Em um contexto de polarizações e rupturas institucionais pelo mundo, a democracia brasileira saiu fortalecida após a eleição deste domingo (25), expressaram entidades da sociedade civil e profissionais de diversas áreas. Com 99,99% das urnas apuradas, Lula (PT) tinha 51,78% dos votos válidos no segundo turno da disputa, contra 48,22% do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Em 2022, Lula bateu o pai do rival por 50,9% a 49,1%. O ministro aposentado e ex-presidente do STF (Supremo Tribunal Federal) Celso de Mello chamou a reeleição do presidente Lula (PT) de histórica. "Há vitórias eleitorais cujo significado ultrapassa a conquista de um mandato e se projeta sobre o próprio destino de um país. [...] O resultado das urnas assume, nessa perspectiva, o sentido de uma afirmação cívica contra as tentações autocráticas", disse. Segundo ele, a derrota nas urnas do que chamou de "aspirações autoritárias" não dispensa a necessidade da "vigilância democrática". Para Mello, a defesa da liberdade é cotidiana e depende da integridade das instituições, da independência da imprensa, da educação para a cidadania e da recusa à mentira e à violência. "O espírito democrático revela sua força quando a cidadania recusa o medo como instrumento de submissão, repele a intolerância como método de ação política e proclama que o poder somente se legitima pelo respeito à liberdade, à dignidade humana e ao pluralismo", disse. A OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) destacou em nota a importância da conclusão de mais um ciclo eleitoiral. "A Ordem dos Advogados do Brasil defende o respeito à manifestação da vontade popular expressa nas urnas. A democracia se faz com respeito às suas próprias regras", afirmou em nota o presidente nacional da ordem, Beto Simonetti. "A OAB espera que o país ingresse em um período de pacificação social e união de todos em prol do desenvolvimento econômico e social do Brasil." Presidente da seção de São Paulo da ordem de advogados, Leonardo Sica disse que o segundo turno das eleições deste ano concluiu o processo de "expressão expressão legítima da vontade popular". "Esperamos que os eleitos tenham lucidez para enfrentar a deterioração do debate público e recuperar a confiança da população nas instituições e nos consensos políticos." Ele ressaltou que, assim como no primeiro turno, "mantivemos vigília cívica na sede da OAB-SP e não apuramos, em São Paulo, nenhuma anormalidade expressiva durante a votação, mesmo após a prorrogação do horário". O ministro Cristiano Zanin, do STF (Supremo Tribunal Federal), estendeu o horário das eleições em todo o Brasil por duas horas, até as 19h. O ministro acatou pedido da campanha do presidente Lula (PT) para que a votação fosse prorrogada, sob a justificativa de que não foram colocados ônibus à disposição dos eleitores em número suficiente em várias cidades do país. Além de Lula, a campanha de Flávio Bolsonaro também pediu a ampliação da votação ao TSE, mas restrita a cidades dos estados de São Paulo, do Paraná e de Santa Catarina. De acordo com a equipe, a medida excepcional seria justificada pelas condições climáticas nessas regiões, que registram chuvas intensas, deslizamentos, alagamentos e bloqueios de vias. Também na seara jurídica, o IAB (Instituto dos Advogados Brasileiros) parabenizou, em nota, Lula e Geraldo Alckmi, vice-presidente. "O IAB cumpriu o seu papel, criando o Observatório da Democracia, cobrando respeito às urnas, transparência e as responsabilidades que decorrem do nosso compromisso com o Estado de Direito. [...] O grande vitorioso nesta eleição foi o povo brasileiro, que saberá virar a página para se manter no caminho do progresso social." A UNE (União Nacional dos Estudantes) também declarou que venceu a opção pelo avanço social no país. "As urnas confirmaram o que a história e as ruas já gritavam: o povo mobilizado muda os rumos do Brasil! [...] Nessa jornada histórica, a juventude e os estudantes provaram a sua força. Nós não nos curvamos ao medo, ao retrocesso nem ao autoritarismo!" Para a CUT (Central Única dos Trabalhadores), a reeleição de Lula representa a "afirmação de que o Brasil acredita que pode continuar mudando e construindo um futuro de desenvolvimento, justiça social, soberania e vida melhor para todos". "O segundo turno produziu uma extraordinária mobilização democrática e popular. Em