O já distante agosto de 2023 marcou o início de uma expedição que percorreu 10 mil quilômetros em 15 países, com percalços como a perda de um animal de estimação e a negociação de passagem com narcotraficantes mexicanos, e que será concluída em seu ponto de partida. Ao entrar no estádio de rodeios da Festa do Peão de Barretos na noite deste sábado (22), o engenheiro civil Pedro Henrique Biondo Matias, 32, o Pedro Berranteiro, selará o fim de uma jornada que ele afirma ver como um "renascimento". "Eu não estava me sentindo vivo. Viver é diferente de estar vivo", disse ele, que passou os últimos dias em Orindiúva, município paulista distante 122 quilômetros de Barretos, onde vive sua família. O berranteiro, que partiu em sua jornada montado em mulas em 28 de agosto de 2023, disse que foi feliz como engenheiro, mas chegou um momento, após sete anos na área, que a profissão deixou de fazer sentido, o que o motivou a buscar a aventura nas Américas. "Sabe quando você chega num lugar e observa tudo que está ao teu redor e aquilo que já não te faz feliz, não te pertence mais? Lembrei da vontade que eu tinha, que passava pela minha cabeça, de falar ‘pô, como é que seria se eu tivesse por exemplo nos Estados Unidos usando uma mula com a traia brasileira e tocando berrante’?", questionou. Por dois anos ele planejou a viagem e, principalmente, os obstáculos que poderia enfrentar na jornada. Concluiu que seria mais fácil se partisse dos Estados Unidos para o Brasil, até por conta de questões sanitárias dos animais –seria necessária uma quarentena no país norte-americano caso quisesse entrar com mulas brasileiras. Pegou sua Ford F-100 e iniciou a jornada passando pelos países, para ver as rotas, descobrir in loco como seria a passagem com animais nas fronteiras e, principalmente, conhecer pessoas pelo caminho que pudessem ajudá-lo a voltar ao Brasil. E, também, começar a gravar vídeos para monetizar, já que seria sua fonte de renda ao lado de auxílios que recebeu de patrocinadores e também de Os Independentes, associação que organiza a Festa do Peão de Barretos e que contribuiu com R$ 3.000 mensais. "Sabia que tinha muita chance de dar errado, talvez mais chance de dar errado do que certo, mas também sabia que era uma coisa que com muita fé ia acontecer." Ele estima que a aventura consumiu R$ 500 mil, valor alto para quem iniciou a jornada com R$ 20 mil. "Com esse dinheiro eu não conseguia atravessar da Colômbia para o Panamá, porque precisaria colocar a camionete dentro de um navio e só isso custaria R$ 15 mil", disse ele, que depois foi angariando patrocinadores e receita com os vídeos. Após chegar aos Estados Unidos, viajou por 35 estados, encontrou as duas mulas que desejava, fez amigos e conheceu sua namorada, Colleen Leddie, que está no Brasil. Em 7 de outubro de 2024, iniciou a viagem de volta. Visitou com suas mulas Brasil, Uruguai, Argentina, Chile, Peru, Equador, Colômbia, Panamá, Costa Rica, Nicarágua, Honduras, Guatemala, México, Estados Unidos e Canadá. Dormia onde era possível, às margens de estradas ou em casas de conhecidos, numa rota que teve como principal obstáculo o ingresso no México, segundo ele. "Tive que confiar num narcotraficante que me garantiu a proteção. Todo mundo falava que eu ia morrer, eu não acreditava. Mas quando os seus compatriotas de San Antonio, que é uma região dos Estados Unidos com muito mexicano, começaram a falar que realmente eu morreria, comecei a ficar preocupado. Falavam que iam matar meu cachorro, que iam me sequestrar por causa de rede social, que eu já tinha uma certa fama, que iam pedir dinheiro, resgate para família, não sei o quê mais. Eu fiquei doido." Até que, ao conhecer mexicanos ligados ao narcotráfico, recebeu a informação tranquilizadora de que não aconteceria nada. "Ele falou ‘Não, tranquilo, amigo, não vai te passar nada, eu conheço os homens aí, não vai te passar nada, são meus amigos.’ Eu falei ‘fala com eles lá, fala que eu não quero rolo com ninguém, eu só quero passar pelo território deles sem mexer com ninguém, não quero nada, não uso droga, não faço nada’." A passagem ocorreu sem intercorrências, apesar de "energia ruim", conforme o berranteiro. A viagem teve como suporte o acompanhamento de um veterinário, que estava na F-1000, e também do cão Bastião. Notícias do dia Receba diariamente de manhã no seu email as principais notícias publicadas na Folha; aberta para não assinantes. E agora, terminada a aventura? O berranteiro afirma que não pensa em voltar à engenharia nem em política. Escrever um livro e fazer um documentário estão em seus planos, além de afirmar ter o desejo de ser convidado para ir ao podcast Flow, que foi sua companhia em muitos momentos da viagem. "Agora vem essa questão, né? Já estou meio depressivo, cara. Muita dopamina no cérebro. Todo dia com esse negócio de viajar e ser bem recebido pelas pessoas. E, não é falta de humildade, mas eu fiquei famoso. Sinto falta disso, essas criancinhas que, sinceramente, às vezes acho que eu sou Ana Castela da versão masculina. É muita criança que gosta de mim, sabe? Vou sentir muita falta disso. A minha preocupação não era pagar conta no final do mês, era sobreviver o dia a dia, saber o que ia comer."
Pedro Berranteiro encerra em Barretos travessia de 10 mil km pelas Am�ricas
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