Santos populares e Igreja se misturam na Argentina �s v�speras da visita do papa

Santos populares e Igreja se misturam na Argentina �s v�speras da visita do papa

Longe dos altares do Vaticano, a devoção a santos populares como Gauchito Gil, Difunta Correa e San La Muerte cresce nas periferias, estradas e povoados da Argentina. Ela convive —entre sinais de aceitação e rejeição— com uma Igreja Católica que não reconhece essas figuras, mas que vê seus fiéis moverem-se por elas em festividades massivas. Esse culto aos santos populares ganha uma nova dimensão com a futura visita do papa Leão 14 ao país e com a recente canonização da beata Mama Antula, a primeira santa argentina. A visita ao país está programada para acontecer de 8 a 11 de novembro. Antes, o sumo pontífice, que se recupera de uma cirurgia para remoção de câncer no pulmão, passará pelo Uruguai (dos dias 6 a 8) e, posteriormente, irá ao Peru (de 11 a 17). A Argentina tem uma das cartografias de fé popular mais importantes da América Latina. Esses santos não são apenas mitos folclóricos: funcionam como redes de apoio social, símbolos de resistência de classes marginalizadas e elementos centrais da cultura urbana e rural. "As devoções populares são muito importantes na maneira como os argentinos vivenciam a fé", explica o historiador Diego Mauro, vice-diretor do ISHIR-Conicet (centro de estudos socio-históricos), na província de Santa Fé. "Nos casos de Gauchito Gil e a Difunta Correa, as práticas guardam muitas semelhanças com aquelas que os fiéis realizam, por exemplo, em santuários marianos", compara Cercanías A newsletter da Folha sobre América Latina, editada pela historiadora e jornalista Sylvia Colombo Protetor dos motoristas e dos vulneráveis, Gauchito Gil, que teria sido um desertor do Exército no século 19, é o maior símbolo de devoção popular do país. Ele inspira as fitas vermelhas que colorem as estradas argentinas e atrai centenas de milhares de peregrinos anualmente à província de Corrientes. O 8 de janeiro na cidade de Mercedes, em honra ao Gauchito, é um dos eventos que mais atraem público, podendo reunir de 300 mil a 400 mil fiéis. Um deles é o entregador Juan Pablo Ezeiza, 37, que consolidou a sua devoção depois de um pedido atendido. "Eu já o respeitava, mas depois que comecei a viver com a minha companheira, aprendi a me apegar por causa de coisas que pedi e que ele atendeu, e continua atendendo." Exibindo uma tatuagem do Gauchito, ele conta que passou anos com manchas pelo corpo que lhe causavam muita coceira, sem melhora com tratamentos convencionais. "Nós viajamos um 8 de janeiro para Mercedes, fui até ele para pedir que tirasse aquilo de mim. Um mês depois, alguém fez chegar até mim um comprimido e, em duas semanas, sumiu tudo. Não tem explicação." A manicure Camila Fernández, 29, vai a um santuário do Gauchito em Tigre, na Grande Buenos Aires, todo dia 8. "Venho agradecer e pedir há uns dez anos", conta. "Peço sempre que nunca me falte trabalho ou saúde para meus filhos. As coisas vão progredindo aos poucos, sempre avançando." Ela atribui ao santo ter podido comprar uma moto. Além de Gil, a Difunta Correa também recebe pedidos dos argentinos. A imagem de uma mulher deitada e de olhos cerrados com um bebê pode ser vista em praças, esquinas e pequenos altares pelo país. Ela remete ao milagre de uma mãe que amamentou o filho mesmo depois de morta. O santuário dela, na província de San Juan, atrai promessas de caminhoneiros e viajantes de todo o Cone Sul. Também chama a atenção pelo país a representação de um esqueleto com capuz. Trata-se de San La Muerte, que tem origens em terras guaranis, na Argentina e no Paraguai. O culto a ele, que mistura raízes indígenas e catolicismo, é forte no sistema prisional e entre jovens de bairros empobrecidos dos municípios em volta da capital e em Rosário, onde funciona como código de proteção e identidade. Em Wilde, na