Quando a mídia começou a divulgar o comunicado de Cristiano Ronaldo, fiquei muito zangado. Era para mim evidente que o texto só podia ser falso. Alguém tinha tido a divertidíssima ideia de o enviar para as Redações, fingindo ser da autoria de Cristiano Ronaldo. E eu fiquei zangado porque gostaria muito de ter tido aquela ideia. Estava perfeito porque, sendo ridículo, ainda assim era crível. Quando Jonathan Swift, na célebre "Uma Modesta Proposta", sugere, como solução para a pobreza, que os pobres vendam os seus bebês aos ricos, para que estes os comam, a gente percebe imediatamente que é sátira. São ótimos em fricassé, diz ele. É muito engraçado, mas o exagero denuncia-o. Só que o comunicado estava escrito com uma contenção admirável. Ronaldo dizia que tinha validado um documento para Jorge Jesus recitar na entrevista coletiva. "Errei ao colocar alguém da dimensão de Pelé ou Maradona a aquecer para depois não o colocar em jogo", pretendia ele que o técnico dissesse. Um humorista menos hábil talvez tivesse acrescentado Jesus Cristo à lista. Ou, por exemplo, quando exigia que o treinador anunciasse aos jornalistas: "Eu quero o Cristiano na seleção nacional. Aliás, não quero pouco, quero muito." Era brilhante. Tão grotesco, sem deixar de manter o tom lacônico. Mas depois, para minha surpresa, Ronaldo publicou o comunicado nas suas redes sociais. Era mesmo verdade. O capitão da seleção portuguesa tinha abandonado a concentração na véspera de um jogo, dizendo que, a seu tempo, explicaria as razões. Só poderiam ser muito graves para justificar uma atitude daquelas. Eu não esperava menos do que um incidente intolerável. Imaginei que Ronaldo viesse revelar "eu estava tomando banho, no vestiário, e Jorge Jesus apareceu, vestido com a camisa do Messi, e apalpou-me a bunda". Era impossível que fosse menos escandaloso do que isto. Colunas Receba no seu email uma seleção de colunas da Folha Mas o comunicado confirmava que Ronaldo tinha ido para casa porque o treinador não o colocara em campo, depois de ter estado se aquecendo. E tinha recusado fazer-lhe os elogios que Ronaldo lhe entregara. É extraordinário. Ronaldo passou a carreira obrigando os outros a reconhecerem a sua grandeza por meio das façanhas em campo. Agora quer forçá-los a fazê-lo por meio da leitura de um roteiro. É muito triste —e, por isso, muito engraçado. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
Uma imodesta proposta
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