VAR quebra fluidez e realidade humana do futebol ao impor verdade tecnocient�fica

VAR quebra fluidez e realidade humana do futebol ao impor verdade tecnocient�fica

[RESUMO] Ao interromper a fluidez de partidas para verificações e substituir a interpretação humana por critérios técnicos, o VAR ameaça a dimensão poética e imprevisível do futebol, sustenta o texto. Em 2 de julho, vimos um exemplo nítido de como a humanidade pode abandonar a pretensão de que nossos sentidos corporais ou mentais sejam capazes de aferir o que é a realidade, delegando isso à tecnologia. Nos últimos minutos da disputa entre Croácia e Portugal por uma vaga nas oitavas de final da Copa do Mundo, o craque croata Modric alçou a bola na área adversária —a equipe perdia por só um gol. Ela viajou pelo ar, fez um arco no espaço e achou, do lado oposto, o companheiro, que a colocou dentro da rede. Empate. O jogo caminhava para 30 minutos de prorrogação, e ninguém sabia o que viria. Mas não. O que vimos na hora, inclusive o juiz, não valeu. Nesta Copa, há um chip nas bolas. Esse chip hipersensível acusou que, durante o arco no ar, a bola teria tocado em alguma coisa. Um gráfico semelhante a um eletrocardiograma foi mostrado como prova: uma linha segue reta nele, sofre uma alteração a certo ponto e volta a estar reta. Naquele ponto, então, a bola havia resvalado em alguém. Junta-se a isso a imagem revista diversas vezes e, então, está dada a conclusão: um jogador croata, usando a cabeça em um salto no meio da área, roçou a bola enquanto ela fazia o seu movimento. Nesse momento, ao contrário de quando Modric a lançara, o jogador que faria o gol já estava em posição de impedimento. Gol anulado. Como se sabe, a regra do impedimento define que quem recebe um passe não pode estar à frente dos adversários no campo naquele instante. É boa a regra! Foi criada para dar dinâmica ao jogo, pois um atacante não pode ficar parado perto do gol oponente só aguardando a bola livre, "na banheira". Exige-se movimento. O espírito da lei não é evitar que um jogador faça gol por estar com um ombro ou um dedo adiante do oponente. Antes do VAR (árbitro assistente de vídeo), a regra admitia que os atacantes e os defensores estivessem na mesma linha. O olho humano não consegue subdividir o espaço infinitamente, e a regra não carece disso. Porém, é o que o VAR faz: não há uma mesma linha. Ele fraciona o espaço até criar frente e trás até de uma mosca. A depender do VAR, a lebre nunca venceria a tartaruga que larga antes na corrida. O chip, tal e qual, parece ter detectado que um fio de cabelo do croata havia tocado na bola sem que isso, porém, tenha alterado a sua trajetória, velocidade ou rotação —o que o olho humano é capaz de perceber. Por isso, o que se decidiu não foi a derrota da Croácia diante de Portugal, mas, uma vez mais, da humanidade diante da máquina. O juiz de campo ainda foi olhar a imagem no vídeo, mas o seu espírito era intimidado e obediente diante do que o mundo esperava dele. Demos à tecnologia a prerrogativa de definir a verdade. Isso porque, ingenuamente, tratamos as imagens e digitalizações como se fossem a própria realidade, um fato inequívoco em si que não exige interpretação, conforme advertiu anos atrás o filósofo Vilém Flusser, que, por isso, chamava essa tecnologia de caixa preta. Não se trata, é claro, de colocar em questão a vitória de Portugal, mas de questionar o modo como o império da técnica, em seu desencantamento do mundo, só aceita certezas absolutas perante as quais devemos abaixar a cabeça. Será que o gráfico não mostrou um toque posterior de um jogador português na bola? Será que o toque do croata deve contar, ainda que nada tenha alterado na jogada? Será que devemos confiar nos dados endeusados do chip em vez de discutirmos o que vemos? A idolatria técnica usa imagens digitais como supostas janelas para o mundo, nunca como uma interpretação dele produzida a partir dos seus termos. Por isso, Nelson Rodrigues afirmava que o videotape é burro. A burrice