Grande Buenos Aires, jovens se reúnem todos os dias em um pequeno santuário para rezar por San La Muerte e receber limpeza espiritual. No espaço enfeitado por faixas de agradecimento que cortam a rua, imagens de orixás (como Ogum) e santos católicos ficam lado a lado —os visitantes depositam garrafas de bebidas alcoólicas, cigarros, pães e doces como oferendas. Entre a tolerância e o apagamento A relação dos santos populares com a Igreja Católica é complexa, variando entre a tolerância pragmática e a rejeição. Hoje, em bairros populares e no interior do país, paróquias acolhem fiéis que frequentam a missa dominical e também acendem velas vermelhas para o Gauchito Gil. O termo "santos pagãos" foi utilizado por muito tempo —e ainda é— como uma forma de desqualificar essas manifestações de fé. A hierarquia eclesiástica também rotulou, historicamente, tais devoções como formas de superstição, recorda Cleopatra Barrios, pesquisadora do Conicet e professora da Faculdade de Humanidades da Universidad Nacional del Nordeste. "Em um primeiro momento, a atitude foi de rejeição radical. Antes do golpe de Estado e durante a ditadura militar de 1976, por meio da Direção-Geral de Cultos e de discursos na mídia, promoveu-se a destruição de altares públicos dedicados a santos populares." Em um segundo momento, ela conta, a atitude passou a ser de intervenção e regulação, especialmente em santuários e capelas com grande número de fiéis. "Essa relação depende de múltiplos fatores: de qual devoção se trata, das práticas que ela mobiliza, de seu enraizamento territorial e social, dos atores envolvidos e, especialmente, da capacidade de negociação que os próprios devotos e as organizações constituídas em torno desses cultos possuem", avalia o geógrafo e cientista social Fabián Claudio Flores, da Universidad Nacional de Luján. "É importante considerar que a Igreja Católica não é um ator homogêneo e monolítico", diz ele, que é codiretor do grupo de estudos sobre pluralismo religioso na Argentina. A pedido dos fiéis, alguns párocos celebram missa em 8 de janeiro nos santuários e até dedicam orações e canções aos santos populares. Um dos locais onde isso acontece é o santuário do Gauchito no parque Los Andes, no bairro portenho de Chacarita. Cíntia Vidaurre, 42, cuida há 15 anos do espaço. "Um casal da província de Corrientes veio, trouxe uma imagem do Gauchito e a colocou em cima desta árvore. Quando foram embora, os devotos começaram a cuidar dela; fizeram uma casinha pequena e depois uma maior. Tudo isso pelo esforço próprio dos devotos. O órgão responsável pelas praças e espaços verdes nos cedeu o local, instalou a grade e permitiu que o santuário existisse aqui", ela conta. Uma missa católica é celebrada no dia 8 de cada mês em frente à pequena construção, por um padre do bairro que acolhe os devotos de Gil. O eletricista Raul Bustos, 64, conhece bem a história de Gil por também ser de Corrientes e diz que o culto ao santo popular não concorre com a devoção aos santos reconhecidos pela Igreja. Para ele, ambos convivem no coração dos argentinos. "Gil era um gaúcho, um trabalhador do campo, que ajudava muito os pobres. Se roubava, roubava para ajudar", diz, ao receber visitantes em um santuário em Lanús, na região metropolitana da capital. Bem diferente é a postura da Igreja em relação a outras devoções populares, como a de San La Muerte, considerada incompatível com a fé cristã. O catolicismo entende que a morte é um acontecimento, não uma pessoa ou entidade a quem se deva prestar culto, lembra Diego Mauro, que também é professor da Universidade Nacional de Rosário. "O arcebispo de Santiago del Estero, o cardeal Vicente Bokalic, foi muito claro a esse respeito: o culto a San La Muerte baseia-se em crenças supersticiosas e práticas mágicas, e ele aconselhou os católicos a manterem distância", diz.

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