Uni�o afetiva e art�stica de Claudia Andujar e George Love ganha exposi��o inovadora

Uni�o afetiva e art�stica de Claudia Andujar e George Love ganha exposi��o inovadora

[RESUMO] A exposição "To Love" apresenta o encontro amoroso e artístico, corajoso e nada óbvio, de Claudia Andujar e George Love, que ampliaram as possibilidades da fotografia como linguagem artística. Solarizações, exposições duplas e prolongadas, filmes infravermelhos e alterações no processamento químico estão entre os recursos explorados por ambos, destaca crítico de arte. Eu ia saindo de fininho da casa de Claudia Andujar depois de um longo dia de trabalho, lá pelos idos de 2014, quando ela me lembrou de olhar os livros que doaria, para ver se algum seria do meu interesse. Deixei então o famoso apartamento da rua São Carlos do Pinhal com uma pilha debaixo do braço. Além de uma primeira edição de "The Americans", do fotógrafo Robert Frank, com o carimbo de Andujar na folha de rosto, me chamaram a atenção outros dois volumes. Um deles era "The Bikeriders" (1968), de Danny Lyon, que documenta uma gangue de motociclistas de Chicago nos anos 1960 e recentemente virou filme —"Clube dos Vândalos" (2023). O outro, uma monografia da editora Prestel, especializada em livros de arte, sobre a série "Fotoformas", de Geraldo de Barros, ponto alto da vanguarda construtiva brasileira. Com Lyon, Andujar integrou a efervescente cena norte-americana da fotografia nos anos 1960. Nathan Lyons, que foi curador da George Eastman House, incluiu Lyon e Andujar, respectivamente, em duas exposições sucessivas por ele organizadas: "Toward a Social Landscape" (1966) e "Photography in the Twentieth Century" (1967). Geraldo de Barros abriu caminho para a fotografia de arte no Brasil quando exibiu a série "Fotoformas" de maneira pioneira, em 1951, no Masp (o museu que mais tarde seria tão importante na história de Andujar). A síntese entre uma fotografia documental radical, em que o fotógrafo se aproxima vitalmente de seu objeto, e a imagem experimental, na qual a forma interroga o caráter realista da fotografia e a afirma como materialidade em si mesma, sempre me pareceu um ingrediente fundamental no trabalho de Andujar. É essa tensão que está em relevo na inovadora exposição "To Love", na galeria Vermelho, em São Paulo, com curadoria de Eder Chiodetto. A mostra se concentra na colaboração entre Andujar e George Love (1937–1995), fotógrafo americano radicado em São Paulo, casados e parceiros artísticos nas décadas de 1960 e 1970. A exposição é composta quase inteiramente de ampliações contemporâneas de grande formato, produzidas a partir dos arquivos dos dois fotógrafos. Representada pela Vermelho desde 2003, Andujar mantém com a galeria uma parceria duradoura, pautada pelo compromisso ético de destinar parte da renda obtida com a venda de sua obra sobre os yanomami a iniciativas voltadas a esse povo. "To Love" marca também o início da representação do Arquivo George Love pela galeria —e faz sentido que essa estreia se dê em diálogo com Andujar. O caráter afetivo da parceria entre os fotógrafos aparece logo numa das paredes de entrada, com retratos tanto de um quanto do outro. Embora ambos sejam creditados a Love, pode-se especular que o retrato dele próprio tenha sido tomado por Andujar com a câmera dele. Essa contaminação entre autores, olhares, aparatos e procedimentos dá o tom de outros conjuntos da mostra. Solarizações, exposições duplas e prolongadas, filmes infravermelhos e alterações no processamento químico estão entre os recursos explorados por ambos. Andujar e Love se conheceram em Nova York, onde gravitaram em torno da Association of Heliographers, uma cooperativa de fotógrafos brevemente ativa na cidade em meados dos anos 1960. Após viajarem juntos pela América do Sul, estabeleceram-se em São Paulo em 1966 e casaram-se no ano seguinte, em Nova York. Ficaram casados até 1974. Nascida na Suíça e criada no Leste Europeu, Andujar já se radicara na capital paulista na década anterior, quando começara a fotografar. Os dois colaboraram com a revista Realidade, da editora Abril, conhecida pelas reportagens de fôlego sobre grandes temas brasileiros e pela ousadia no tratamento da imagem fotográfica. Em 1971, publicaram fotografias no número especial dedicado à Amazônia. Foi em uma das viagens para a realização da reportagem que Andujar encontrou pela primeira vez os yanomami, experiência que redefiniria sua trajetória. Os dois também tiveram uma atividade intensa no Masp, onde participaram da formação de uma cultura institucional da fotografia. Andujar