Pela primeira vez, astrônomos detectam a presença de uma atmosfera num exoplaneta rochoso a orbitar a zona habitável de uma estrela anã vermelha, passo essencial na busca por vida fora do Sistema Solar. O planeta em questão é o LHS 1140b, localizado a 48 anos-luz da Terra. Ele está longe de ser um alvo ideal para essa ambiciosa busca. Mas é um alvo possível. Idealmente, o mais lógico seria estudar planetas que guardassem a maior similaridade possível com o nosso, ou seja, orbitassem uma estrela como o Sol, tivessem mais ou menos o mesmo tamanho da Terra e estivessem na chamada zona habitável do sistema –região em que a distância entre o planeta e sua estrela-mãe viabiliza a presença de água na superfície. Ocorre que ainda não temos satélites capazes de descobrir esses mundos (em breve teremos, com o lançamento do europeu Plato, em março de 2027) e mesmo nossos telescópios espaciais mais potentes, como o James Webb, teriam dificuldades em estudá-los. Para essa fase inicial de caracterização e estudo de exoplanetas rochosos, a pesquisa está limitada aos que orbitam as anãs vermelhas. São as menores e mais frias estrelas que existem, mas paradoxalmente são estrelas muito ativas, que vivem disparando furiosas rajadas de ultravioleta e raios X, sobretudo em sua juventude. Por essa razão, muitos astrônomos consideravam impossível que um planeta conseguisse preservar uma atmosfera pelos bilhões de anos exigidos para a evolução biológica. Ela logo seria varrida pela potente radiação estelar. Em todo caso, ciência é feita de verificações, e os astrônomos vêm se dedicando a observar esses planetas talvez condenados. Por isso veio como uma boa surpresa a detecção em LHS 1140b. O trabalho liderado por Collin Cherubim, do Centro para Astrofísica Harvard & Smithsonian, e colegas, publicado na Science, se baseia em dados colhidos no Observatório de Las Campanas, no Chile, que acompanhou o sistema por 6,5 horas em 23 de setembro de 2024 enquanto os dois planetas conhecidos (b e c) faziam um trânsito à frente da estrela. Os resultados não trouxeram evidência de atmosfera no planeta c, menor e mais interno, mas indicaram um sinal de escape de hélio do planeta b, que tem 5,6 massas terrestres e um diâmetro 73% maior que o da Terra, completando uma volta em torno da estrela a cada 24,7 dias. O escape de hélio detectado indica a presença de uma atmosfera em que esse gás é dominante. Os cientistas imaginam que, embaixo dele, haja outros gases, mas eles não foram detectados e ninguém sabe quais seriam. Uma atmosfera de hélio lembra muito mais a composição de planetas gigantes, e não seria loucura pensar que o LHS 1140b começou como um mininetuno que foi perdendo sua atmosfera ao longo dos últimos 3 bilhões de anos (idade mínima estimada do sistema). Com isso, acabou ficando mais parecido com um planeta rochoso, mas com uma presença significativa de hélio no ar remanescente. Embora seja bem diferente da Terra, o achado é animador. Primeiro, valida o esforço de dar uma olhada em planetas em torno de anãs vermelhas, que podem nos surpreender preservando atmosferas mesmo depois de bilhões de anos. Segundo, ele sugere que há mais de um caminho evolutivo possível para um planeta potencialmente habitável. LHS 1140b é bem diferente da Terra, mas pode muito bem ter água líquida na superfície e condições para abrigar algum tipo de vida. Essa possibilidade, contudo, é algo ainda a investigar. Siga o Mensageiro Sideral no Facebook, Twitter, Instagram e YouTube LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
Atmosfera em planeta de an� vermelha avan�a busca por vida
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