Em 2016, o Dicionário da Universidade de Oxford escolheu "post-truth" ("pós-verdade"), como a palavra do ano, descrevendo-a como "circunstâncias nas quais fatos objetivos têm menos influência na formação da opinião pública do que apelos à emoção e às crenças pessoais". Embora conhecida há tempos, ela ganhou consistência entre os anos 2015 e 2016, diante de acontecimentos que impactaram a geopolítica contemporânea, com destaque para o referendo britânico sobre a saída da União Europeia e a eleição presidencial dos Estados Unidos. A expressão identifica o fenômeno da circulação de informações falsas ou enganosas, emocionalmente apelativas, sobretudo através de mídias sociais, não raro geradas por meio de inteligência artificial, que adulteram ou distorcem a realidade dos fatos. Hannah Arendt, muito antes, já advertia, em sua consagrada obra "Origens do Totalitarismo", que a destruição sistemática da verdade não busca apenas levar as pessoas a acreditarem em mentiras, mas corrói a própria crença na existência de uma verdade objetiva que pode ser conhecida. O sistemático falseamento da verdade factual, cada vez mais recorrente, faz com que a vida pública perca o seu contato com a realidade e coloque em risco a própria democracia, tornando-a vulnerável a toda a sorte de manipulações. O debate democrático depende do compartilhamento de um conjunto básico de fatos entre as pessoas, sobre os quais não pairem quaisquer dúvidas, inobstante possam elas legitimamente divergir no tocante ao significado ou aos valores que encerram, sem que lhes seja lícito tergiversar quanto à sua ocorrência na realidade concreta, sob pena de tornar impossível qualquer diálogo racional. A democracia pressupõe plena liberdade de escolha dos governantes, por parte dos eleitores, sendo imprescindível que, ao depositarem os respectivos votos nas urnas, façam suas escolhas a salvo de quaisquer constrangimentos físicos, morais ou psicológicos com o potencial de induzi-los a erro ou deturpar a espontaneidade de sua vontade soberana. Como podem os cidadãos, nessa nova era, defender-se das chamadas fake news, em especial as geradas pela inteligência artificial e impulsionadas por robôs? Primeiramente, precisam conferir a origem da informação antes de compartilhá-la com terceiros. Depois, têm de identificar a data e o contexto em que foi produzida, abstendo-se de difundir conteúdo duvidoso ou não verificado. Por fim, devem utilizar apenas canais oficiais e fontes confiáveis para formar sua convicção. É essencial enfrentar as atuais milícias digitais, que as divulgam. Cumpre denunciar conteúdos enganosos às plataformas e autoridades, bem como evitar a amplificação de ataques a pessoas ou instituições, recorrendo a canais oficiais para checar as informações recebidas. Impedir a proliferação de notícias falsas e a naturalização da pós-verdade é dever de todos para a preservação da democracia, único regime que pode assegurar uma convivência minimamente civilizada às presentes e futuras gerações. TENDÊNCIAS / DEBATES Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo.
A era da p�s-verdade e as elei��es de outubro
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