'Papaya' tem algo de comovente e transita entre adultos e crian�as

'Papaya' tem algo de comovente e transita entre adultos e crian�as

No início, "Papaya" parece se propor como fábula infantil a respeito de uma pequena semente que se recusa a receber raízes, ser fixada na terra, transformar-se em planta ou árvore. Talvez o público infantil tenha alguma dificuldade para aderir não tanto à trama, mas, antes de tudo, ao fato de este ser um filme de animação com menos movimento e variedade de cenas do que as animações mais comerciais. Existe também o fato de que, sobretudo no início, as cores sejam suaves, talvez até um pouco desbotadas. Isso não tem lá muita importância, porque logo perceberemos que a fábula se dirige mais a um público adulto. Temos então a pequena semente que se aventura pelo mundo, rolando, enfrentando as variações do tempo, as traições da própria natureza, representada sobretudo pelo clima, chuvas e tal, mas também por outros animais e todos os perigos que se possa imaginar pelos quais passa uma semente e como consegue se manter em vida. Malgrado seus esforços, ou talvez por causa deles, a semente acaba se deparando com a cultura, com os homens, e outra série de adversidades vai surgir em sua frágil existência. Assim, as belas cachoeiras que existiam no ambiente natural começam a se transformar em riachos miseráveis. Nossa futura papaia é levada de cá para lá, às vezes pelo vento, às vezes por algum pássaro que pega uma folha em seu bico. À medida que se aproxima da cidade, ou das indústrias, onde antigas sementes são embaladas, desnaturadas e enviadas para consumo, nossa amiga vai vivendo novas e nem sempre agradáveis experiências. "Papaya" encontra uma maneira interessante de, por meio desse imaginário, lançar a questão do meio ambiente. E diga-se que Priscilla Kellen, a quem se deve a concepção e a direção do filme, evita discursos em favor da ecologia: as imagens bastam-lhe. Ao longo da trama, o encontro da nossa protagonista com a cultura se torna mais atroz —o que significa contato com esgotos, indústrias, estradas, asfalto, e, no entanto, representa um segundo nascimento para a pequena semente. Pode-se pensar que existe algo de feminino na fabulação, na medida em que a semente contém as ideias de nascimento e reprodução. De vida, em resumo. E isso se traduz por uma explosão de imagens psicodélicas, digamos assim —sim, elas remetem à velha palavra do tempo dos hippies—, em que tudo parece renascer na natureza, em que natureza e cultura tendem a se encontrar em conciliação. "Papaya" é um filme que, graças aos traços e cores delicadas com que trabalha a autora, talvez interesse visualmente mais a adultos do que a crianças. Mas o périplo da pequena semente, sua luta por liberdade e sobrevivência, tem algo de comovente que pode muito bem transitar entre duas ou mais gerações e facilitar a circulação de ideias ligadas à sobrevivência não só das sementes como também dos viventes em geral.

Original Source

Read the full article at Www1 →

KhanList aggregates and links to publicly available news content. We do not host full articles from third-party sources. Always verify important information with original sources.