No RG, o sobrenome é Rodrigues de Rezende, mas Jeferson escolheu a preposição para assinar seu primeiro filme. E assim ficou —Jeferson De. O cineasta, autor de títulos como "Bróder", "Narciso" e "Doutor Gama", ganha agora uma retrospectiva de sua obra no Espaço Petrobras de Cinema, no centro de São Paulo, desta quinta-feira (30) até 5 de agosto, como parte do Festival Cineastas de São Paulo, em parceria com a Folha. Os ingressos custam R$ 20 a inteira. O cineasta, de 58 anos e com 25 de carreira, nascido em Taubaté, no interior paulista, lembra como concebeu o nome. Provavelmente seus antepassados foram escravizados pelo barão de Resende, empresário poderoso pelo estado de São Paulo no século 19. Já Rodrigues é sobrenome europeu. Não seria impossível que tivesse sido passado de um senhor de terras a um alforriado. "Então esse nome é ridículo! Como é que eu podia chamar ‘Jeferson Rezende’?", diz. Sobrou o "De". Essa consciência de suas origens, e o que isso revela sobre o lugar que o negro ocupa na sociedade brasileira ao longo dos séculos, diz muito sobre a cinematografia de Jeferson De. Ele é autor do Dogma Feijoada, manifesto de 2000 que —brincando com o Dogma 95, de cineastas como Lars von Trier— atualizou o debate sobre a imagem do negro no cinema nacional, mirando uma produção negra autêntica, fugindo de estereótipos. Entre os sete pontos destacados no texto, os filmes deveriam ser dirigidos e protagonizados por pretos, além de evitarem super-heróis ou bandidos. No curta "Carolina", que retoma a história de Carolina Maria de Jesus, com Zezé Motta no papel da escritora, e em "Doutor Gama", drama biográfico sobre o líder abolicionista Luiz Gama, o cineasta mostra sua preocupação em trazer para o cinema as contribuições intelectuais dos negros no Brasil. A sessão deste último, no domingo, 2 de agosto, será seguida por um debate com o diretor e o jornalista do jornal Naief Haddad. "Tenho consciência de que pessoas que me antecederam abriram portas para minha chegada. Ruth de Souza, Milton Gonçalves, Léa Garcia, Antonio Pitanga são algumas delas", diz o cineasta. "Aprendi com eles que a luta é silenciosa, detalhista, estratégica, com algumas derrotas e muitas vitórias, mas sobretudo de muita troca." Seu longa mais recente é "Narciso", lançado neste ano, com Seu Jorge. A trama acompanha um menino órfão que não aceita sua cor, em meio a conflitos com a própria identidade. A principal ponte entre o cinema independente e o horário nobre da TV Globo se deu com "Bróder", filme que narra as trajetórias de três jovens do Capão Redondo, periferia de São Paulo. O filme de 2010, com Caio Blat, Jonathan Haagensen e Silvio Guidane, teve entre os produtores peixes grandes como Daniel Filho e Cacá Diegues. O longa de 2010 será exibido na noite desta quinta-feira (30), numa projeção em película, seguida de debate Carol Rodrigues, cineasta de Criadas", e Tatiana Carvalho Costa, presidente da Associação de Profissionais do Audiovisual Negro, a Apan. A medição será de Daniela Romão, especialista em regulação audiovisual. De foi um dos responsáveis por trazer mais rostos negros para as novelas da Globo. Foi diretor-geral de "A Garota do Momento", novela das seis que teve Duda Santos no papel principal. Agora, vai para a faixa das sete, com a inédita "Por Você", a ser protagonizada por Sheron Menezzes. Em paralelo, De prepara o longa "Carolina - Quarto de Despejo", que retoma trechos da história de vida da escritora Carolina Maria de Jesus em adaptação do diário em que narrava sua difícil rotina de fome, publicado em 1960. "Sem dúvida, o meu maior orgulho é colaborar para a diversidade nas equipes, sobretudo de pessoas pretas", diz. "Obviamente, não estamos em muitos espaços de decisão. Mas estamos construindo com muita solidez um diálogo importante, e ter a escuta tem sido fundamental." Veja a programação ‘Narciso’ Qui. (30), às 15h; sex. (31), às 19h10 ‘Bróder’ Qui. (30), às 19h10, (projeção em película seguida de debate com Carol Rodrigues e Tatiana Carvalho Costa e mediação de Daniela Romão); sáb. (1º), às 19h10; seg. (3), às 15h ‘M-8 – Quando a Morte Socorre a Vida’ Sex. (31), às 15h; seg. (3), às 19h10 ‘Doutor Gama’ Sáb. (1º), às 15h; dom. (2), às 17h, seguida de debate com o diretor Jeferson De e o jornalista da Folha Naief Haddad Sessão de curtas, com "Carolina", "Narciso Rap", "Distraída pra Morte", "Jonas, Só Mais Um?" e "Gênesis 22" Dom. (2), às 15h ‘O Amuleto’ Ter. (4), às 15h; qua. (5), às 19h10 ‘Correndo Atrás’ Ter. (4), às 19h10; qua. (5), às 15h
Cineasta Jeferson De ganha retrospectiva em festival de S�o Paulo; veja programa��o
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