Roupa Nova, com Guilherme Arantes, ofusca o jazz de Jon Batiste no Rock in Rio

Roupa Nova, com Guilherme Arantes, ofusca o jazz de Jon Batiste no Rock in Rio

Uma cena curiosa tomou conta do Parque Olímpico, onde acontece o Rock in Rio 2026, nesta segunda (7), o quarto dia do festival. A banda Roupa Nova, atração do palco Sunset, ofuscou o show do americano Jon Batiste, logo na sequência, no palco Mundo —o maior do evento. Grupo bastante popular da música brasileira desde a década de 1970, o Roupa Nova subiu ao palco ainda de dia, pouco depois das 17h. Minutos depois, era praticamente impossível circular pelas imediações do palco Sunset, tamanha a aglomeração para assistir à banda.Já no show de Batiste, quem quisesse poderia chegar sem nenhuma dificuldade à grade do palco Mundo. É difícil comparar a quantidade de gente vendo uma apresentação e outra, até porque os espaços têm tamanhos diferentes, mas ficou muito fácil medir o interesse do público pelos brasileiros e pelo americano. Batiste tocou com uma camiseta azul do Brasil, disse que seu show não era um concerto, mas uma "prática espiritual". "O que faço vem de antes de nascermos", afirmou. "Então preciso ver vocês dançando e sentir sua liberdade." A plateia se mexeu e aplaudiu o americano, mas passou a maior parte do show admirando o artista com certa indiferença —e vários momentos de conversa paralela à música. Batiste é um artista bastante técnico e canta com habilidade, o que também pode ser dito sobre sua banda.É também muito reconhecido nos Estados Unidos. Lá, detém prêmios Grammy e fez carreira como líder da Stay Human, banda residente no programa de talk show The Late Show with Stephen Colbert entre 2015 e 2022. No Rock in Rio, sabendo que sua obra não é tão conhecida dos brasileiros, fez acenos ao público local —como quando tocou ao piano "Mas Que Nada", de Jorge Ben Jor, de maneira perfeita, como se tivesse nascido com o samba nos dedos. Levou ao palco percussionistas do Rio de Janeiro. Mas o apelo de seu show, totalmente baseado na tradição da música negra americana —o blues, o soul, o gospel e o jazz— não foi muito além dessas demonstrações de virtuosismo nos instrumentos, algum carisma e a vontade de agradar. Certamente não desagradou, só não teve nem de perto o impacto do Roupa Nova. Autora do hino oficial do Rock in Rio, a banda só havia se apresentado no festival carioca em 1991. Voltou agora, 35 anos depois, para uma espécie de reparação histórica. A sensação é de que o grupo poderia ter feito vários shows no evento ao longo dos anos.Isso porque seu repertório estava na boca na plateia, entupida de gente. O Roupa Nova saiu emendando seus sucessos, cantados pelos integrantes da banda revezadamente, de "Dona" a "Volta Pra Mim", de "Sapato Velho" a "Coração Pirata", de "A Viagem" a "Whisky a Go-go". O público, nitidamente mais velho neste domingo, encabeçado por Elton John e Gilberto Gil, cheio de cabeças brancas, vibrou, gravou imagens do palco no celular e cantou junto. Teve pedido de casamento na plateia, um empolgante cover de "Maria, Maria", de Milton Nascimento, mãos para o alto, palmas e o quê mais a banda pedisse aos fãs. A apresentação ainda teve a participação de Guilherme Arantes. Veterano do pop brasileiro, ele engrandeceu o show cantando "Cheia de Charme", entre outras músicas de seu repertório. Foi saudado com os devidos aplausos e deixou a impressão que merecia uma apresentação só sua no Rock in Rio. O ponto baixo foi a potência das caixas de som. Parece que nem elas —nem a organização do festival— esperavam tamanha audiência para o show que fechou a tarde no palco Sunset.

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