Universit�ria do Mali cria rede de apoio em Sergipe a calouros internacionais

Universit�ria do Mali cria rede de apoio em Sergipe a calouros internacionais

Foi numa roda de conversa na universidade que Nantenin Diarra, 23, entendeu que podia fazer mais por estudantes estrangeiros, refugiados e imigrantes que chegam ao Brasil em busca de uma vida melhor. "Eram mães e avós venezuelanas que estavam há tempo no país, mas não sabiam como ter acesso à informação nem conheciam seus direitos", diz a universitária nascida em Bamako, capital do Mali, África Ocidental, que às vésperas de completar 19 anos chegou aqui para fazer graduação. A ideia era estudar direito em São Paulo ou Salvador. Acabou matriculada em relações internacionais na UFS (Universidade Federal de Sergipe), no quebra-cabeça de vagas do Programa de Estudantes-Convênio de Graduação (PEC-G), que promove o acesso de alunos internacionais ao ensino superior brasileiro. Sem dominar o português nem ter noção de para onde ia —Nantenin fala bambara, a língua da sua etnia no Mali, e o francês, a oficial—, ela contou com a boa vontade de um colega oriundo da Guiné-Bissau. O conhecido do Instagram a ajudou a fazer a ponte com a universidade e a encontrar uma residência estudantil. "Quando cheguei era como se fosse bebê. Tinha de aprender a falar português e vencer vários desafios", conta Nanette, apelido que ganhou no período em que presidiu a associação dos estudantes internacionais da UFS. Ao compartilhar sua experiência de imigrante legal com mulheres que fugiram da Venezuela para o Brasil, a universitária africana teve a ideia de criar o projeto Além das Fronteiras. "Eu também não sabia dos meus direitos." Com três amigas brasileiras —a piauiense Thaissa Fernanda Sousa, 21, e as gêmeas paulistanas também de 21 anos, Hiara Rebeca e Hagata Mariana Cardoso— e o colega angolano João Pedro Celestino de Oliveira, 32, Nannette criou uma estrutura de acolhimento que já beneficiou cerca de 200 estudantes estrangeiros. A jovem negra de cabelo trançado e sorriso fácil surge como anjo da guarda dos recém-chegados, recepcionando colegas no aeroporto, como o sul-coreano Ju-Young, 24, ou na rodoviária da capital, onde deu as boas-vindas para o amigo angolano. O também estudante de relações internacionais desembarcou em Guarulhos e encarou dois dias de ônibus de São Paulo até Aracaju. Sou angolano, cofundador do Além das Fronteiras. Estou no Brasil há um ano e meio. Quando cheguei, fui recebido pela Nanette, que me buscou na rodoviária. Ela já tinha falado com um colega moçambicano, com quem morei até a universidade conceder auxílio. Aí pensei que a melhor forma de devolver todo o apoio que Nanette me deu seria fazer parte do projeto. Conta com a gente que vamos levar esse barco adiante. Os calouros são acompanhados antes mesmo de chegar, na busca de vagas em residências estudantis. Quando desembarcam, a lista de providências inclui matrícula na universidade e em curso de português, registro migratório, obtenção do CPF, cadastro no SUS, abertura de conta em banco e até o chip local de celular. Hoje, quando um estrangeiro chega ao campus da UFS de São Cristóvão, a primeira pergunta que ouve é se já falou com a Nanette. Até o responsável pela regularização de documentos da Polícia Federal envia mensagens a ela avisando-a de que "os papéis dos seus amigos" podem ser retirados. A garota é popular. Impossível andar pelo campus sem parar para conversa ou tchauzinho. Nanette acha que isso acontece porque "antigamente" era uma das únicas meninas africanas na universidade. Não é só isso. Em uma conversa na UFS, piadas e brincadeiras típicas da idade dos dez estudantes presentes deram lugar a depoimentos emocionados sobre o Além das Fronteiras e sua cofundadora. "Foi a primeira vez que deixei Moçambique e estava com medo. Nanette me acolheu como se eu fosse irmã. Uma das maiores demonstrações de amor que já vi", diz Cária Da Luz Adêncio, 18, aluna de engenharia de petróleo. Entre os africanos, são poucos os que, como Nanette, recebem alguma ajuda financeira da família todo mês. "A maioria tem muito mais dificuldades." E é aí que entra o senso de comunidade. "É tipo uma família, igual lá na África. Quem tem, ajuda." Nanette diz que já a incomodou bastante ser chamada de imigrante —o que, para ela, sempre foi sinônimo de alguém sem documentos e domínio da língua local. Com seu excelente português, ela se surpreendeu quando o professor lhe disse que a lei brasileira também enquadra estudantes estrangeiros dessa forma, embora não tenha visto europeu ser chamado assim no campus. Ela diz que é comum ouvir perguntas do tipo o que faz no Brasil e se não há universidades em seu país. "Eu falo, sim, meu país tem universidade. Estou aqui porque gosto de viajar, de conhecer outras culturas. O mundo é grande, tem muito a oferecer." Na lista de questões que a surpreenderam no Brasil aparecem, de um lado, o racismo, e, de outro, a forma bem aberta com que os brasileiros lidam com a sexualidade, algo encarado de forma diferente por boa parte dos africanos, sobretudo muçulmanos como ela. "Lá eles colocaram nas nossas cabeças que é uma coisa ruim, sendo que não é. Mas admito que, no início, foi um choque." Quanto à negritude, diz que descobriu que é negra no Brasil. "No meu país, eu sou bambara, eu me defino pela minha etnia." Incluindo todas essas discussões em longas conversas, Nanette e demais cofundadores querem chegar longe com o programa. O próximo passo é um aplicativo gratuito e multilíngue para conectar estudantes de direito e de relações internacionais com alunos migrantes, de dentro e de fora do país, e refugiados. A plataforma foi criada por meio de acordo de cooperação com a Fatec de Araras (SP) e deve ser lançada nos próximos meses. Ao passar em revista sua trajetória, Nanette lembra-se de uma frase que o pai sempre lhe fala na língua bambara. "No mundo definido por mudanças, todos têm potencial para contribuir", traduz ela, na pele de uma agente de transformação. "Nós temos muito a contribuir com o Brasil. Nos sentimos brasileiros mesmo sendo africanos." ALÉM DAS FRONTEIRAS EM NÚMEROS 200 estudantes migrantes e refugiados foram atendidos na fase piloto da iniciativa na Universidade Federal de Sergipe 60 novos alunos internacionais foram recepcionados no início deste ano, com suporte integral da iniciativa, desde a chegada no aeroporto 4 campi da UFS são cobertos e contam com ações do projeto Além das Fronteiras, em São Cristóvão, Lagarto, Laranjeiras e Itabaiana 5 líderes cuidam da gestão do projeto, todos estudantes de relações internacionais, sendo 3 estudantes brasileiras e 2 estudantes do programa PEC-G (vindos de Angola e Mali)

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