Se eu pudesse mandar uma carta a Lula, pediria ajuste fiscal e articula��o contra bolsonarismo

Se eu pudesse mandar uma carta a Lula, pediria ajuste fiscal e articula��o contra bolsonarismo

Se pudesse enviar uma carta endereçada para Lula, no Palácio do Planalto, escreveria mais ou menos assim: "Prezado presidente, parabéns pela vitória com letras maiúsculas e por dois grandes feitos: o de ter sido eleito quatro vezes presidente do Brasil, algo inteiramente inédito, e por ter vencido uma eleição improvável, porque o governo do senhor foi bastante mais ou menos, para não dizer bem ruinzinho. Por isso, não imaginei que o senhor seria vencedor, errei. Agora é pensar para frente: o dia seguinte, como fazemos todos nós e, em particular, os políticos. As dificuldades eleitorais de 2026, creio, tiveram a ver com o senhor ter escolhido um caminho oposto ao de 2003, quando os primeiros anos foram de ajuste pela despesa em vez de pela receita. Isso não aconteceu em 2023. O resultado, humildemente afirmo, foram juros muito elevados por todos esses anos. Uma sociedade que vive assim, com juros altos por quatro anos, joga no lixo o seu futuro. O senhor sabe que o Banco Central reage à magnanimidade, ou não, do Tesouro Nacional, que, por sua vez, segue as decisões da presidência da República. Ou seja, juros altos não dependem apenas do presidente do BC. É provável que o senhor tenha de fazer um giro de 180 graus no início desse novo mandato no que diz respeito aos gastos e, portanto, às expectativas geradas na campanha eleitoral, algo semelhante ao que fez Dilma em 2015. A propósito, parabenizo o senhor por ter retornado à presidência em 2022 para tentar desfazer algumas das heranças deixadas por ela. Nunca na história do Brasil tivemos uma presidente tão de fora da política. O primeiro mandato eleitoral dela foi o cargo de mandatária máxima da nação. Algo inédito no país. Não por acaso há dois Brasis, antes e depois dela. Antes, com a aliança PT-MDB atuando para redistribuir renda e tendo como principal opositor o PSDB, além do país crescendo de forma vigorosa e sem a caça às bruxas que caracterizou a Lava Jato. Depois dela, com crise econômica, a prisão do senhor, a derrocada do PSDB e o surgimento de Bolsonaro. Experiência política é importante e permite evitar muitos erros, por isso saúdo a presença de Rafael Fontelles e Camilo Santana próximos ao senhor no discurso de vitória. Gostaria que o senhor trabalhasse firme, neste quarto e merecido mandato, para continuar desfazendo essa herança maldita deixada por ela, eliminando da política nacional os Bolsonaro. O senhor sabe que meio caminho foi percorrido com a vitória de ontem. Talvez seja o caso de se aproximar, além daqueles que têm verdadeira experiência eleitoral, dos que foram considerados pelo senhor, em algum momento, parte de uma frente ampla. Quanto a isso, fiquei feliz ao ver o senhor dando a palavra a Geraldo Alckmin no discurso de vitória. Senti falta de Simone Tebet. Digo mais: a recomposição política do país, rumo ao que muitos denominam de direita civilizada, talvez exija do senhor conversar de peito aberto, ainda que em caráter reservado, com Tarcísio de Freitas, Valdemar Costa Neto, Gilberto Kassab e outros com o mesmo perfil. Perdão se estiver pedindo muito para o senhor, ter de reconstruir a direita além de ter feito um pujante partido de esquerda. Lamento, essa foi a herança deixada por sua sucessora, que, não fosse o impeachment, poderia até mesmo ter destruído o PT. Há um caminho pela frente sem os loucos dos bolsonaros, com, eventualmente, Tarcísio candidato a presidente em 2030. Aliás, hoje ele deve estar comemorando muito a vitória do senhor. Quem sabe teremos em 2030 a candidatura de Geraldo Alckmin ao governo de São Paulo em uma costura que venha a incorporar parte da direita. Enfim, quem sou eu para imaginar hipóteses e possibilidades diante de um político tão competente e experiente como o senhor? Mais do que isso, um político de um sucesso incomparável na história recente do Brasil. Faço esse exercício apenas como um cidadão preocupado com a lamentável existência da família Bolsonaro como líder da direita. Se alguém hoje tem a faca e o queijo nas mãos para colocar fim a esse nefasto clã, esse alguém é o senhor em seu derradeiro mandato como presidente. Um forte abraço e sorte nos próximos quatro anos".

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