Panorama foge � figura��o com formas monstruosas e volta a investigar a mat�ria

Panorama foge � figura��o com formas monstruosas e volta a investigar a mat�ria

Do lado de fora do MAM, o Museu de Arte Moderna de São Paulo, uma escultura metálica, com pernas finas e longas, como se fossem de um aracnídeo enorme ou raízes de um manguezal, separa, junto da parede de vidro, a instituição e o parque Ibirapuera, na capital paulista. Sobre essa estrutura, feita de um aglomerado de pedacinhos de aço inox, de aparência quebradiça e frágil, uma geleca amarela se descortina rumo ao chão, criando um véu fino de tecido gosmento. A gororoba, criação do artista carioca Iagor Peres, batizada de "pelematerial", parte de uma receita secreta, que nem ele documentou por escrito, e se transforma, devagar e sempre, puxada pela gravidade e afetada pela luz e pela passagem do tempo. É matéria viva. A obra dá o tom do que a curadora baiana Diane Lima juntou no 39º Panorama da Arte Brasileira, que abre neste sábado (12), numa exposição que marca a reabertura do museu, fechado para reformas desde agosto de 2024. É a segunda vez que o Panorama coincide com uma inauguração do MAM. A primeira edição da mostra, em 1969, marcou a estreia do prédio no parque Ibirapuera. À época, a mostra incluiu cem artistas, dentre eles Roberto Burle Marx, Flavio de Carvalho, Mira Schendel, Anna Bella Geiger, Rubem Valentim e Tomie Ohtake. A pintura, a gravura e o desenho dominavam. MAM de São Paulo reabre com espaços renovados e comunicação visual atual Mais de meio século depois, o 39º Panorama tem uma cara bem diferente. Com menos pinturas, a mostra é marcada por instalações e esculturas ambiciosas, guiadas por uma abstração que a curadora define como formas "oceânicas, porosas e monstruosas". A mostra se distancia, ainda, da edição de dois anos atrás, marcada por imagens violentas de um Brasil em chamas. Agora, o país que Lima busca retratar parece mirar um espelho distorcido em busca de futuros ainda não materializados. Na sala envidraçada que um dia abrigou uma das aranhas gigantescas de Louise Bourgeois, uma nova forma se instala. Suspensa por cabos de aço, uma estrutura metálica coberta por pequenos retalhos amarrados faz uma espiral gigante que ocupa todo o espaço. No meio desse redemoinho, pernas finas, como a da aranha que um dia esteve ali, conectam a escultura ao solo. Na instalação "Um Dia Vou Voltar", comissionada para o Panorama, Jota Mombaça mergulhou mais de 200 metros de tecido em pontos de Natal, no Rio Grande do Norte. Depois de quatro semanas afundados, esses tecidos foram secos e enviados para São Paulo, onde foram dispostos na estrutura metálica. Assim como Soares, ela abre mão do controle total e deixa que forças externas participem do trabalho. Dentre elas estão as formas alienígenas de Darks Miranda, artista cearense. Num dos cantos do MAM, há uma duna de areia fofa acumulada na quina das paredes de vidro. Algumas peças de cerâmica coloridas cintilam no mar de marrom-claro. São formas que lembram ovos enormes, como se tivessem sido botados por uma criatura da megafauna ou por alienígenas. Aconchegados na areia, parecem um achado arqueológico num cenário de filme de ficção científica. É como se esses ovos coloridos, estranhos a tudo que conhecemos, anunciassem um futuro porvir. O que pode nascer dali, não se sabe. Para Diane Lima, apontar para esse futuro é a função exata de uma mostra como o Panorama. "É uma exposição que está aqui para desafiar, dialogar, criar fricções, abraçar, acolher, pontuar, convidar o público para refletir", diz a curadora. É um Brasil diante do espelho —ideia materializada na expografia do estúdio Vão. Os arquitetos organizaram as paredes modulares do museu numa espécie de escada, coberta em partes por uma superfície reflexiva fosca. O Panorama é uma das principais mostras de arte brasileira, atrás apenas da Bienal de São Paulo, uma das mais importantes do circuito mundial. Maior que a paulistana, só a de Veneza. São três megaexposições que Lima incluiu no currículo recentemente. Neste ano, ela encabeçou a curadoria da Bienal de Veneza e levou Adriana Varejão e Rosana Paulino ao pavilhão brasileiro. Antes, em 2023, integrou o quarteto de curadores da 35ª Bienal de São Paulo, ao lado de Grada Kilomba, Manuel Borja-Villel e Hélio Menezes, que foi diretor artístico do Museu Afro Brasil. Lima afirma que, naquele momento, a mostra se ocupou de "fazer o básico" em termos de validação institucional de certos artistas negros, escanteados pela história da arte brasileira. A curadora cita o caso de Paulino, que, até 2023, nunca havia