Sindicatos patronais das telecomunicações e de trabalhadores divergem sobre os impactos do fim da escala 6x1. Enquanto as empresas preveem custos maiores sem ganho certo de produtividade, os empregados esperam reduzir o esgotamento físico e mental provocado pela rotina de atendimento em call centers. A presidente da Feninfra (Federação Nacional de Call Center, Instalação e Manutenção de Infraestrutura de Redes de Telecomunicações e de Informática), Vivien Mello Suruagy, afirma que o fim da escala 6x1 será uma 'bomba atômica' para o setor de telecomunicações, pois as empresas operam com margem de lucro apertada e, no caso dos provedores de internet, sem reajuste nos valores cobrados ao cliente há quase nove anos. A categoria, que ainda não tem um plano detalhado de implementação das novas escalas, é uma das que têm procurado o Legislativo e o Executivo para negociar definições próprias, por meio de leis complementares e esclarecimento de normas regulamentadoras já existentes. Hoje, os funcionários de call centers, um dos setores no guarda-chuva da Feninfra, cumprem jornada de 36 horas por semana. A PEC do fim da 6x1 determina a manutenção da carga horária para quem já cumpre menos de 40 horas, mas as empresas precisarão garantir duas folgas semanais ao trabalhador. Suruagy diz que a produtividade pode não aumentar de imediato, como é esperado por defensores do fim da 6x1 e questiona como será possível equilibrar as contas com o aumento de custos. Ela cita estudo da CNI (Confederação Nacional da Indústria) que mensurou impactos do fim da 6x1 para a economia, além da desempenho ruim do Brasil no quesito produtividade. "No setor das telecomunicações os resultados, quando temos, são baixíssimos. Como vão ficar as empresas? Elas vão quebrar? Elas vão demitir pessoal? Estamos em uma situação muito indefinida", diz. Já para Mauro Britto, o secretário-geral do Sintetel-SP (Sindicato dos Trabalhadores em Telecomunicações no Estado de São Paulo), a mudança trará benefícios de produtividade e também do ponto de vista econômico. A folga, diz, libera tempo para consumir, passear com a família e se divertir com os filhos, por exemplo. Ele destaca os benefícios especialmente para mães. "Vejo muitas mulheres reclamarem de nem conseguir acompanhar o passo a passo do crescimento do filho ou da filha." Folha Mercado Receba no seu email o que de mais importante acontece na economia; aberta para não assinantes. Mesmo com a carga horária inferior às 44 horas semanais, ele diz que há pressão de vários lados: da empresa que ele representa, do consumidor e de seu chefe. "Você não tem noção do que acontece com esse trabalhador em termos de transtornos mentais", afirma Britto. Segundo ele, são comuns casos de depressão, adoecimento, relatos de pressão psicológica e assédio moral. "A vida desses trabalhadores não é fácil. Eles têm que ser muito resilientes para aguentar insatisfações agressivas dos clientes. São o para-raio" afirma. Do lado do sindicato dos trabalhadores, Mauro Britto diz que faltam definições práticas: as empresas ainda discutem a adaptação, enquanto o sindicato aguarda normativa para o setor. A principal dúvida diz respeito à jornada diária. A NR-17 (Norma Regulamentadora 17), que regulamenta o teleatendimento, prevê seis horas por dia, mas alguns acordos do setor concentram as 36 horas semanais em cinco dias de 7 horas e 12 minutos, apesar de o sindicato considerar esse formato irregular. Britto afirma que é preciso levar em consideração as diferentes realidades do mercado para não criar um problema para o trabalhador. O sindicato defende a manutenção das seis horas diárias, mas trabalhando cinco dias por semana, o que levaria a uma redução para 30 horas semanais. Ele já espera resistência das empresas e diz que a adesão dependeria de normativa do governo. Rotatividade e salário Vagas no telemarketing são porta de entrada para o mercado de trabalho, especialmente para jovens, em um setor que enfrenta dificuldades para encontrar mão de obra e lida com alta rotatividade. O teleatendimento paga, como salário de entrada, o mínimo permitido. Demais benefícios, diz Britto, também ficam abaixo dos pagos em outros segmentos das telecomunicações. Devido à baixa remuneração, afirma, o trabalhador que cumpre seis horas diárias costuma procurar outra ocupação e chega a somar até 12 horas de trabalho por dia. Para Britto, do sindicato dos trabalhadores, a dupla jornada amplia o desgaste à saúde, com exposição prolongada a telas, à audição e à voz. Essas questões trazem para o setor outros desafios: a alta rotatividade e o absenteísmo (faltas, atrasos ou saídas antecipadas). Em 2025, segundo dados do MTE, o setor registrou 405.497 admissões e 413.888 desligamentos, saldo negativo de 8.391 vagas. A taxa de rotatividade, portanto, foi de 95,5% — quase todo o contingente da categoria foi reposto. Em São Paulo, essa taxa chegou a 100,1%, com 162.819 admissões e 171.453 desligamentos. Ainda em 2025, a remuneração média dos operadores de telemarketing foi de R$ 1.892,33. Entre as mulheres, que são 72% da categoria, ficou em R$ 1.872,16, e entre os homens, em R$ 1.944,12. Quanto mais jovem, menor é o salário: até 17 anos, a remuneração média é de R$ 1.467,25; entre 18 e 24 é de R$ 1.723,74; e de R$ 1889,54 quando entre 25 e 29 anos. Segundo o MTE (Ministério do Trabalho e Emprego), entre 2021 e 2025, o número de funcionários registrados como operadores de telemarketing e afins caiu de 527.884 para 420.191, uma redução de 20,4%. Em São Paulo, onde estão concentrados a maior parte dos trabalhadores do setor, a queda foi de 245.430 para 158.384, ou 87.046 postos (-35,5%). ABT defende redução de encargos para empresas A ABT (Associação Brasileira de Telesserviços) defende, em nota, transição gradual e com diálogo, com atenção a jornadas diferenciadas, para preservar empresas e empregos. A entidade considera oportuno o momento para debater a redução de encargos sobre o emprego, prevista na EC 132/2023 e ainda não implementada, como contrapeso à reforma da 6x1. . A entidade afirma compartilhar do compromisso com a qualidade de vida dos trabalhadores. "Responsável por cerca de 1,4 milhão de empregos e uma das principais portas de acesso ao mercado formal, especialmente para jovens, mulheres e pessoas negras, o setor entende que o bem-estar das equipes está diretamente associado à qualidade do atendimento prestado à população", afirma.
Setor de telecom prev� 'bomba at�mica' com fim da 6x1 e sindicato destaca rotina sob press�o
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