organizou cursos, dirigiu o laboratório e foi convidada a supervisionar o novo Departamento de Fotografia; Love ministrou um curso que definia a imagem fotográfica como "realidade em si", aberta à reprodução, à transformação e a novos modos de apresentação. Ainda em fevereiro de 1971, Love coordenou, no vão-livre e nos jardins do Masp, "Som, Imagem e Luz", happening audiovisual que reuniu cerca de mil pessoas. Projeções e jogos de luz eram acompanhados por uma trilha que incluía gravações de cantos do povo indígena xikrin e de Jimi Hendrix. Juntos, organizaram diversas exposições no museu, entre elas "Hileia Amazônica", mostra multidisciplinar e ecológica no momento em que a ditadura abria a rodovia Transamazônica. Parte da pesquisa amazônica dos dois foi reunida no fotolivro "Amazônia" (Praxis, 1978), com projeto gráfico do artista Wesley Duke Lee. Imagens do livro estão na sala principal do primeiro andar da exposição na Vermelho, recriando e expandindo o diálogo estabelecido nas páginas da publicação. Aqui a estratégia da ampliação em grande escala, da justaposição e dos jogos cromáticos ocupa o centro da montagem. Muitas dessas imagens fazem parte do monumental acervo fotográfico que Andujar construiu ao longo de décadas junto aos yanomami, documentando sua vida e sua resistência, um trabalho que talvez não tenha paralelo na história da fotografia dedicada a um único povo indígena. Uma imagem do rito mortuário é especialmente ressonante aqui e levanta questões éticas incontornáveis sobre a apropriação da cultura do outro, sobretudo quando estão em jogo temas espirituais. No caso de Andujar, essas questões devem ser lidas à luz da correlação que ela própria estabeleceu, em textos e entrevistas, entre a luta indígena e sua biografia. Seu compromisso progressivo com os yanomami foi atravessado pela memória da perseguição antissemita sofrida por sua família paterna durante o Holocausto. Isso não atenua o problema ético da representação, mas permite situá-lo numa perspectiva mais complexa. Outro ponto, ainda mais significativo na exposição, é entender como o trabalho de Andujar com os yanomami se aproxima de uma posição experimental, emancipando suas imagens dos limites e da pretensão de transparência da linguagem etnográfica. É aí que se dá uma abertura epistêmica: a fotografia não se limita a descrever uma cultura a partir de fora, mas procura se abrir à cosmologia yanomami. A série "O Reahu", dedicada aos rituais e representada por um imponente díptico vermelho, é a manifestação mais contundente disso na mostra, e a influência de Love na formulação dessa linguagem não parece pequena. Essa dimensão experimental perpassou meu diálogo com a artista e orientou a curadoria da galeria permanente concebida originalmente para abrigar seu trabalho no Instituto Inhotim. (Em 2025, sua montagem monográfica foi desfeita, e o espaço passou a incluir também obras de 22 artistas indígenas da América do Sul.) Em Love, essa investigação reaparece no segundo andar da mostra, levada às fronteiras da abstração pela série "Ponta de Filme". Filmes riscados, furados, velados ou mal processados, termos que aparecem nos próprios títulos, criam campos de cor que são como elogios do acidente e manifestações da materialidade cromática da fotografia. Essa conversão de acidentes e resíduos do processo fotográfico em imagens abstratas faz pensar no trabalho que Wolfgang Tillmans desenvolveria décadas mais tarde. O arquivo de Andujar não para de trazer imagens à luz e parece que ainda contém muitas surpresas. Vide o alvoroço causado nas redes sociais, no começo deste ano, pela publicação no perfil da jornalista Adriana Maximiliano de imagens feitas pela fotógrafa no Rio de Janeiro, em 1962, para a revista Look. Redescobertas após permanecerem intocadas na Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos por mais de 50 anos, elas logo foram reproduzidas pela revista piauí. Love, por sua vez, permanecia relativamente esquecido, à exceção de uma exposição realizada no Museu de Arte Moderna de São Paulo, em 2024, com curadoria do fotógrafo Zé de Boni, guardião de seu acervo. Conhecer melhor seu impressionante impulso criativo é algo a se comemorar. O reencontro dos dois artistas e amantes na exposição da Vermelho nos faz ver a coragem de suas apostas, pouco óbvias e arriscadas: a colaboração artística em sintonia com a relação afetiva, as influências de mão dupla e a convergência entre práticas documentais e formalistas que hoje parecem tristemente divorciadas.

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