Escrevo sem saber o resultado da eleição, mas também sem ver razão para otimismo. Nenhum candidato inspira confiança de que estará à altura dos desafios em quatro temas vitais para a sobrevivência de brasileiros e demais terráqueos: mudança climática, inteligência artificial, pesquisa científica e terapias psicodélicas. Com Flávio Bolsonaro, o Brasil vai pegar fogo. Já está em chamas, por força da secura do El Niño e do empenho criminoso de garimpeiros, grileiros, madeireiros e fazendeiros que não hesitam em dar combustível para a propaganda incendiária dos mercenários Nikolas Ferreira e Tarcísio de Freitas. Votam no nepobaby Bolsonaro homens brancos e mais ricos; no Centro-Oeste, o filho 01 teve 57% dos votos —alguém aí pensou "agroboys"? O coração do país pulsa pelo ogronegócio, beneficiário final da cadeia de desmatamento que Flávio promete libertar da fiscalização por Ibama, ICMBio e Funai, que o pai manietou para a boiada passar e realimentar o aquecimento global com metano e CO2. Com Luiz Inácio Lula da Silva o desastre também virá, talvez mais lento. Ele terá dificuldade para manter o desmatamento em queda com a pauta antiambiental impulsionada por um Congresso mais direitista, pecuarista, racista e escravagista. O que Lula conseguir —se conseguir— poupar de emissões de carbono ao conter a imolação dos biomas será compensado com a queima de combustíveis fósseis da Foz do Amazonas. O petista desenvolvimentista varguista sindicalista não resiste a lambuzar-se com o óleo da Petrobras, às favas escrúpulos com a crise do clima. Com Bolsonaro, Big Techs e Big Bets terão carta branca para fazer o que bem entenderem, além de nos canibalizar a atenção. Poderão seguir calibrando algoritmos para favorecer candidatos e lavar dinheiro de políticos que se dizem gente de bem enquanto frequentam bacanais, defendem policiais assassinos de crianças, chamam banqueiro escroque de irmão e condecoram milicianos. Com Lula, será difícil imaginar que possa pôr freios significativos à inteligência artificial acumpliciada com redes antissociais e jogos de azar cibernético. Torrará energia e água baratas para atrair data centers ao patropi. E terá pela frente quintas-colunas dispostos a defender a liberdade de submeter-se, como influenciadores argentários, cantores sertanejos ou atletas, dirigentes e comentaristas de futebol. Com Bolsonaro, instituições públicas de pesquisa e ensino voltarão a comer o pão que o capetão amassou, pois o ora candidato está certo de que estudantes e cientistas continuarão resistindo ao fascismo ruminante. Com Lula, a proliferação de institutos e universidades federais seguirá desacompanhada de verbas suficientes para custeio, de prioridades e de projeto tecnocientífico articulado. Com Bolsonaro, a saúde mental não tem como melhorar; se macaquear Donald Trump para regulamentar terapias psicodélicas, será como panaceia proibitiva para enriquecer vendilhões padrão Einstein e disseminar conformismo. Com Lula, faltará visão para mobilizar a experiência de povos tradicionais, da ciência psicodélica nacional e do SUS e inovar com uma política de saúde mental coletiva incorporando alteradores de consciência. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
Quem quer ver o Brasil pegar fogo
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