'Que ningu�m venha a Aparecida para alimentar divis�es ou animosidades', diz arcebispo

'Que ningu�m venha a Aparecida para alimentar divis�es ou animosidades', diz arcebispo

Dom Mário Antônio da Silva, 59, costuma falar com voz pausada e firme, como um recado a bom entendedor. Em 2023, depois de ter sido bispo de Roraima, chamou os governos estadual e federal de omissos, ao criticar o que ele rotulou de descaso com povos indígenas diante da crise yanomami daquela época. Empossado em 2 de maio passado como arcebispo de Aparecida (SP), dom Mário estará à frente pela primeira vez, nesta segunda-feira (12), das celebrações de uma das principais datas do calendário católico no país, o Dia da Padroeira, em meio a uma polêmica que marcou as atuais eleições presidenciais. "Que ninguém venha a Aparecida para alimentar divisões ou animosidades, mas para renovar a fé, fortalecer a esperança e aprender com Maria a construir um Brasil mais fraterno, justo e solidário", afirma dom Mário em entrevista exclusiva à Folha. Nossa Senhora Aparecida entrou na disputa eleitoral de 2026 após a circulação de uma notícia falsa, segundo a qual o senador Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência, pretendia retirar da santa o título de padroeira do Brasil. O boato resgatou um projeto apresentado em 2007 pelo então deputado Victorio Galli, arquivado no ano seguinte, e ganhou força nas redes sociais durante a campanha de agora. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), seu adversário nas urnas, explorou o episódio, reafirmando que Aparecida continuaria padroeira. Flávio negou a intenção atribuída a ele e recorreu à Justiça. A controvérsia chegou ao TSE (Tribunal Superior Eleitoral), que analisou o caso, e ao STF (Supremo Tribunal Federal). Questionado se a polêmica ou a disputa eleitoral podem ser levadas junto às romarias ao Santuário Nacional, dom Mário lembra que, a cada quatro anos, a novena e a festa de Nossa Senhora coincidem com o período das eleições presidenciais, mas que isso não deve desviar o foco das celebrações. "Ano após ano, a Mãe continua sendo o centro das nossas celebrações", diz. Em 2022, a reportagem presenciou quando um grupo de católicos que apoiava Jair Bolsonaro (PL) encurralarou um jovem de vermelho que passava perto da multidão que aguardava pelo então presidente. Para dom Mário, o Santuário Nacional de Aparecida deve ser um espaço de fé, acolhimento e fraternidade, não de divisão ou disputa política. "Aqui acolhemos a todos como peregrinos, respeitando suas diferenças", diz. Conforme ele, os fiéis devem chegar ao local motivados "pela fé, pela oração, pela fraternidade e não pela divisão e disputas políticas". Segundo dom Mário, a festa católica deve aproximar pessoas com diferentes posições, e não alimentar animosidades. Ele também recomenda evitar ofensas e discursos de ódio em casa, nas comunidades e nas redes sociais. "O dia 12 de outubro nos convida a fazer dessa festa um momento de aproximar-se de alguém que pensa diferente de nós, sem hostilidade nem preconceito. Em casa, nas comunidades e nas redes sociais [deve-se] evitar ofensas e discursos de ódio, promovendo o diálogo e o respeito. A unidade cristã não exige que todos pensem igual, mas que todos reconheçam a dignidade uns dos outros", diz. O arcebispo espera que a data seja marcada pela fé e pela esperança, com espaço para orações, agradecimentos e cumprimento de promessas. Também pede que peregrinos retornem do santuário levando não apenas a lembrança da visita, mas a disposição de cuidar do próximo. "Passar um dia na casa da Mãe Aparecida é para nós um privilégio, mas também um compromisso", afirma. Para ele, a devoção deve se traduzir em gestos concretos de solidariedade, como oferecer companhia a quem vive na solidão e ajuda a quem passa necessidade. A primeira festa de Nossa Senhora Aparecida de dom Mário como arcebispo de Aparecida será, segundo ele, uma missão de acolhimento aos milhares de fiéis que devem ir ao Santuário Nacional. "É uma grande alegria e, sobretudo, uma missão. Estar à frente dessa celebração é servir à Igreja e acolher os de filhos e filhas que vêm à casa da Mãe Aparecida", afirma dom Mário, que diz se sentir "um filho entre tantos filhos, chamado a ajudar os devotos a encontrar em Maria o caminho para Jesus". O arcebispo não antecipou o que pretende dizer no sermão da missa desta segunda-feira, às 9h, a principal do dia. Mas costuma tocar em assuntos fortes. Diante da basílica lotada pela primeira vez, em sua cerimônia de posse em maio, dom Mário não poupou palavras ao falar de um tema sensível à sociedade, ao chamar de vergonhoso o número de feminicídios no país. "Recordemos, as viúvas eram esquecidas. Isso nos interpela hoje na questão da violência, inclusive a violência contra a mulher. Devemos combater diante do vergonhoso número de feminicídio no nosso Brasil." POLICIAMENTO REFORÇADO Os candidatos Flávio Bolsonaro e Lula não devem ir a Aparecida na segunda-feira. O vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB), que está na chapa da reeleição, confirmou presença, assim como o prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB). A agenda do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) não havia sido divulgada até a publicação deste texto. Mesmo sem a presença dos candidatos, o policiamento será reforçado em Aparecida, segundo a SSP (Secretaria da Segurança Pública). Entre este sábado (10) e segunda-feira, a cidade deve contar com quase 660 policiais militares. Tanto a Polícia Militar quanto a PRF (Polícia Rodoviária Federal) deverão usar helicópteros na segurança dos romeiros. No ano passado, quase 500 mil fiéis foram ao Santuário entre os dias 1º e 12, sendo 152 mil apenas no Dia da Padroeira. A concessionária RioSP e a PRF estimam que o número de peregrinos que vão a pé a Aparecida pela rodovia Presidente Dutra ultrapasse 40 mil pessoas. PERFIL Dom Mário Antônio da Silva Nascimento: 17/10/1966, em Itararé (SP) Formação: Estudou filosofia e teologia em Jacarezinho (PR); tem mestrado em teologia moral pela Pontifícia Universidade Lateranense de Roma Ordenação: diácono e padre em 1991; se tornou bispo auxiliar de Manaus em 2010 e bispo de Roraima; em 2016 se tornou bispo de Roraima e em 2022, arcebispo de Cuiabá CNBB: Foi segundo vice-presidente da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil entre 2019 e 2023 Fonte: CNBB

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