O Brasil atingiu recordes favoráveis no mercado de trabalho, com mais de 103 milhões de pessoas ocupadas e taxa em torno de 59%, a maior da série do IBGE iniciada em 2012. Mas, a despeito do aumento do emprego, a participação das vagas formais no total ainda deixa a desejar. O debate público costuma tratar emprego e formalização como fenômenos quase equivalentes. Não são. Quando se consideram os empregados no setor privado, exclusive domésticos, a proporção dos com carteira assinada —basicamente, celetistas— sobre o conjunto dos ocupados caiu de 40,3%, em 2014, para 38,5% no ano passado. Já a fatia dos sem carteira subiu de 11,4% para 13,2% nas mesmas bases de comparação. É verdade que, quando se levam em conta também os funcionários públicos, os domésticos e os autônomos, a informalidade total no mercado caiu no período, situando-se hoje na casa de ainda muito elevados 37%. Mas os números do setor empresarial são particularmente relevantes. A formalidade está associada a maior produtividade, acesso ao crédito, treinamento contínuo, contribuição previdenciária e proteção social. Quando o emprego cresce sem que a formalização acompanhe o movimento, parte dos ganhos econômicos de longo prazo deixa de aparecer. Há ainda um efeito menos discutido: a mobilidade social. A formalidade não garante prosperidade, porém contribui para uma trajetória mais previsível de crescimento profissional. É por meio dela que muitos trabalhadores ampliam sua capacidade de investimento em educação e formação de patrimônio. Quando a proporção dos empregados sem carteira assinada é elevada, essas pontes para a ascensão se tornam mais frágeis. Deve-se reconhecer que o mercado de trabalho mudou. Profissionais autônomos, microempreendedores e trabalhadores de plataformas digitais frequentemente valorizam flexibilidade e autonomia. Em muitos casos, suas rendas podem superar as de empregos tradicionais. Tratar toda informalidade como sinônimo de precariedade, portanto, seria ignorar transformações relevantes da economia. Mesmo admitindo isso, os dados indicam que parte importante dos empregos criados surgiu em modalidades com menor proteção social e menor integração aos mecanismos tradicionais de produtividade. O sucesso não deveria ser medido apenas pela quantidade de pessoas trabalhando mas também pela qualidade econômica dessas vagas. editoriais@grupofolha.com.br
O que o baixo desemprego esconde
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