Quando me perguntam, a resposta vem fácil: o escritor vivo que eu mais gostaria de conhecer é Orhan Pamuk. Primeiro porque "O Museu da Inocência" é um dos melhores livros que li na vida. Menos pelo interesse no tema, mais pela perfeição na execução. E pelo que foi feito durante e depois da escrita: o livro virou realidade, o museu existe em Istambul. Eis um romancista que leva a profissão ao limite do perfeccionismo e da obsessão. Orhan Pamuk diz que gostaria mesmo de ter sido um pintor famoso, mas não conseguiu. Em vez disso, virou escritor e ganhou um Nobel.Entre as suas rotinas inegociáveis, ele inclui o trabalho constante em seus cadernos de bolso, desenhando e escrevendo diariamente. "É como se eu estivesse escondendo o mundo aqui dentro." O hábito começou em 2008 e persiste como uma extensão da sua vida. Outro hábito que mantém é ir religiosamente, toda sexta-feira e todos os sábados, a um museu em Nova York. O mesmo museu, o Metropolitan Museu of Art. Apesar de ser responsável por influenciar leitores a amar Istambul, o romancista vive nos Estados Unidos, depois de enfrentar os tribunais turcos e receber acusações por suas opiniões sobre política e direitos humanos. Os diários de Pamuk foram publicados, inclusive, com o título "Memórias de Montanhas Distantes". Sou uma fã daquelas que assistem a todo material disponível na internet. Escuto até as entrevistas em turco, sem entender nada, mas percebendo a sonoridade de seu idioma original. Ele sorri pouco e fala de trabalho com tanta seriedade que beira a angústia. Em tudo ele mergulha. Entre as horas de escrita, o desenho nos diários, as visitas aos museus, o tempo de pensar, são dias e dias de solidão. É necessário ficar só para escrever, para acessar esse lugar misterioso onde germinam os temas que interessam à humanidade. Ficar só é a exigência número um na escrita de um romance, eu acho.Por causa de Pamuk, decidi voltar a manter um diário a partir do dia nove do nove, esta quarta-feira, depois de tanto tempo sem escrever dessa forma. Sou de uma geração que alimentou cadernos e agendas com colagens, desenhos, até não conseguir mais fechar as páginas. Tudo foi documentado com o máximo de detalhes, letra cursiva escrita com calma, um retrato do passado que minha memória não seria capaz de recuperar. Imitei Orhan Pamuk e comprei um caderno de bolso, para recomeçar nesta quarta a escrever e rabiscar as coisas. A demora no desenho da letra cursiva é o tempo que o pensamento pede entre uma palavra e outra. A letra bastão, como chamam, parecerá sempre um grito —e a voz da paz é baixa, tranquila, uma caligrafia ondulada como rio manso. Nesse movimento coletivo de voltarmos aos anos 1980, ouvir vinil, revelar fotografias, escrever à máquina, acho saudável reconectar o cérebro à ponta de uma caneta, de um lápis, de um caderninho que aguente o tranco de bolsa em bolsa, de cidade em cidade, guardando a vida às escondidas. O senhor Pamuk usa caneta tinteiro, inclusive, de marcas específicas, mas por enquanto não vou copiar essa parte. O tempo está passando muito rápido, também quero esconder e guardar um pouco da beleza que vejo no mundo. Colunas Receba no seu email uma seleção de colunas da Folha LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
Voltei a escrever di�rio para reconectar o c�rebro � ponta de um l�pis
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