não está em usá-lo, mas em supor que ali reside a verdade e ponto-final. Todo o mundo sabe, por exemplo, que, quando uma imagem está em câmera lenta, o contato entre os jogadores parece ter mais consequências e que, por isso, achamos falta. Qualquer choque no corpo é exagerado, como se causasse a derrubada do outro. Foi o que levou à anulação do gol de Vinicius Jr. contra o Japão após uma roubada de bola. É claro que a culpa não é só da Fifa (Federação Internacional de Futebol). A entidade está exposta às cobranças de um mundo que, desde o tira-teima dos anos 1980, escrutina a imagem transmitida pela televisão e exige que a realidade em campo esteja de acordo com ela. Deixemos a Fifa apenas com a velha política suja do esporte que faz, como aceitar tirar o cartão vermelho de um jogador porque o presidente dos Estados Unidos pediu. Nosso problema é um mundo tão técnico quanto ascético. Nele, o estádio e a vida, isto é, o espaço e o tempo reais, não valem nada. É o mundo da imagem. O filósofo Slavoj Zizek diz que o capitalismo não aceita nada de verdade: quer cerveja sem álcool, café sem cafeína, amor sem perigo. Quer futebol sem espontaneidade. É um mundo chato, no qual o grito de gol fica entalado: à espera, por longos minutos, da sua chancela em uma imagem. Nenhuma alegria vem sem suspeita e nenhuma tristeza, sem esperança. O antigo problema de um time roubado é um clássico. O tema atual é a submissão da verdade à tecnologia. Creonte mata Antígona, novos costumes matam leis imemoriais. Não é só uma questão política, mas ontológica. O tempo do futebol, como a vida, é contínuo, ao contrário do de esportes como o basquete, interrompido toda hora. O jogo de futebol, como a vida, tem contato, o que difere, por exemplo, do vôlei, onde a rede separa os times. Não mais: agora, o futebol para nas checagens do VAR. O juiz e os seus assistentes em campo tornam-se inúteis. Nossas avaliações, idem. Quem decide é a tecnologia. Não são máquinas que ameaçam substituir seres humanos, como se teme hoje, mas a nossa concessão de que elas definem o que é e o que não é, verdade e mentira, ser e nada. Não se trata de um progresso da razão sobre a emoção, que corrigiria falhas e instauraria a justiça. Trata-se de um controle positivista dos supostos fatos sobre a liberdade especulativa da interpretação, que pretende assegurar a certeza. Só que nem isso acontece. O futebol continua a gerar dúvidas e debates, porém, agora, mutilado nas suas dimensões épicas e trágicas. É a vitória dos "idiotas da objetividade", como os chamava Nelson Rodrigues, submetidos a uma visão tecnocientífica que, segundo o filósofo Maurice Merleau-Ponty, "manipula o mundo, mas se recusa a habitá-lo". Em vez de afirmar a vida pelo futebol, se busca corrigi-la. O problema não está nem no VAR nem no chip: está nessa alienação do mundo, que já acredita mais no seu duplo digital tecnicamente formalizado e mensurável que em si. Que isso se consolide logo nos Estados Unidos é emblemático, pois "americanos são muito estatísticos", como canta Caetano Veloso —eles têm olhos "que vão fundo no que olham, mas não no próprio fundo". Esse fundo, no futebol, é a poesia, que nunca se mede em gráficos e estatísticas de um computador. Se o futebol é amado, é porque nele procuramos poesia: da pelada de rua até o clássico de Copa, como ensinou Nelson Rodrigues. Os americanos "representam boa parte da alegria que existe neste mundo", mas eles têm dificuldade com a felicidade do futebol pela sua incomensurabilidade poética. Nele, o ponto —que, em outros esportes, abunda em resultados de dezenas ou centenas— feito pelo gol é raro, resultando em poucas unidades, o que estabelece um abismo entre o sentido do que aconteceu no jogo e a sua tradução numérica no placar. O VAR ameaça a poesia, mas o futebol é um rebelde "anticomputador sentimental", para usar mais uma expressão de Caetano. Com isso, é uma metonímia para nosso desafio atual diante da tecnologia.

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