Votar � bom, mas n�o � a vontade de todos

Votar � bom, mas n�o � a vontade de todos

Admito que alguns projetos planejados, intencionais e coletivos de que "nós" participamos são boas ideias para os brasileiros, ou os paulistas, ou os moradores da Vila Madalena, ou sua adorável reunião familiar na ceia de Natal. Mas lembre-se de que, em todos esses níveis da sociedade, os projetos planejados, intencionais e coletivos, mesmo quando votados, muitas vezes são más ideias. Por exemplo, seu novo experimento com Lula pode ter alguns maus resultados. Talvez não. Vamos torcer. Mas pode ficar muito ruim —quero dizer, ruim como com Maduro ou Castro. Nesse caso, talvez os eleitores brasileiros queiram mudar de rumo novamente. Espero que dessa vez seja a favor de mercados que permitam que as pessoas cantem a própria música, harmonizando-se com quem elas quiserem. Mas também sou democrata. Temo que, nesse intervalo, o governo corroa as eleições. No meu próprio país, os eleitores acabam de mudar de rumo, depois de dois anos em que Donald Trump usou sua estreita maioria para fazer algumas coisas ruins. Entre as piores está a tentativa de corromper esta eleição para o Congresso. Ele parece estar se preparando para uma corrupção ainda maior na eleição presidencial de 2028. Afinal, tentou fazer isso na de 2020, numa ação de massa imitada no ano seguinte por alguns brasileiros. Lula pode se manter fiel aos valores estritamente democráticos e liberais e não interferir nas próximas eleições. Ótimo. Como disse Churchill, o voto majoritário é o pior sistema... exceto por todos os outros sistemas que foram experimentados de tempos em tempos. Então está tudo perfeito, certo? Não. Trago à sua atenção um velho senso comum, elaborado matematicamente por muitos teóricos, desde Ramon Llull em 1299 e Condorcet em 1785, até Kenneth Arrow em 1951 e, desde então, por muitos outros economistas, cientistas políticos e até matemáticos puros. A conclusão deles é que não existe um sistema ideal de votação. Por "ideal", eu e os outros que refletem sobre o assunto queremos dizer algo como "seguir os desejos do povo". Afinal, essa é a promessa da democracia, o governo do demos, do povo, do "nós". Os cínicos dizem que, de qualquer forma, é impossível por causa das coisas estúpidas que nós, o povo, desejamos. Até recentemente, a própria ideia de democracia tinha má reputação. Geralmente era descrita como "governo da turba". Além das más notícias sobre os desejos infantis da população, porém, a má notícia matemática é que nenhum sistema de votação consegue realizar completamente os desejos de todos. Obviamente. Deixemos a matemática de lado. O senso comum diz que você e seu cônjuge não conseguem concordar exatamente sobre muitas coisas coletivas. Ele quer que vocês dois vão à luta de boxe. Você quer ópera. Sem saída. Os adultos conversam para resolver isso, é claro. Um famoso professor de Oxford, G. A. Cohen, pensou que estava provando que o socialismo funciona ao imaginar amigos planejando uma viagem de acampamento. Eles discutem e decidem. Agora, amplie isso para um país de 214 milhões de pessoas. Hã? A decisão da maioria, assim como a decisão de um único tirano, não discutem o assunto. Ambos simplesmente gritam mais alto que os perdedores. Casais amorosos criam um dueto harmonioso. Os mercados permitem que cada um cante sua própria música em paz. Votar não é o desejo geral. Rousseau se enganou. Não existe um "nós". Exceto na Copa do Mundo. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

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