Oportunismo de Fl�vio se une ao de Lula contra a 6x1

Oportunismo de Fl�vio se une ao de Lula contra a 6x1

A proposta de emenda constitucional que elimina a escala de trabalho 6x1 foi aprovada pelo Senado com votação acachapante de 75 votos favoráveis e apenas um contrário. O placar, no entanto, está longe de espelhar um consenso político em torno da medida. O que sobrou no plenário foi oportunismo eleitoreiro —e ao do governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT), patrocinador da PEC no último ano do mandato presidencial, somou-se o da oposição temerosa de perder apoios, a começar por Flávio Bolsonaro (PL). Até há pouco um crítico da proposta, o candidato ao Planalto e senador pelo Rio ajudou com seu voto pela internet a derrubar a escala de seis dias de trabalho e a jornada de 44 horas semanais. Não é segredo que seu partido —que ampliou consideravelmente sua bancada no Congresso no pleito deste ano— articula um projeto alternativo, que permitiria uma jornada flexível baseada em horas trabalhadas. A PEC aprovada sem dúvida tem apelo popular, e por boas razões. Segundo o Datafolha apurou em março, 71% dos brasileiros aptos a votar a apoiavam, ante 27% contrários. A aspiração por mais tempo livre e qualidade de vida é obviamente legítima, mas os parlamentares se eximiram da tarefa de examinar a fundo a viabilidade e os custos da medida. Estudos indicam que os impactos podem ser absorvidos pela economia, mas ainda assim deve haver perdas para o crescimento e pressões sobre a inflação, além de riscos de informalidade. Alguns setores, incluindo comércio e construção civil, tendem a sofrer bem mais que outros. A propaganda governista da proposta —que até então nunca fizera parte da agenda do PT— conseguiu acuar uma oposição de direita carente de conteúdo programático. Flávio Bolsonaro, que também já mudou de opinião sobre o Bolsa Família e o Farmácia Popular, chega à reta final da corrida presidencial sem quase nada revelar de seus planos e convicções sobre temas centrais. Seus auxiliares econômicos acenam com um ajuste fiscal vigoroso, mas ele desautoriza ideias que afetem as grandes despesas, como benefícios sociais, saúde e educação, além de prometer a redução de impostos. As contas não fecham em nenhuma matemática conhecida. Uma das funções de uma campanha eleitoral é estabelecer compromissos entre o candidato e os eleitores, de modo que a concessão do mandato não se torne uma aposta no escuro. Nesse quesito, a atual campanha foi bastante prejudicada pela combinação de polarização exacerbada, escândalo do Banco Master, crise no Supremo Tribunal Federal (STF), ausência de debates e medidas eleitoreiras em série. Em qualquer desfecho da disputa, é incerto o futuro não apenas da jornada de trabalho como das demais benesses distribuídas nos últimos meses, semanas e dias. Além da incógnita política, haverá uma crise orçamentária agravada a enfrentar. editoriais@grupofolha.com.br

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