A ação internacional que levou à prisão de dois membros do PCC (Primeiro Comando da Capital) na Bolívia, no mês passado, ilustra um movimento que vem ganhando espaço nos últimos anos: a influência da facção paulista no país vizinho, principalmente no tráfico de drogas. A avaliação é da Polícia Civil de São Paulo. Integrantes da polícia de Mato Grosso e do Ministério Público também confirmam a presença do grupo no país. Essa influência, conquistada ao longo de anos, vem sendo colocada à prova neste ano, segundo policiais, após a prisão de um importante aliado da facção na Bolívia. Para defender seu território, o PCC estaria contratando assassinos de aluguel, chamados de "sicários", para expulsar integrantes do Comando Vermelho. Estima-se que ao menos 15 pessoas tenham morrido dentro e fora da Bolívia desde abril na disputa entre as duas facções brasileiras. Em 22 de setembro, uma operação foi realizada para prender Roberto Prieto Filho, o Betinho da Baixada, brasileiro apontado como um dos líderes do PCC na Bolívia. De acordo com policiais paulistas, ele foi avisado que seria alvo da ação e tentou fugir, em um exemplo da rede de proteção que a facção tem no país. "O major da [polícia boliviana] pediu o mandado na terça-feira, 10h. Eles protocolaram o pedido de busca às 10h, às 11h ele [Betinho] foi avisado. Ele mesmo nos contou", disse o delegado Fábio Pinheiro, responsável pelo grupo de policiais civis que participou da prisão. Procurada por mensagem nesta sexta-feira (9), a defesa de Betinho não respondeu. Além dele, os policiais trouxeram ao Brasil uma outra pessoa também suspeita de integrar o PCC. Para Victor Hugo Caetano de Freitas, delegado da Polícia Civil de Mato Grosso, os integrantes do PCC não estão na Bolívia para se esconder. "Eles estão lá como peças-chave das organizações criminosas", afirma. Mais do que cuidar da logística do tráfico, explica Freitas, o PCC busca dominar a produção da pasta-base de cocaína para deixar de comprá-la de fornecedores bolivianos, como apontam investigações. Por esse motivo, ele diz, a facção tem enviado integrantes de sua cúpula ao país. Para o procurador do Ministério Público de São Paulo Marcio Sergio Christino, especialista em crime organizado, há outro motivo para a presença da cúpula do PCC na Bolívia: manter o dinheiro fora do alcance da Receita Federal brasileira. "Eu acredito, particularmente, que a grande massa de dinheiro que vem da venda da Europa fica lá mesmo na Bolívia. Porque lá eles vão ter controle. Lá eles podem fazer o que quiser. Não precisa trazer pra cá", afirma. Um promotor de Mato Grosso que estuda o caso afirma que diferentes alianças entre facções têm disputado espaço na Bolívia, mas nenhuma delas conquistou hegemonia no território. Segundo ele, o CV avança principalmente sobre pontos de venda de drogas e outras fontes de renda em cidades próximas à fronteira com Mato Grosso, como San Matías e San Ignacio. Enquanto isso, o PCC tem uma atuação voltada para o tráfico internacional, embora também disputa negócios locais. Segundo o promotor, essa disputa territorial está por trás de confrontos e mortes na região. A Folha procurou a Embaixada da Bolívia no Brasil na quinta (8) e na sexta por email e por telefone, mas não obteve resposta. No consulado em São Paulo, funcionários disseram que somente integrantes da embaixada poderiam atender à reportagem. Disputa após a prisão de Marset A disputa por territórios na Bolívia se intensificou em março, após a prisão do narcotraficante uruguaio Sebastián Enrique Marset Cabrera, 34, conhecido como Marset. As duas facções disputam o controle de uma coalizão de grupos criminosos envolvida no fornecimento de coca, na operação de laboratórios de pasta-base de cocaína, nas rotas do tráfico de drogas e armas e em esquemas de lavagem de dinheiro. Segundo policiais e especialistas, Marset administrava essa rede criminosa, e sua prisão deixou um vácuo de poder que motiva assassinatos há meses dos dois lados da fronteira. "O PCC é a maior organização [criminosa] que há na Bolívia", afirma o coronel boliviano da reserva Jorge Santisteban, especialista em segurança. "É ele que está liderando, justamente agora, tudo o que diz respeito ao controle do narcotráfico na Bolívia, acima dos demais." Segundo Santisteban, a facção paulista opera hoje em aliança com grupos criminosos paraguaios e uruguaios. Essa coalizão inclui também mexicanos, colombianos e brasileiros dissidentes do CV que estão na Bolívia. Ele estima que o PCC tenha de 250 a 280 integrantes no país. O coronel afirma que, embora a presença do CV seja minoritária, a facção carioca tem enfrentado integrantes do rival paulista em solo boliviano para conquistar territórios e disputar o domínio da coalizão criminosa. A onda de violência, segundo o coronel, envolve pequenos grupos criminosos que se fragmentam em meio à disputa territorial. "Hoje buscam deter tanto o controle da organização quanto o controle territorial. Assim, aqueles que não obedecem estão sendo perseguidos e entram em confronto", disse. O PCC é a maior organização [criminosa] que há na Bolívia. É ele que está liderando, justamente agora, tudo o que diz respeito ao controle do narcotráfico na Bolívia, acima dos demais Investigações da polícia boliviana apontam que Marset operava sob a proteção de integrantes do poder público. A suspeita chegou à cúpula do Ministério Público do país: Róger Mariaca, então procurador-geral, foi preso em 30 de setembro, dois dias após os Estados Unidos o acusarem de receber propinas para facilitar o tráfico. Ele negou a acusação e teve a prisão preventiva decretada enquanto é investigado por suspeita de tráfico de drogas e participação em organização criminosa. Segundo reportagem do jornal boliviano El Deber, Mariaca é suspeito de proteger a rede de Marset e de ter contribuído para sua fuga de uma operação policial em 2023. A investigação apura possíveis vazamentos de informações e pagamentos por proteção. Noticias de Brasil Reciba un resumen de las noticias más importantes del día publicadas por Folha. Também segundo o El Deber, Marset admitiu em depoimento que o PCC fornecia de 80% a 90% das armas que ele adquiria. O traficante uruguaio já posou ao lado de uma bandeira com inscrições do PCC e de homens encapuzados e armados, em uma imagem que circulou nas redes sociais e chegou às autoridades policiais. Marset, que já havia escapado de uma operação para prendê-lo na Bolívia, foi extraditado para os Estados Unidos. Ele responde a acusações de lavagem de dinheiro em um tribunal federal no estado da Virgínia. A reportagem não conseguiu identificar sua defesa. As prisões dos dois brasileiros no fim de setembro em Santa Cruz de la Sierra são vistas pelos especialistas como episódios que pouco devem alterar a estrutura de comando do PCC na Bolívia. Segundo eles, a organização da facção e a quantidade de integrantes permitem que os presos sejam rapidamente substituídos na hierarquia local.
PCC busca manter influ�ncia na Bol�via em meio a confrontos com Comando Vermelho
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