A alta dos rendimentos dos títulos públicos é uma "grande preocupação" para as finanças dos países, diante do aumento da parcela dos gastos destinada ao pagamento de juros da dívida, afirmou a OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) nesta quarta-feira (23). A entidade também pediu aos governos que contenham as despesas. Stefano Scarpetta, economista-chefe da OCDE, afirmou que uma das razões para o aumento dos custos de financiamento dos governos é a preocupação com a sustentabilidade das contas públicas. A organização sediada em Paris alertou para desafios fiscais "cada vez mais urgentes" que afetam muitos de seus países-membros. Em seu relatório de perspectivas econômicas, a OCDE destacou o número crescente de intervenções dos governos para reduzir o custo da energia para consumidores e empresas. Apenas metade dessas medidas, porém, era devidamente direcionada, segundo a entidade, o que aumentava a pressão sobre as contas públicas. O rendimento médio dos títulos de referência de dez anos dos países do G7 atingiu 4% neste ano pela primeira vez desde 2008. A guerra dos Estados Unidos com o Irã e a consequente alta dos preços da energia alimentaram uma onda de vendas de títulos, refletindo a preocupação dos investidores com o aumento da inflação. A combinação de custos de financiamento mais altos e emissão recorde de títulos pelos governos dos países ricos impulsionou o aumento das despesas com o serviço da dívida, o que preocupa autoridades econômicas. "O aumento dos rendimentos dos títulos é uma grande preocupação", disse Scarpetta em entrevista ao Financial Times. Ele acrescentou que as relações entre dívida e PIB vêm aumentando "como uma escada" desde a crise financeira, à medida que sucessivos choques atingiram a economia global. "O custo do serviço da dívida vai aumentar em um momento em que as relações entre dívida e PIB estão em níveis muito elevados."Em seu relatório, a OCDE afirmou que serão necessários "esforços maiores" dos governos para "conter e realocar" gastos, além de melhorar a eficiência do setor público. O objetivo é garantir a "sustentabilidade da dívida no longo prazo" e permitir que os formuladores de políticas respondam a choques futuros. A dívida global de famílias, empresas e governos subiu para um novo recorde, pouco acima de US$ 365 trilhões (R$ 1,87 quatrilhão), no primeiro semestre de 2026, segundo relatório divulgado nesta quarta pelo IIF (Instituto de Finanças Internacionais). Desse total, pouco mais de US$ 110 trilhões (R$ 564,4 trilhões) correspondiam aos governos. O estoque total de dívida havia sido de US$ 347 trilhões (R$ 1,78 quatrilhão) um ano antes. Quando medida como proporção da produção econômica mundial, a dívida caiu em relação ao pico registrado durante a pandemia, principalmente devido à inflação mais elevada, afirmou o instituto. Mas esse resultado cria uma "imagem enganosamente benigna" que esconde uma alta muito mais acentuada dos custos do serviço da dívida, segundo o relatório. No último ano, as economias avançadas pagaram mais de US$ 3,5 trilhões (R$ 17,96 trilhões) em juros sobre títulos negociados internacionalmente, acrescentou o IIF. O valor supera as estimativas de gastos globais com inteligência artificial, de US$ 2,6 trilhões (R$ 13,3 trilhões), defesa, de US$ 3,1 trilhões (R$ 15,9 trilhões), e energia, de US$ 3,4 trilhões (R$ 17,4 trilhões). Diante dos custos elevados de financiamento, os países estão recorrendo cada vez mais a títulos de curto prazo, que normalmente têm rendimentos menores do que os papéis de longo prazo.Os Estados Unidos devem emitir até US$ 1 trilhão (R$ 5,13 trilhões) em títulos do Tesouro de curto prazo —com vencimento em 12 meses ou menos— no próximo ano, sem considerar os recursos levantados para quitar dívidas que estão vencendo. Essa estratégia, porém, aumenta a sensibilidade dos custos da dívida à alta dos juros, já que rendimentos elevados no mercado são repassados mais rapidamente para as despesas com juros. Uma das alternativas para reduzir a pressão da dívida é um crescimento econômico maior. A OCDE afirmou que os investimentos relacionados à inteligência artificial e o comércio estão ajudando atualmente a economia mundial a enfrentar o choque causado pelo petróleo no Golfo Pérsico melhor do que o esperado. A organização acrescentou que as economias do G20 crescerão 3,1% neste ano, 0,1 ponto percentual acima da previsão feita em junho. A expansão deve continuar em ritmo semelhante, de 3%, em 2027. O crescimento do PIB será liderado por uma expansão maior do que a esperada nos Estados Unidos, cuja economia deve crescer 2,2% neste ano e 2,1% em 2027, impulsionada pelo boom na construção de data centers.A OCDE afirmou que o crescimento do PIB de países como China, Coreia do Sul e Japão está sendo impulsionado pelas exportações de tecnologia, enquanto a economia global também é sustentada pelos estoques robustos de petróleo. Analistas, porém, alertam para um impacto crescente sobre a produção global, com o petróleo Brent próximo de US$ 100 (R$ 513,08) por barril e sem perspectiva de fim para as hostilidades entre Estados Unidos e Irã. A inflação nos países do G20 deve subir para 4,1% em 2026, ante 3,4% no ano passado, segundo as projeções da OCDE. A organização prevê alta de 3,6% dos preços em 2027, aumento de 0,5 ponto percentual em relação à previsão anterior. Mais da metade dos países do G20 tem atualmente uma inflação acima da meta estabelecida por seus bancos centrais, acrescentou a organização.
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