Em setembro de 2024, na "Prainha" em São Francisco do Sul (SC), uma cena particular me chamou atenção: a mãe, de mãos dadas com a criança que devia ter no máximo 3 anos, pergunta se temos uma luva de tamanho menor, pois o filho queria ajudar no mutirão de limpeza. Fiquei pensando o quanto uma ação ambiental marca a vida de uma criança. A minha marcou profundamente, não à toa, desde os 7 anos dizia que queria "salvar o planeta". Quando aprendemos sobre educação ambiental, entendemos a importância de preservar a natureza, sobretudo águas, florestas, rios e mares. Falando em mar, além de todos os benefícios de biodiversidade, de ser a base da cadeia alimentar de boa parte da população em alguns países e de ser o maior regulador térmico global, o oceano carrega 80% de tudo que recebemos e importamos. Sua relevância vai além: ele é a passagem pela qual dados trafegam em cabos submarinos. Sim, ele está presente em momentos que sequer imaginamos. Não obstante, ele tem ganhado espaço em fóruns nacionais e internacionais. Do campo às conferências internacionais, o oceano impõe perguntas sobre como protegê-lo, que poderiam ser feitas por uma criança, e que ainda temos dificuldade em responder. Em 2024, na última Conferência da Década do Oceano, em Barcelona, o Pacto Global da ONU – Rede Brasil discutiu como descarbonizar e fazer uma transição justa. Hoje, celebramos uma conquista histórica dentro de casa: o Inventário Nacional de Resíduos acaba de ultrapassar a marca de 100 mil itens catalogados. Mas há um dado que nenhum fórum internacional consegue contornar. Em terra, são gerados 80% dos resíduos que vão parar no mar. É o que mostra o Blue Keepers, carinhosamente chamado BK, que visa mobilizar recursos e engajar empresas, governos e sociedade civil no combate à poluição crônica do oceano por resíduos sólidos, especialmente plásticos, em concordância com o ODS (Objetivos de Desenvolvimento Sustentável) 14 e a Agenda 2030. Criado em 2021, o programa já trouxe muitos dados científicos para o debate. Descobrimos que cada brasileiro gera cerca de 16 kg de resíduos por ano, com potencial de escape, ou seja, podem acabar no corpo hídrico e, como o slogan do programa diz, "todos os caminhos levam ao mar". Após estes levantamentos iniciais, nos debruçamos em aumentar pontos de coleta amostrais, por meio de parcerias locais e do interesse das empresas apoiadoras. Cada local determinado tem quatro coletas amostrais, que seguem um rigor científico seríssimo, com metodologia desenvolvida em parceria com o Instituto Oceanográfico da USP. Em todos esses lugares são feitas demarcações de coleta e cada resíduo é estudado: material, artigo, marca, produto e quantidade. E são estes os dados que compõem o inventário. São 100 mil itens destinados corretamente e que não estão mais em risco de chegar ao oceano. Mas, além disso, são 100 mil itens que demonstram o quanto o Brasil ainda é deficitário na separação de resíduos e quanto ainda temos que trabalhar pelo marco legal do saneamento, pois boa parte deles, se tratados, não estariam nos locais em que foram encontrados. Isso comprova dados recentes do Instituto Trata Brasil que mostram que 50% dos lares brasileiros ainda não têm saneamento básico. A conexão é inevitável: resíduos mal geridos chegam aos rios, comprometem o tratamento da água e, por fim, alcançam o mar, esse gigante azul que regula o clima e sustenta a vida no planeta. No mês do Dia Mundial de Limpeza de Praias, alcançar os 100 mil itens tem um peso especial. Eles passaram por mãozinhas e mãozonas e não foram descartados corretamente. Novamente me remeto à lembrança da criança na praia, que já entendeu o que muitos adultos levam a vida toda postergando: devemos agir, mesmo que a luva disponível não seja do tamanho exato (aquele garoto saiu usando uma pinça coletora). Cada pequena ação conta, pois, a vontade de agir encontra seu caminho e, como sabem, todos os caminhos levam ao mar. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
100 mil res�duos fora da rota do mar
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