Pedreiro que fez a pr�pria defesa em tribunal come�a a estudar direito ap�s ganhar bolsa

Pedreiro que fez a pr�pria defesa em tribunal come�a a estudar direito ap�s ganhar bolsa

A rotina do pedreiro Edilson Takahara, 49, mudou desde a quinta-feira (3). Ele, que ficou conhecido por fazer a própria defesa diante dos desembargadores do Tribunal Regional do Trabalho da 11ª Região, em Manaus, começou a cursar direito após ganhar uma bolsa de estudos integral. "Tem que gostar de aprender", diz ele à Folha. Takahara fez a sustentação oral no dia 17 de agosto e foi elogiado pelos desembargadores da 2ª Turma do tribunal. Ele buscava o reconhecimento do vínculo de emprego com uma construtora. Após a repercussão do caso, o mestre de obras foi convidado a compartilhar sua experiência com estudantes do curso de direito da Famec, na capital amazonense, na última segunda-feira (31). Ao final do encontro, recebeu a proposta de cursar direito na instituição com uma bolsa integral. "Inicialmente, a minha ideia era não aceitar, porque eu não tinha pretensão de ingressar na carreira jurídica, com tanto advogado que já tem por aí", confessa Takahara. Ele, entretanto, mudou de ideia após ser alertado que o curso abre portas para outros caminhos além da advocacia. "Me falaram que você pode ser um delegado, um juiz, promotor. Resolvi aceitar", resume. As aulas ocorrem à noite e devem mudar a rotina como pedreiro. "Vou ter que trabalhar no máximo até as 14h, para pegar um ônibus, vir para casa, me preparar e ir para faculdade", explica. Apesar de aceitar o desafio, ele não pensa ainda em mudar de área. Pelo contrário, tem o desejo de implementar novas ideias na área da construção e entende que a experiência acadêmica pode construir essas pontes. "Tenho algumas ideias voltadas para área de construção que só não levei adiante até agora por falta de investimento", diz. "Só o fato de estar frequentando uma faculdade, centenas de pessoas te conhecem e é um campo aberto para continuar trabalhando normalmente, fazendo pequenas reformas e obras. Não vou sair da obra e pular para dentro de um escritório", completa. PROCESSO TRABALHISTA Takahara diz ter ficado surpreso com a repercussão de sua sustentação oral no TRT. Ele conta que decidiu assumir a própria defesa após o advogado de uma primeira ação perder prazos e o processo ser extinto. "Tive que me esforçar bastante. Não tive uma rotina de estudos. Fui descobrindo o que era necessário fazer e me preparando ao longo do processo", explica o pedreiro. Ele usou o jus postulandi, que é o direito de a própria pessoa atuar na Justiça do Trabalho sem precisar de advogado. A empresa alvo da ação só se manifestou nos autos após a primeira sentença, que reconheceu o vínculo empregatício entre setembro de 2023 e abril de 2024 e a condenou a pagar aviso prévio, 13º salário, férias e multa. "Aí a coisa começou a complicar para mim porque eu não tinha acesso ao sistema para ver o recurso que apresentaram", lembra Takahara. O pedreiro adquiriu computador e obteve certificado digital para acompanhar o andamento do processo. Para a sustentação oral, comprou roupa social e sapato. "Para mim, o mais difícil de tudo foi usar aquela roupa. Acho que poderia ir todo mundo de calça jeans e tênis, porque o que importa é a essência do que as pessoas estão ali discutindo." No início de sua sustentação na tribuna, ele disse que teve medo e vergonha de falar diante dos desembargadores. "Para mim, não é tão fácil, acho que todo mundo sabe disso. Porque tive que me esforçar para vencer essa barreira de criar coragem de vir até aqui, mesmo com todo mundo dizendo: 'Olha, não adianta, você não vai saber falar'. Então, me esforcei estudando o básico em relação à CLT, em relação ao meu caso", declarou na ocasião. O relator do processo, o juiz do Trabalho Sandro Nahmias Melo, elogiou o pedreiro. "Já digo ao senhor Takahara que, nesse tempo em que se aplicou ao estudo para vir fazer a sustentação, com certeza já pensou em mudar de profissão", brincou. "A lógica de argumentos acabou sendo melhor do que muitas sustentações que essa turma tem ouvido de doutos patronos", completou o juiz. O colegiado negou tanto o recurso da empresa quanto o do trabalhador, mantendo a decisão de primeiro grau. "Essa curiosidade que eu tenho, esse gosto por aprender, acho que pode influenciar as pessoas de uma maneira positiva", diz o mestre de obras à reportagem. "Você tem que se dedicar. É possível, eu provei para todo mundo que é." Ele acrescenta: "É um esforço, mas será que não vale a pena? Se eu tivesse olhado para a dificuldade e pensado 'deixa isso para lá' não teria conseguido nada do que já consegui."

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