Fazia tempo que eu não me refugiava do desespero nas páginas dos ensaios de Montaigne. Busquei o livro depois da implosão pública do STF por seus próprios membros, coroando anos de indiferença a toda sorte de alertas, na famigerada reunião de 15 de setembro, e calhou de o abrir justamente no capítulo sobre o útil e o honesto. Montaigne traça uma linha firme entre o pragmatismo da razão de Estado e a integridade da consciência individual. Na contradição entre o que é útil para o Estado (ou, atualizando, oportuno para si e para os seus, quando a serviço do Estado) e o que é honesto segundo a consciência moral, ele não titubeia. Os fins não justificam os meios. Um tipo como André Mendonça poderia até querer reconhecer aí algum acolhimento, justificativa ou aprovação para a condução de seus atos, mas só se por aí também interrompesse a leitura. Logo em seguida, Montaigne se pergunta se recorrer a Deus em questões de justiça entre os homens não será vã invocação da bondade divina ou simples confissão da própria iniquidade: "Quando ele [o homem], de braços cruzados, apelar à ajuda de Deus, não deverá esperar também que a bondade divina recuse o favor de sua mão extraordinária a outra que já é pura e justa?". Montaigne viveu em meio à violência e ao caos das guerras de religião e escreveu seus ensaios com o pé no freio da prudência em relação ao Estado absolutista nascente, num contexto que, embora historicamente diverso, faz pensar na atual investida mafiosa da "pós-verdade" contra as instituições do Estado democrático —em nome de uma cleptocracia, como já ficou claro para quase todo o mundo. Ele cita o exemplo dos reis do Egito que faziam seus juízes jurar que não se desviariam de sua consciência nem mesmo por ordens que eles próprios pudessem se dar. A graça do paradoxo é a condenação embutida na incumbência: "Quem lhes confia tal tarefa está, na verdade, acusando-os e impondo-lhes um fardo e uma punição —pois na mesma medida que os negócios públicos melhoram com seus serviços, pioram os seus próprios negócios; quanto melhor desempenham a tarefa, pior é a consequência para si mesmos". O humanismo de Montaigne o leva a acreditar no homem apesar das contradições. Afinal, como temos sido forçados a entender, de nada podem as instituições se o homem não está à sua altura. E como os homens não são iguais, tampouco se podem equiparar opostos, por mais que nenhum seja perfeito. É daí que vem a defesa da honestidade, e o alerta de que a confissão da virtude também cabe na boca daquele que a odeia —e que, se não quer acolhê-la em si, "ao menos dela se reveste como adorno". É onde estamos, diante de uma eleição que, sob a régua do cinismo mais descarado, pode oficializar o gangsterismo e a impunidade como razão de Estado, com o pior criminoso adornado com a fantasia rasgada do combate à corrupção, que sempre é útil a muita gente. Assim como há homens, também há crimes e crimes. E no âmbito político do Estado democrático de Direito, nenhum é mais grave do que a tentativa de sua abolição, o que por certo denota utilidades e interesses escusos e privados. Há homens que podem e querem compreender isso, outros não, entre cegos e interessados. É o que faz a diferença entre o voto honesto e o útil. Pelo menos desde Machado de Assis, sabemos que a civilização no Brasil não passa de um verniz enganoso. Enquanto uma parte desvalida da população vota eventualmente no crime, não propriamente por ignorância mas por não ter nada a perder (nem a ganhar com o verniz), a minoria autodenominada liberal que com ele se adorna faz o mesmo, só que por negócio, para se ver livre dos limites que lhe impõem as leis, a regulação e os impostos, três fundamentos da civilização. São duas visões ou representações diferentes do crime e do suicídio, mas cuja combinação faz a tempestade perfeita para o começo de uma farsa e o fim de um país. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
Elei��o pode oficializar o gangsterismo e a impunidade como raz�o de Estado
Full Article
Original Source
Read the full article at Www1 →KhanList aggregates and links to publicly available news content. We do not host full articles from third-party sources. Always verify important information with original sources.