todo o país, multiplicaram-se atos, caminhadas e encontros. Milhões de pessoas ocuparam as ruas, de diferentes idades, origens e trajetórias, unidas pela vontade de participar da construção do futuro do Brasil." O Pacto pela Democracia, que reúne mais de 200 organizações da sociedade civil, destacou o histórico de eleições no período de redemocratização do país. "Neste domingo, o Brasil concluiu mais um processo eleitoral, reafirmando a segurança e solidez do sistema eletrônico de votação que há 30 anos assegura eleições íntegras, transparentes e auditáveis. O processo contou com decisões uníssonas dos tribunais superiores." A Febraban (Federação Brasileira de Bancos) também saudou "o processo democrático brasileiro com a conclusão de mais um bem-sucedido pleito eleitoral". "A Febraban manifesta também a disposição do setor bancário em prosseguir com o diálogo para promoção do desenvolvimento econômico e social brasileiro e coloca sua capacidade técnica à disposição do presidente eleito e de sua equipe econômica para contribuir para essa importante tarefa no que se refere a temas bancários." No meio religioso, o bispo Abner Ferreira, da Assembleia de Deus Madureira, parabenizou Lula pela vitória, afirmando que a "vontade soberana do povo" deve ser respeitada independentemente das preferências políticas. Defendeu serenidade, responsabilidade e respeito às instituições democráticas, além de orar para que o presidente eleito tenha sabedoria e senso de justiça no exercício do mandato. Para Christian Lynch, professor do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, a vitória petista dá um fôlego aos enfrentamentos que a democracia trava pelo mundo contra o autoritarsmo. "A democracia manteve no mundo um bastião contra a ultradireita. E a Nova República ganhou uma sobrevida. Será preciso resistir ao imperialismo e, ao mesmo tempo, redesenhar a República para que ela possa sobreviver." Denis Rosenfield, filósofo e professor aposentado da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, também ressaltou o cenário turbulento que Lula terá que enfrentar a partir do próximo ano. "O problema será administrar o Brasil com crise fiscal iminente e Senado oposicionista. Tempos difíceis pela frente." A virada de Lula, que terminou o primeiro turno atrás de Flávio e esteve em desvantagem numérica em grande parte do segundo turno, foi recebida com espanto e desânimo por nomes ligados à direita. O médico Cláudio Lottemberg, indicado por Flávio para ser ministro da Saúde em um eventual governo, disse que as urnas refletem o desejo da sociedade. "Especulações podem existir porque evidentemente o candidato Flávio estava com uma performance positiva à frente do candidato Lula […], portanto eu acho que [foi] inesperado. Mas, enfim, cabe a nós respeitar. E que seja pelo bem do Brasil", disse à Folha. Josias Teófilo, cineasta e jornalista, definiu como tragédia a quarta vitória presidencial de Lula. Ele afirmou que a prorrogação do horário da votação tirou "inteiramente a legitimidade da eleição." "Com a maioria conservadora no Congresso e a crise econômica que virá com os gastos que ele fez para se eleger, prevejo um contexto de ruptura institucional. Lula vai ficar solto no ar como presidente ilegítimo que é, até cair. Talvez com ele acabe a Nova República. Agora eu vou dizer o que eu espero que aconteça: que a sociedade civil se fortaleça e se organize, e que a oposição trate de impichar Lula na primeira oportunidade que surgir, tendo Alckimin como um presidente de transição. Depois disso, dá para organizar 30 anos de governos de direita. Esse vai ser o legado de Lula: 30 anos de governos de direita." Janaina Paschoal, vereadora de São Paulo pelo PP, uma das autoras do pedido de impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT), disse que a derrota pode deixar boas lições para a direita. "Muito embora não tenha sido minha opção, desejo um bom governo ao vencedor e, principalmente, que os direitistas compreendam que com a esquerda não se brinca. A esquerda é habilidosa e domina os formadores de opinião. É preciso formar quadros com conteúdo, moderados, respeitosos com todos os grupos sociais, para que tenhamos alguma chance em 2030."
Vit�ria de Lula � afirma��o contra tenta��es autocr�ticas, diz Celso de Mello, ex-ministro do STF
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