A ideia é que você tropece nelas. O sentido figurado das pedras de tropeço, porém, se tornou literal na Alemanha, na semana passada, quando uma Câmara Municipal vetou a homenagem a vítimas do nazismo. Uma moção liderada pela AfD, de extrema direita, mas também pela CDU, partido do primeiro-ministro, Friedrich Merz, incendiou o país. Enquanto Berlim discutia se A Esquerda, vencedora do pleito na capital, era ou não uma sigla antissemita, Heidenau, no estado da Saxônia, com 15 mil habitantes, resolveu debater se as placas de latão de 10 cm x 10 cm com nomes de judeus e outros perseguidos pelo regime de Adolf Hitler deveriam continuar a ser instaladas nos pavimentos da cidade. Iniciativa iniciada nos anos 1990 por um artista plástico alemão, Gunter Demnig, as "Stolpersteine" estão por toda a Europa. Já são 128 mil, sempre colocadas em frente à última residência ou local de trabalho conhecido de vítimas do nazismo. Trazem informações básicas: data de nascimento e data e circunstâncias da morte. Não é preciso saber alemão para identificar nas descrições nomes que remetem ao Holocausto, como Auschwitz, Birkenau, Dachau e Sobibor. Apesar do nome, não é possível tropeçar nas placas, pois são instaladas no mesmo nível do chão. Um desavisado pode até pisar nelas, uma das razões alegadas pelo projeto municipal. Segundo os autores da peça, as homenagens deveriam ser feitas em um local mais apropriado, como em um cemitério da cidade. "Queremos abordar ativamente a questão de como podemos criar um local digno de memória em nossa cidade e manter viva a memória das vítimas da guerra, do terror, das ditaduras, da expulsão e, especialmente, do nazismo", afirmou a prefeita de Heidenau, Conny Oertel, sem partido. Ocorre que essa não é a questão. As pedras de tropeço foram colocadas em calçadas de diversas cidades não por falta de espaço digno, mas para chamar a atenção de quem passa em determinado local: ali morou ou trabalhou alguém que foi afetado pelo terror nazista. Resgatar, mesmo que brevemente, histórias individuais, trazê-las para o presente. Daí a ideia do tropeço, de topar com algo que não se espera, olhar para baixo e notar alguém que, de outra forma, dificilmente seria lembrado. Euro Radar Uma newsletter sobre geopolítica e economia global, editada pelo jornalista João Caminoto, de Paris O argumento da prefeita contorna a raiz da polêmica, que é justamente a lembrança que a Alemanha se força a cultivar desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Uma política de Estado que a AfD promete encerrar se chegar ao poder. A chamada cultura da memória busca preservar a história do país antes, durante e depois do conflito, notadamente os crimes e o estrago institucional da era nazista. Para a sigla de extrema direita, um ônus que a atual geração de alemães não deveria carregar. "Mais Bismarck, menos Hitler", declarou Hans-Thomas Tillschneider, ideólogo da AfD em Saxônia-Anhalt, estado que no mês passado deixou o partido muito próximo de seu primeiro governo estadual —algo inédito para a extrema direita na Alemanha no pós-guerra. Privilegiar o século 19 de Otto von Bismarck nos currículos escolares está no programa de governo do partido. Uma medida reacionária, como a que defende uma arquitetura alemã em detrimento do modernismo "impessoal e comunista" da Bauhaus, outro item da reforma. A Câmara Municipal de Heidenau negou que seu projeto tenha caráter ideológico. Os argumentos foram atropelados pela repercussão em todo o país. "Um escândalo", segundo Christoph Heubner, do Comitê Internacional de Auschwitz. "Um horror", disse Charlotte Knobloch, presidente da Comunidade Judaica de Munique e da Alta Baviera. "É lamentável que a CDU esteja participando disso", declarou Demnig, o criador das "Stolpersteine", sublinhando outra camada da polêmica, uma propalada aproximação da sigla conservadora do primeiro-ministro com a extrema direita. Os democratas-cristãos afundam nas pesquisas junto com a popularidade de Merz, incapaz até aqui de rivalizar com as soluções fáceis do populismo da AfD. A primeira reação da CDU em Berlim foi empurrar o problema de volta para a representação local em Heidenau. Logo, porém, o tamanho da polêmica fez a legenda condenar o episódio, reiterando que a cultura da memória "é um pilar inegociável do Estado alemão". Prestar homenagem às vítimas do nazismo faz parte dessa cultura. Em maio, o presidente do país, Frank-Walter Steinmeier, se ajoelhou na calçada de uma rua de Dorsten, no noroeste da Alemanha, para limpar uma pedra de tropeço. Esse é um exercício comum na Alemanha, assim como deixar flores e velas em volta das placas. Heidenau tem cinco delas, e uma associação local havia pedido autorização para instalar mais 12. "Nunca imaginamos que o pedido seria indeferido. A intenção é marginalizar a memória", declarou Anne Nitschke, responsável pelo pedido, ao jornal Die Zeit. Políticos de diversos partidos pediram que a Câmara da cidade reveja o projeto. "Se Berlim está se tornando mais parecida com a República de Weimar é uma questão que ainda precisa ser respondida", declarou Steinmeier, neste sábado (3), durante a comemoração do Dia Nacional da Reunificação. Outra lembrança. A de um período da história marcado por polarização e intolerância, como agora. Descambou na ditadura nazista.
Veto a pedras 'de trope�o' imp�e debate sobre mem�ria do Holocausto na Alemanha
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