Não foi trivial os Estados Unidos cancelarem o visto de Andrés Manuel López Beltrán, filho do ex-presidente mexicano López Obrador, que vem a ser o padrinho político da atual presidente, Claudia Sheinbaum. Aconteceu dias atrás. Beltrán, um quadro do partido no poder, o Morena, alinhado ao populismo de centro-esquerda, tornou-se um "broken wing", ou seja, um asa quebrada. Seus "voos" foram limitados pelo secretário de Estado, Marco Rubio. Cautelosa e calculista, Sheinbaum definiu o ato como ingerência americana, mas garantiu que nem por isso abrirá uma crise diplomática entre os dois países. Já Beltrán afirma que a revogação do visto é sinal de que o país deve se preparar para uma ofensiva americana. A reação de ambos espelha o que se passa no seio do partido governista: uma disputa entre o sheinbaumrismo, de linha pragmática, e o obradorismo, de linha ideológica. Resta saber se o pragmatismo da presidente satisfaz o plano da Casa Branca para a América Latina. Hoje Beltrán se defende de denúncias de corrupção e enriquecimento ilícito, enquanto Sheinbaum reitera que os EUA não irão obrigá-la a adotar medidas contra o morenista. Já López Obrador assiste a tudo do seu refúgio na cidade mexicana de Palenque. Aos 72 anos, ainda mantém o compromisso de ficar fora da política. Colunas Receba no seu email uma seleção de colunas da Folha Interessante examinar como o governo americano tem usado vistos como instrumento geopolítico. Desde que Trump retornou ao poder, em janeiro de 2025, foram cancelados 175 mil —envolvendo trabalhadores, executivos, estudantes, imigrantes e "personalidades expostas politicamente". Aliás, deve ser esse o escaninho vip das autoridades brasileiras. Vistos são medidas administrativas, e o governo americano, por meio do Departamento de Estado, age com discricionariedade para inclusive revogar o que já foi concedido. Também cabe lembrar que a política migratória americana, desde muito, utiliza este expediente de acordo com a pauta de interesses do país. Em 2023, o Chile concluía um acordo com a China para a construção de um canal submarino no Pacífico, conectando o país a Hong Kong. Foi quando, segundo registros de imprensa, um emissário de Joe Biden se reuniu em Santiago com ministros do governo do esquerdista Gabriel Boric. Trazia um recado: suspender o projeto ou integrantes do governo chileno, ao lado de cônjuges e filhos, teriam vistos cancelados. O projeto parou por aí. Tempos depois, já no governo Trump, Rubio viajou para a Costa Rica. Foi recebido pelo então presidente, Rodrigo Chaves, um direitista alinhado a Washington. O secretário de Estado cobriu de elogios o país centro-americano, porém, semanas depois, cancelou o visto do ex-presidente costarriquenho e Nobel da Paz, Óscar Arias. Vejamos: Arias foi quem abriu o contato diplomático do seu país com a China e mantém boas relações com Pequim. Quanto a Chaves, este festeja o cancelamento de vistos de seis diretores do La Nación, jornal que investiga as denúncias de assédio sexual que ele há anos protagoniza. A rigor, um chefe de Estado não precisa explicar o que decide sobre vistos, mas há casos que falam por si. Em 2019, o então presidente Jair Bolsonaro suspendeu, unilateralmente, a exigência do documento para viajantes dos EUA. Lula derrubou o decreto do antecessor em 2023. Mas foram necessários dois anos até que os americanos voltassem a exibir o documento ao pisar no Brasil. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
Um olhar sobre a geopol�tica dos vistos
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