Pauta das armas n�o pode ficar fora da vitrine

Pauta das armas n�o pode ficar fora da vitrine

Em 28 de outubro de 2025, durante a Operação Contenção nos complexos da Penha e do Alemão, no Rio de Janeiro, o Comando Vermelho sustentou 14 horas de tiroteio contra milhares de policiais. Para isso, precisou de muita munição. A pesquisa recém-lançada "De onde vem o tiro?", do Instituto Sou da Paz, analisou 31.699 cartuchos de fuzil apreendidos com a facção entre 2018 e 2025 e encontrou um dado incômodo: 40,9% eram de fabricação brasileira. Pouco mais da metade desses cartuchos nacionais trazia códigos de rastreabilidade de compras institucionais, ou seja, adquiridos por Forças Armadas ou polícias e, em algum momento, saiu do controle do Estado. Esse é o pano de fundo com que olhamos para o segundo turno das eleições. A segurança pública está entre os temas que podem decidir a eleição e o acesso a armas e munições é uma das decisões de governo com maior impacto sobre a violência no país. No plano de governo registrado por Flávio Bolsonaro (PL), o tema aparece de forma limitada, associado apenas à retirada de fuzis das facções. Em agosto, porém, veio a público que o candidato e sua equipe trabalham em um plano para revogar o Estatuto do Desarmamento. A proposta circula entre apoiadores e parlamentares aliados, mas não está no programa nem nos palanques. Sabemos o que acontece quando o mercado legal se expande sem fiscalização à altura. Depois da flexibilização adotada entre 2019 e 2022, o país chegou a 2025 com mais de 5,4 milhões de armas em posse de civis, 1,7 milhão delas com registro vencido, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública.No caso das munições do Comando Vermelho, 39,9% dos cartuchos com data identificada haviam sido fabricados até dois anos antes da apreensão. A pesquisa não permite apontar uma única origem para esses desvios, mas deixa claro que, quanto mais pontos de venda e de estoque existem, mais portas se abrem para o crime. Prometer tirar fuzis das facções e, ao mesmo tempo, ampliar a oferta que acaba chegando a elas é, no mínimo, incoerente. O efeito também chega às casas. Em 2024, 3.642 mulheres foram assassinadas no Brasil, 47% delas com arma de fogo. Tornozeleiras para agressores e cumprimento integral de pena para feminicídios, propostas que constam do plano de Flávio, atuam depois do crime. O plano de Lula explicita o compromisso de manter a política de controle de armas e munições, aprimorar a rastreabilidade e fortalecer a fiscalização da Polícia Federal e do Exército sobre empresas de segurança privada e registros de CACs (colecionadores, atiradores desportivos e caçadores). É um compromisso escrito que pode ser cobrado, mas que ainda precisa de metas e recursos. Até o próximo domingo (25), a imprensa, as organizações da sociedade civil e os eleitores têm o direito de fazer a Flávio Bolsonaro perguntas que seu plano não responde. O candidato pretende revogar o Estatuto do Desarmamento? Quem poderá comprar e portar armas e em qual quantidade? Escolher um presidente não deveria ser escolher quem promete ser mais duro e sim quem apresenta a política mais clara, financiável, constitucional e mensurável para reduzir a violência. Uma mudança desse tamanho na lei de armas precisa ser apresentada no plano de governo, nos debates e no horário eleitoral, para todos os eleitores, e não apenas para quem já concorda com ela. TENDÊNCIAS / DEBATES Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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