A França é famosa por seus vinhos, queijos e protestos. O país se vê mais uma vez tomado por uma onda de manifestações, iniciada há cerca de 20 dias por estudantes secundaristas que reclamavam de falta de recursos e de professores, mas que rapidamente conquistou a adesão de outros setores. Estima-se que mais de 250 mil pessoas tenham comparecido às últimas marchas, enquanto os protestos chegaram a mobilizar quase um quarto dos liceus. Embora a maior parte dos manifestantes proteste pacificamente, registram-se episódios recorrentes de violência, com depredações, incêndios, saques, agressões e confrontos com a polícia. O ministro do Interior informou, na segunda (7), que 761 policiais, 215 estudantes e 89 funcionários de escolas foram feridos; ocorreram mais de 6.000 detenções, muitas delas de menores. Protestos na França têm pedigree. Vão da Revolução Francesa (1789), passam pela Comuna de Paris (1871) e pelo chamado Maio de 1968. Mesmo quando não atingem a dimensão de eventos históricos, afetam as percepções da sociedade e têm o poder de influenciar as políticas dos governos. Neste século, houve protestos contra a violência policial, em 2005, os preços dos combustíveis, em 2018 e 2019, e a reforma da Previdência, em 2023. Em janeiro, agricultores fecharam ruas de Paris contra o acordo entre a União Europeia e o Mercosul. Governos de diferentes matizes ideológicos, ainda que reprimam alguns eventos, não deixam de ouvir os cidadãos e, muitas vezes, atender às reivindicações. Na França, é muito difícil cortar ou redesenhar benefícios sociais. Mas, se os protestos sensibilizam autoridades, não alteram realidades demográficas e econômicas. Desde 1974, a França não executou nenhum Orçamento equilibrado. A dívida pública está em € 3,6 trilhões, o equivalente a 119% do PIB. Num contexto global de alta de juros, a deterioração fiscal torna-se alarmante. Politicamente, as manifestações representam mais desgaste para o presidente Emmanuel Macron e, pior, tendem a impulsionar forças autoritárias. Macron não poderá concorrer à reeleição em abril e não parece ter herdeiro competitivo. Marine Le Pen, da ultradireita, aparece nas pesquisas como grande favorita, e Jean-Luc Mélenchon, da esquerda radical, está entre os mais bem cotados para chegar a um segundo turno. A se confirmar esse cenário, será interessante ver como um governante ilibhttps://www1.folha.uol.com.br/mercado/2026/10/franca-mergulha-em-crise-fiscal-sob-fogo-cruzado-dos-mercados-e-das-ruas.shtmleral lida com protestos, que, dada a tradição francesa, não desaparecerão. editoriais@grupofolha.com.br
Protestos abalam a Fran�a em crise fiscal
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