Foram pouco mais de cinco meses de uma intensidade rara, no mundo e, de modo particular, na Europa. O continente segue abrigando uma guerra. A extrema direita cresce nas urnas e nas pesquisas, da França à Alemanha. A onda de manifestações tomou as ruas francesas e já alcança a Itália, a Espanha, a Bélgica e outros. A França e outros países-chave do bloco convivem com contas públicas no limite. Desde o lançamento do Euro Radar, em 21 de maio, quatro assuntos ocuparam a newsletter mais do que todos os outros: a guerra na Ucrânia e a segurança europeia, a crise na França, a energia e a guerra do Irã, e o brexit, que voltou à mesa com Andy Burnham. Aparecem a seguir na ordem em que mais tiveram espaço aqui. Ucrânia: a guerra e a conversa Em 21 de maio, a pergunta nos corredores de Bruxelas era quem teria autoridade para sentar com Vladimir Putin em nome da Europa. Circulavam os nomes de Angela Merkel, Mario Draghi e do finlandês Alexander Stubb. Naquele dia, a Rússia aparecia aqui como um país que vacilava, com o PIB em queda, falta de mão de obra e drones ucranianos sobre suas refinarias. Daí para cá, a guerra mudou de endereço mais de uma vez. A guerra se aproximou das capitais europeias, e a Europa ficou mais dividida sobre ela. Em julho, a cúpula da Otan, em Ancara, mostrou aliados sob a pressão de Donald Trump, que voltou a ameaçar a presença militar americana na Europa. No começo de setembro, o governo alemão acusou Moscou de ter enviado um drone com explosivos contra um avião cargueiro em Leipzig, e a guerra híbrida deixou de ser hipótese de serviço de inteligência. O desgaste também apareceu do lado europeu. Uma pesquisa da Fundação Bertelsmann mostrou que a maioria dos cidadãos já não quer a Ucrânia no bloco nos próximos anos. Logo depois da invasão, em março de 2022, 69% apoiavam. Nos últimos dias, a conversa se mexeu. Segundo o Financial Times, Volodimir Zelenski reconheceu pela primeira vez que a Rússia também poderia receber garantias de segurança num acordo de paz. As de Kiev vêm antes, ressalvou, e a Europa precisa estar à mesa. Equipes técnicas de Ucrânia, Rússia e Estados Unidos devem se reunir em Abu Dhabi na primeira quinzena de novembro, e o Kremlin sugere o dia 10. Na terça-feira (27), Stubb e o primeiro-ministro da Noruega, Jonas Gahr Store, telefonaram a Putin, o primeiro contato direto de líderes europeus com ele desde julho do ano passado. Kiev olha com desconforto a aproximação entre Washington e Moscou. Negociadores americanos e russos teriam discutido negócios que só valeriam depois da guerra, de petróleo a espaço aéreo. Zelenski disse ter ouvido sinais de redução das tropas americanas na Europa. Otimismo seria exagero; ainda assim, duas semanas atrás essa conversa nem existia. França: a rua, o mercado e a urna Em 7 de julho, Marine Le Pen anunciou a candidatura à Presidência horas depois de a Justiça reduzir sua inelegibilidade. De lá para cá, a França esteve nas seis últimas edições seguidas, e o assunto deixou de ser só eleitoral para entrar na economia. Em 21 de outubro, o Estado francês chegou a pagar 5% para se endividar por dez anos, algo que não acontecia desde 2002. A dívida está perto de 120% do PIB, e o déficit deste ano deve fechar em 5,4%. Em 2027, os juros vão custar 74,5 bilhões de euros, mais do que os 65,5 bilhões da educação, justamente o setor cujo subfinanciamento levou os secundaristas às ruas. Os protestos viraram revolta contra o custo de vida, e o dia 17 de outubro terminou em violência. "A realidade nos alcança", escreveu o primeiro-ministro, Sébastien Lecornu, em 30 de setembro. Na sexta-feira (23), a Moody's manteve a nota Aa3, com perspectiva negativa, e evitou um rebaixamento que muita gente dava como certo. É uma crise fiscal que virou política: o mesmo orçamento que tenta tranquilizar os investidores é o que alimenta a revolta nas ruas e o discurso de Le Pen. O governo apresentou um orçamento de 2027 com 43 bilhões de euros em cortes e impostos e não tem maioria para aprová-lo. O ministro das Finanças, Roland Lescure, disse que não há dinheiro para repetir a resposta de 2019 aos coletes amarelos. Cinco centrais sindicais convocaram para 5 de novembro um dia nacional de greve e manifestações. O instituto de pesquisas Ifop deu a Le Pen entre 34% e 38% no primeiro turno, marcado para 18 de abril de 2027. O segundo será em 2 de maio. Energia: a conta de Hormuz O estreito de Hormuz está praticamente fechado desde o fim de fevereiro, e a conta apareceu em quase todas as edições. Na quarta-feira (28), o gás de referência na Europa passou de 100 euros por megawatt-hora, o que não acontecia desde dezembro de 2022. Antes da guerra, custava cerca de 32. Os estoques estavam em 75% em 21 de outubro, para uma meta