Existem muitas razões para concordar ou discordar de Lula. Uma figura que ocupa o centro da política brasileira há quase meio século, que governou o país por tantos anos e agora disputa mais uma eleição presidencial está longe de ser imune a críticas. Seus acertos, erros, contradições e as pessoas que o cercam precisam estar permanentemente sujeitos ao escrutínio público. Mas há um fato difícil de contestar. Aquele pernambucano, que deixou uma das regiões mais pobres do Brasil, tornou-se operário e líder sindical e, junto com o Partido dos Trabalhadores, ajudou a promover uma das maiores transformações sociais da história do país. Milhões de brasileiros saíram da pobreza. O salário mínimo ganhou poder de compra. A desigualdade de renda diminuiu e o Bolsa Família ampliou a proteção social. A expansão das universidades, a criação dos institutos federais e as políticas de ação afirmativa abriram oportunidades para uma parcela da população historicamente excluída. Porém essas transformações tiveram seus limites. As políticas redistributivas elevaram sobretudo a renda dos mais pobres, reduzindo sua distância em relação à classe média, cujo poder aquisitivo avançou de maneira menos expressiva em termos relativos, pois os mais ricos permaneceram em uma posição muito distante do restante da população. A desigualdade de renda diminuiu, mas a concentração da riqueza permaneceu elevada. A estrutura de propriedade e a distribuição do patrimônio no Brasil passaram longe de uma transformação da mesma magnitude. Em uma sociedade desigual, na qual o consumo e a posição econômica funcionam como marcadores de status social, a redução dessa distância produz seus ressentimentos. É possível que esse sentimento de perda de distinção social ajude a explicar uma parte da insatisfação e das punições eleitorais sofridas pelo PT. A redução da desigualdade, uma de suas conquistas, também alimentou resistências políticas à continuidade do próprio projeto.Existe ainda outro desafio que Lula e o PT precisam enfrentar em um eventual novo mandato: compreender melhor a diferença entre gastos públicos e investimentos e, sobretudo, melhorar a eficiência do Estado. O Brasil não está quebrado, embora enfrente problemas fiscais que exigem respostas responsáveis. A sustentabilidade das contas públicas precisa ser compatível com a preservação e a ampliação de investimentos capazes de elevar a produtividade e melhorar os serviços oferecidos à população. Sem uma reorganização das prioridades, o país corre o risco de conviver com juros elevados por um período prolongado, limitando o crescimento econômico e favorecendo a concentração patrimonial, especialmente em uma sociedade na qual os ativos financeiros estão fortemente concentrados entre os mais ricos. A política econômica precisa encontrar caminhos para crescer e distribuir melhor, sem comprometer a capacidade futura do Estado de financiar suas próprias políticas. Lula conseguiu redistribuir melhor os frutos do crescimento, porém deixou uma economia cuja capacidade de sustentar novos avanços sociais continua limitada. Existe uma diferença fundamental entre reduzir a desigualdade dentro de uma estrutura econômica e transformar essa estrutura para que ela produza menos desigualdade no futuro. Ele foi muito mais bem-sucedido na primeira tarefa que na segunda. O texto é uma homenagem à música "Dia de Graça", de Candeia. Colunas Receba no seu email uma seleção de colunas da Folha LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
Qual � o legado de Lula?
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