Se Luiz Inácio Lula da Silva tivesse um governo mais bem avaliado pela população e uma disputa presidencial menos acirrada pela frente, dificilmente levaria adiante a ampliação das isenções do Imposto de Renda e o fim da escala de trabalho 6x1 —políticas de impacto orçamentário e econômico nunca cogitadas nos quatro mandatos presidenciais anteriores do PT. Entre abril e junho deste ano, sem que as grandes apostas eleitorais tivessem surtido efeito nas pesquisas de opinião pública, Lula lançou uma saraivada de medidas de renegociação de dívidas e estímulo ao consumo e ao crédito, além de subsídios para mitigar a alta dos preços dos combustíveis decorrente da guerra no Irã. Nesta reta final de campanha, sempre empatado com o rival Flávio Bolsonaro (PL) nas intenções de voto, o petista busca surpresas bombásticas. A 17 dias do primeiro turno, anunciou um reajuste de 15% para o Bolsa Família; agora, a 9 dias, proíbe as apostas online, as famigeradas bets, e cria mais um programa de socorro a famílias endividadas. Nessa mixórdia de cartadas eleitoreiras, que já somam perto de R$ 200 bilhões, há providências corretas, duvidosas e erradas. Em comum, são tomadas de afogadilho, não raro em contradição com políticas anteriores, sem maior debate, planejamento ou estratégia —e, sobretudo, sem respeito ao cidadão, cujos valores e interesses são manipulados à base de casuísmo oportunista. Assim como a correção do Bolsa Família poderia e deveria ter sido feita antes, ao longo de mais de três anos de benefícios congelados, os enormes malefícios sociais da multiplicação das bets já eram evidentes e demandavam restrições há muito tempo. A proibição por meio de medida provisória, como se estivéssemos diante de um problema repentino, pode assegurar seu cumprimento imediato, mas não a sobrevivência posterior da decisão no Congresso, que só deverá examiná-la após as eleições. Foi do governo Lula a iniciativa de regulamentar as apostas online, cuja legalização teve início em 2018, de modo a ampliar o mercado e a arrecadação. Argumentou-se que se gerariam empregos, se coibiria o jogo ilegal e a lavagem de dinheiro; empresas pagaram mais de R$ 2 bilhões em outorgas para operar no país. O projeto de Orçamento para 2027, enviado ao Congresso há menos de um mês, não prevê os R$ 22,7 bilhões necessários para o aumento do Bolsa Família, mas conta com receita de R$ 5,3 bilhões em impostos sobre a jogatina. Para além do rombo fiscal deixado para a próxima administração, não há prova mais cristalina da guinada eleitoreira nas duas políticas públicas. Em vez de governar o país, Lula é governado pela eleição. Acentuou-se a gastança, iniciada desde antes da posse, e agravaram-se pressões inflacionárias, juros e dívidas de famílias, empresas e governo. No caso das bets, ficará para depois um emaranhado de embates legais e políticos. editoriais@grupofolha.com.br
Proibi��o de bets mostra Lula governado pela elei��o
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