exposto sua obra na bienal paulistana. No mesmo espírito, a baiana dá uma nova cara ao Panorama. Na primeira edição, os artistas eram majoritariamente brancos e organizados no eixo Rio-São Paulo. Agora, entre os 30 artistas da exposição, 12 são do Nordeste e outros nove se distribuem entre Norte, Centro-Oeste e Sul. Com negros, indígenas e amarelos, a maior parte dos selecionados não é branca. Lima vê a exposição como um indício dos caminhos que a arte brasileira toma depois de uma profunda crise de representação vivida na virada do século. Houve ali o que a curadora vê como uma "virada epistemológica", em que pressões de movimentos sociais chegaram às políticas públicas na forma de cotas raciais em universidades e da lei que tornou obrigatório o ensino de cultura e história afro-brasileira e africana nas escolas. Se aquela Bienal de São Paulo foi um princípio de prestação de contas da arte brasileira, o Panorama dá outro passo. São artistas, em grande parte, jovens, muitos deles reflexo dessas políticas afirmativas que Lima indica como ponto de virada. Vinte e seis anos se passaram desde o ano que Lima sinaliza como divisor de águas. Junto com a mudança de cara de quem expõe no Panorama, veio uma mudança do que está sendo exposto nesta edição. Ela se guia por um olhar que qualifica como "mais cuidadoso" para o Brasil. Cuidadoso, ela diz, por não recair em estereótipos —nem impostos de fora, nem nacionalistas. "Não é o Brasil da antropofagia e do Carnaval. Não é um Brasil dos estereótipos do Brasil, mas molecular, da terra e da sua arqueologia." Os artistas selecionados têm em comum a preocupação profunda com a matéria. Carolina Cordeiro, em sua obra "O Tempo É", mostra vários espelhos feitos à mão —técnica quase extinta— misturados ao zinco perfurado. As peças, que formam ângulos de 90 graus, descem de fios transparentes instalados no teto e repousam flutuantes em diferentes alturas. O zinco, substância de bastidores na arquitetura moderna brasileira, ganha o palco principal. Para Lima, existe nesse processo uma tentativa de romper com a subalternização de certas práticas, classificadas como artesanais ou "arte popular". A curadora vê nesse tipo de categorização uma perpetuação de certas violências. Ela quer desafiar a ideia de que artistas negros têm que produzir apenas obras "que performam literalidade, figuratividade, ou façam algum tipo de menção objetiva e direta diante do que a gente conhece, ou imagina, que é arte afro-brasileira". É um incômodo que permeia a obra de Iagor Peres, da "pelematerial". Para ele, a maior marca da branquitude é o desejo de conservar as coisas como elas estão. Sua massa viscosa, imprevisível e ingovernável, mesmo por seu criador, seria um desafio a essa ânsia pela permanência. Postas sobre estruturas soldadas de inox, elas coroam e interagem com um esqueleto que parece frágil, mesmo feito de matéria tão resistente. A mostra se ocupa dessas imagens disformes, que traduzam a construção de um futuro ainda misterioso. Mas há espaço para a crítica direta e explícita a figuras que os artistas colocam como monstros do presente. É o caso da obra de Bárbara Banida, que pendura numa corrente uma máscara emulando o presidente americano Donald Trump, com marcas de sangue e machucados. Ao lado, pregada na parede, uma escultura processa elementos desse rosto, que se unem numa massaroca disforme, com bocas esticadas, narizes retorcidos e olhos por toda parte. A obra exibida no Panorama desviou um tanto da ideia original, que incluía uma performance em vídeo, mais direta e explícita em suas críticas. Diane Lima avaliou até os riscos jurídicos envolvidos em expor a performance no MAM e optou por não exibi-la em sua concepção original. O momento talvez fosse sensível demais, avalia Lima. Juntou-se à escalada de tensões nas relações entre Brasil e Estados Unidos —e o fato de o país estar a poucos meses de uma eleição presidencial acirrada— ao holofote que a reabertura do MAM jogaria sobre o trabalho. A ideia, diz Lima, é não expor ninguém ao risco, seja a instituição, seus funcionários ou a artista. Para ela, é um tipo de cuidado que imprime uma visão até feminista às dinâmicas do mundo das artes. E ela não se esquiva de dizer que mudou de rumo e que temia retaliações. "O modo como as obras de arte são apropriadas para criar discursos extremistas, para criar discursos de ódio e de violência, não me pertence", diz. "É importante dizer que a gente está consciente de que não pode fazer algumas coisas por medo, pela iminência desse risco." Todo cuidado é pouco.

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