de 90% até 1º de novembro. O Catar quase não mandou gás ao continente no verão, e os Estados Unidos já fornecem cerca de 30% do que a União Europeia consome. O comissário de Energia, Dan Jorgensen, avisou que o inverno será difícil. O diesel bateu recorde na França em setembro, a 2,41 euros o litro, e a alta chegou aos protestos. O Banco Central Europeu subiu os juros duas vezes neste ano. Reino Unido: a pergunta que voltou Keir Starmer anunciou a renúncia em 22 de junho, e Andy Burnham assumiu em 20 de julho. Nas primeiras semanas, o novo primeiro-ministro quase não tocou no assunto Europa. Em 29 de setembro, no congresso trabalhista, em Liverpool, disse que o brexit fez mais mal do que bem. No dia seguinte, na BBC, enumerou as opções: manter o arranjo atual, entrar na união aduaneira, voltar ao mercado único ou "ir até o fim", isto é, pedir a readesão. Não disse qual prefere. Emmanuel Macron respondeu "welcome back", em inglês. O vice-líder do Reform UK, Richard Tice, acusou Burnham de querer voltar a Bruxelas pela porta dos fundos, e a extrema direita de Nigel Farage segue competitiva nas pesquisas. A cúpula Reino Unido–UE, em que Burnham promete expor as alternativas, será em 20 de novembro. A outra aproximação europeia, com o Canadá, mudou de tom nesta semana. O termo "membro associado" saiu do rascunho da declaração para a cúpula de Montreal, que começa nesta quinta-feira, e foi trocado por "associação cada vez mais estreita", segundo o Politico. A Alemanha liderou a resistência, dizem diplomatas, com apoio da Grécia e da França. O texto ainda depende de aprovação final. Há um acordo que já saiu do papel. O pacto comercial entre a União Europeia e o Mercosul, assinado em janeiro, vale de forma provisória desde 1º de maio, enquanto o Tribunal de Justiça da UE ainda examina sua compatibilidade com as regras do bloco. Segundo o governo brasileiro, as exportações do país para os europeus cresceram 30,7% entre maio e setembro, na comparação com o mesmo período de 2025, e o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, atribuiu a alta ao acordo. No acumulado de janeiro a setembro, o aumento é de 20%. Frase da Semana No mundo de hoje, o destino da Europa deve continuar nas mãos dos europeus Os meses que vêm O calendário de novembro já está cheio. No dia 3, os americanos votam nas eleições de meio de mandato, e Donald Trump, que chamou de risível a oferta europeia de associação ao Canadá e ameaçou o bloco com tarifas, chega a elas com a economia sob pressão. No dia 5, as centrais sindicais francesas convocam um dia nacional de greve e manifestações. Na primeira quinzena, ucranianos, russos e americanos devem se sentar em Abu Dhabi. No dia 17, vence o prazo para a Assembleia Nacional francesa votar o conjunto do orçamento de 2027, que pode seguir ao Senado sem voto ou ser aprovado pelo artigo 49.3, que dispensa o voto. No dia 20, Burnham diz o que quer do brexit. Em 26 e 27, os líderes europeus se reúnem em Bruxelas para tratar do orçamento de 2028 a 2034 e dos cerca de 70 bilhões de euros que faltam para financiar a Ucrânia em 2027. A Alemanha e outros cinco países dizem que não haverá acordo sem cortes de centenas de bilhões na proposta da Comissão. Dois dias depois, em 29 de novembro, a Espanha vota. Depois vêm as urnas. A Itália vota em 2027, talvez antes do previsto, e Finlândia, Grécia e Polônia também. Na França, o primeiro turno é em 18 de abril. No meio do caminho, um inverno com estoques de gás abaixo do normal. Estamos diante de um novelo de temas sensíveis que se entrelaçam. O orçamento europeu e o dinheiro para a Ucrânia serão decididos por líderes que já estão em campanha, cada um querendo um texto que caiba no próprio discurso eleitoral. A negociação de paz avança num momento em que Washington conversa direto com Moscou e a Europa precisa garantir um lugar na mesa. E a conta de energia chega com o frio, quando a política francesa já terá esquentado. É por isso que a eleição francesa deixa de ser assunto doméstico. Le Pen disse que cortaria a ajuda a Kiev em seis meses, que se opõe à entrada ucraniana no bloco e que reduziria em 11 bilhões de euros a contribuição da França ao orçamento europeu. Se vencer, a segunda maior economia da União terá um presidente em choque com várias das regras do bloco. Serão meses intensos e decisivos. Até o Natal, a Europa deverá saber se terá voz numa negociação sobre a Ucrânia, quanto vai pagar pela própria defesa e por um inverno caro, e se consegue fechar um orçamento comum com meio continente em campanha. A resposta mais pesada, a da eleição francesa, só chega em 18 de abril.
Ucr�nia, Hormuz, protestos e brexit; veja temas que pressionam a Europa
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