porque você é o instrumento. Se você não é curioso e se tem a cabeça fechada, sua prosa vai ser limitada." Escrever não é só transmitir o que você pensa à página, segundo ela. É também pensar melhor. "Ao revisar uma frase, afinal, você revisa não só as palavras da frase, mas também o pensamento que está contido nela", escreve Davis. "Você não consegue pegar originalidade emprestada", diz a autora durante a entrevista, o rosto severo, os óculos grossos e o cabelo grisalho contrastando com seus olhos claros de criança. "Tudo tem que vir de dentro de você. Quanto mais individual você for, mais individual será sua escrita." Leia a íntegra de três textos de Lydia Davis Ideia para um Documentário de Curta-Metragem Representantes de diversos fabricantes de produtos alimentícios tentam abrir suas próprias embalagens. A Insônia Meu corpo dói tanto —Deve ser esta cama pesada me apertando. A Mosca No fundo do ônibus, no banheiro, este micropassageiro ilegal, a caminho de Boston. (de "Tipos de Perturbação", publicado pela Companhia das Letras com tradução de Branca Vianna)
IA n�o vale o sacrif�cio, n�o temos que saber tanta coisa assim, diz Lydia Davis
Full Article
Original Source
Read the full article at Www1 →KhanList aggregates and links to publicly available news content. We do not host full articles from third-party sources. Always verify important information with original sources.