Formas sinuosas em negro profundo preenchem tecidos quase translúcidos e folhas de papel arroz. O suporte frágil recebe a tinta de asfalto sólida, impenetrável, quase invertendo a lógica de quem suporta quem. Com cerca de 50 obras ao longo do espaço expositivo, os trabalhos de Germana Monte-Mór marcam uma retomada de sua produção realizada nos anos 1990, com obras de mais de 30 anos, algumas delas exibidas pela primeira vez. A exposição "Germana Monte-Mór: Geologia da Forma", na Galeria Leme, na zona oeste de São Paulo, reúne trabalhos que permaneceram guardados por décadas e que agora voltam a ocupar o espaço expositivo. O conjunto foi redescoberto pelo galerista Eduardo Leme durante uma visita ao ateliê da artista e reúne diferentes séries produzidas ao longo de aproximadamente dez anos. "Eu tinha tudo isso guardado e tinha vontade de mostrar. Há muito tempo que eu tinha vontade de mostrar", afirma Monte-Mór. A artista havia apresentado parte desses trabalhos em uma exposição na Casa Triângulo, em 1995, mas grande parte da produção permaneceu arquivada em mapotecas. A retomada permite acompanhar um momento particular da trajetória de Monte-Mór, quando a artista investigava as possibilidades do asfalto como matéria e linguagem. O material surgiu de sua experiência com a gravura em metal, em que substâncias derivadas do asfalto são usadas para proteger a placa antes da aplicação do ácido. Interessada pela densidade e pela tonalidade ambígua do material, que não é exatamente preto nem marrom, a artista passou a empregá-lo diretamente sobre diferentes suportes. A mudança também esteve ligada ao desejo de ultrapassar os limites da gravura. A prensa restringia o tamanho das obras, e Monte-Mór queria ampliar a escala de suas formas. Foi assim que começou a trabalhar com o asfalto sobre papéis finos, como o papel arroz, o papel de seda e o papel manteiga, além de tecidos leves. Essa expansão afastou a artista da representação figurativa. Monte-Mór havia desenhado a figura humana e trabalhado com modelo vivo, mas, ao ampliar sua pesquisa, passou gradualmente a dissolver a relação entre figura e fundo. As formas abstratas foram se definindo no próprio processo de trabalho. "Não veio de um interesse pensado de antemão. Estava mais interessada nessa experiência com os materiais", afirma. A exposição reúne diferentes séries produzidas nos anos 1990, em que a construção das imagens se dá ora pela linha, ora pelo gesto, ora pela criação de formas que ocupam o espaço como um todo. A pesquisa com o material continuou nas décadas seguintes, embora sobre suportes diferentes. Ao passar para papéis mais espessos, Monte-Mór começou a explorar os halos produzidos pelo óleo do asfalto. Depois, introduziu gradualmente a cor, primeiro em combinações com o preto e, mais tarde, de maneira mais ampla. "Eu sou uma artista que trabalha através do próprio trabalho, do ateliê", afirma. "Eu faço, olho o que eu fiz, e aquilo me dá informações para eu continuar meu trabalho." O título da exposição, "Geologia da Forma", também se relaciona à trajetória dessa pesquisa. Inicialmente, o curador Diego Matos havia proposto "Geologia do Desenho", mas Monte-Mór preferiu evitar a antiga discussão sobre se seus trabalhos deveriam ser classificados como desenho ou pintura. A mudança também remete às formas abstratas que, ao longo de sua trajetória, foram associadas por críticos à paisagem e à geografia.A retomada da produção acontece em um momento em que Monte-Mór vê a arte contemporânea mais concentrada em questões sociais e antropológicas. A artista afirma preferir uma investigação voltada à própria linguagem da arte, especialmente às relações entre forma, matéria e espaço. "Eu gosto de discutir as questões formais da arte, da linguagem da arte", diz. Para ela, cuja formação se deu em artes e ciências sociais, a predominância de abordagens antropológicas também teria reduzido o espaço para pesquisas formais. "Acho que a arte antropológica tomou conta", afirma. "E eu acho que isso também é um pouco uma reação a isso, porque eu acho que a gente tem que voltar a pensar na linguagem da arte." "Eu não sou contra a arte antropológica, eu acho que ela tem que existir. Mas eu acho que a gente não pode deixar de fazer outras coisas", afirma. "A arte é muito mais ampla do que isso."
Germana Monte-M�r retoma obras dos anos 1990 em mostra em S�o Paulo
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