"Eu sou dono desse corpo/Faço dele o que quiser/ Mas o prazo do meu mando/ Vai só até onde lhe aprouver". Estes são os quatro primeiros versos do poema "Nós", uma das produções mais obscuras na história da literatura (ignora-se, inclusive, se seria a quadra o poema inteiro ou parte de uma obra maior). Não é que possíveis estrofes tenham se perdido na Batalha de Alcácer-Quibir, no naufrágio do Titanic ou na gaveta de um boticário bocaiuvense que em 1887 enlouqueceu de amores pela filha de um coronel e tomou formicida com suco de buriti, é que as estrofes ainda não foram escritas. Rascunhei essas mal traçadas hoje de manhã, enquanto corria: ainda não sei se é "game over" ou "to be continued". Geralmente corro com fone, ouvindo música ou podcast e fica difícil compor versinhos –mesmo redondilhas bestas como as de acima. Hoje, no entanto, corria numa estrada de terra em Ubatuba e de tempos em tempos tinha que parar de contemplar a mata e o céu azul, pois o cenário bucólico era atravessado por um Jeep, um Corsinha ou um busão a 390 km/h. Fones de ouvido, portanto, eram tão recomendáveis quanto antolhos. (gostaria de deixar claro que, no parágrafo anterior, usei "atravessado" em seu sentido literal. A estrada cortava a mata atlântica, e, portanto, um carro que por ela passasse "atravessava" o "cenário bucólico". O dia em que vocês me virem "atravessado por afetos" ou cometendo qualquer "atravessamento" do tipo, por favor, ofereçam-me formicida com suco de buriti). Pois, correndo eu sem fone, ouvidos atentos à estrada, dando-me ao luxo de contemplar a mata e o céu, a mente também corria solta e lá pelo segundo quilômetro se pôs a sussurrar versinhos. Começou quando conferi o relógio que mede a frequência cardíaca e reparei: apesar de tê-lo há anos, nunca ajustei o horário. "Tenho um relógio que não marca o tempo/ Ele só aponta o que passa aqui dentro". Aqui dentro tava dando 167 BPM —era um ladeirão —de modo que diminuí a marcha, caminhando. Enquanto pela estrada afora eu ia bem sozinho (com exceção dos eventuais Jeeps, Corsinhas e buzões assassinos), pensei com certa satisfação: estou fazendo algo bom pelo meu corpo. Constatei, também satisfeito, que ele, em gratidão, me lançava endorfina, serotonina, dopamina, noradrenalina e outras adoráveis serpentinas. Neste ponto, já voltando a correr, pareceu engraçado que eu estivesse me vendo nesta dualidade: "eu" fazendo bem "ao meu corpo", "meu corpo" grato "a mim". Quem me (nos?) visse correndo ali certamente enxergaria um ser humano só. Além da discutível dualidade, havia outra questão subjacente. Comer uma picanha, sendo um prazer dos sentidos, não seria "fazer bem" ao corpo? Da mesma forma, o estoico esforço físico de correr não seria para o regozijo da mente? Eu sei, eu sei, essa conversa pode ir de marcha à ré do iluminismo até Platão e aquém, mas o espaço é curto e seu tempo, imagino, também. Abraçamos, por ora, a dualidade. Lembro de um poema do Leminski: "Fiz um trato com meu corpo./ Nunca fique doente./ Quando você quiser morrer,/ eu deixo." Quero um trato diferente. "Corpo querido, tamo junto nesta/ Gostamos de uma corrida/ Também de uma boa festa/ Façamos então um pacto/ Ontem, picanha no bar/ Hoje, corrida no mato/ Evito os carros e os tombos/ Afaste as cáries e os trombos/ Desse corre quero cada milímetro/ Um olho no céu, outro no frequencímetro". LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
Eu, voc�, n�s dois
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