Redes de restaurantes estão descontentes com a ideia mais recente da Keeta para driblar contratos de exclusividade selados com outras plataformas de delivery, a modalidade chamada "compra intermediada". Nesta semana, a empresa reiniciou processo de expansão da operação e chegou a 21 cidades no país. No método de "compra intermediada", o usuário realiza um pedido na Keeta —onde está listado o cardápio de restaurantes que não possuem contrato com o aplicativo— e um intermediário da plataforma vai até o balcão, faz a compra e entrega ao cliente final. É diferente do formato tradicional em que, normalmente, iFood, 99Food e a própria Keeta trabalham: quando há contrato entre plataforma e restaurante, os pedidos são lançados diretamente para o estabelecimento. Redes ouvidas pela coluna reclamam que o novo modelo bagunça a operação interna: há relatos de pedidos feitos por intermediários em unidades que não trabalham originalmente com delivery, o que estaria pressionando os funcionários no local. Uma das redes relata que dentro de seu sistema próprio de delivery, diferentes endereços —supostamente pertencentes a clientes finais— estavam cadastrados sob o mesmo nome e CPF. A situação causaria mal-estar com os consumidores. Ao procurar o estabelecimento para reclamar do pedido, os restaurantes não conseguem achar o pedido original daquele cliente. A empresa não respondeu à reportagem sobre o uso de dados do cliente final na compra intermediada. Erik Momo, CEO da rede de pizzarias paulista 1900 e presidente da ANR (Associação Nacional de Restaurantes), relata que o aumento de pedidos foi inicialmente bem-vindo, mas passou a causar distúrbio na operação que não compensa o preço do ajuste. "Há desbalanceamento na demanda. Os cupons aplicados pela Keeta em cima dos nossos produtos trazem clientes que não fidelizam. Gastamos para nos ajustar à nova demanda e ela some", explica. A Keeta argumenta com os proprietários que a medida foi necessária para driblar contratos de exclusividade abusivos selados entre as redes de restaurantes e as outras duas principais concorrentes, 99Food e iFood. Seria a forma encontrada pela nova empresa para oferecer mais variedade ao cliente e competir no cenário acirrado. A marca, que é o braço brasileiro da chinesa Meituan, argumenta com donos de restaurantes que não há determinação legal que impeça a prática e que as redes não podem se recusar a vender para os intermediadores —como tentaram fazer, em alguns casos. "A compra intermediada é uma ferramenta local desenvolvida como um piloto para ampliar o acesso dos consumidores a opções de restaurantes que ainda não estão integrados à plataforma da Keeta, em um contexto em que o mercado está bloqueado por contratos de exclusividade que impedem muitos estabelecimentos de escolher livremente sua plataforma de delivery", declarou em resposta à coluna. Algumas foram à Justiça denunciar o uso indevido de suas marcas dentro da Keeta, como Greenjoy e Pizza Hut. Hoje, o nome dos restaurantes aparece nas plataformas acompanhada do anúncio de "intermediada", mas sem uso de elementos da identidade visual das companhias. Há, no entanto, veiculação de fotos dos pratos no catálogo. Uma rede de restaurantes ouvida pela coluna afirmou que já foram usadas fotos que não eram dela para ilustrar o próprio cardápio. "As opções são claramente identificadas no app com a tag "Intermediada" e imagens ilustrativas dos pratos. Os logos dos restaurantes não são exibidos. Ao longo de toda a jornada no aplicativo, os consumidores são devidamente informados de que se trata de um serviço de compra intermediada e de suas respectivas especificidades", afirma a empresa ao Painel S.A.. Krispy Kreme, Almanara, Greenjoy e Frutaria são exemplos de redes que estão listadas no catálogo de compra intermediada da Keeta e mantém contratos de exclusividade ou preferência com o iFood. O advogado especialista em direitos do consumidor Arthur Rollo, a prática não é ilegal, ainda que possa causar incômodo aos estabelecimentos. "Para o consumidor, interessa pagar mais barato. As exclusividades entre plataformas e restaurantes nem sempre favorecem o consumidor. Não vejo como seja possível proibir a plataforma adversária de fazer a compra", analisa. Sob o ponto de vista de concorrência, no entanto, ele acredita que pode haver uso indevido da marca —se há contrato de exclusividade com uma plataforma e uso não autorizado de material do restaurante em outra, há problema concorrencial. "A Keeta pode prestar esse serviço, mas terá que encontrar uma forma de fazê-lo sem usar a marca e o cardápio do estabelecimento com o qual ele não mantém contrato —por exemplo, direcionando para o cardápio online do próprio restaurante. Daí o consumidor decide", declara. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
Restaurantes criticam Keeta por uso de informa��es sem contrato em 'compra intermediada'
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