Durante boa parte dos governos do PT, uma história muito contada foi a da queda da desigualdade. Os números da PNAD pareciam dar razão a essa leitura. O Gini caiu, a renda dos mais pobres cresceu e milhões de brasileiros avançaram alguns degraus na distribuição de renda. Essa história está longe de ser falsa. Só que ela precisa de uma grande nota de rodapé. Pesquisas domiciliares como a PNAD são muito boas para entender o que acontece com a maior parte da população, mas são menos eficientes para enxergar os brasileiros que estão bem no alto da pirâmide. Os muito ricos são poucos e possuem uma composição de renda que vai muito além do salário recebido no fim do mês. E aqui entram os dados tributários. Estudos que combinam pesquisas domiciliares com informações do Imposto de Renda encontram um Brasil mais desigual e, sobretudo, uma desigualdade muito persistente. Em outras palavras, uma parte importante da queda da desigualdade captada pela PNAD ocorreu abaixo do topo. Entre trabalhadores, pobres e parte da classe média, houve uma transformação. O mercado de trabalho ficou menos desigual. O salário mínimo aumentou em termos reais e transferências de renda foram ampliadas. A renda dos brasileiros na parte inferior da distribuição cresceu. O país ficou menos desigual dentro dessa parcela da população. Porém, o desafio continuou em alguns andares acima. Entre os muito ricos, eventuais salários são apenas uma parte dos rendimentos. Lucros, dividendos e diferentes formas de rendimento do capital têm um peso maior. Essas fontes de renda foram muito menos atingidas pelo esforço redistributivo dos governos petistas. Daí surge algo interessante. É relativamente fácil construir um Estado que transfere, através da ampliação dos gastos públicos, alguns milhares de reais por ano para famílias mais desfavorecidas enquanto deixa quase intacta a maneira como milhões de reais chegam aos mais ricos. As duas políticas podem coexistir perfeitamente. E coexistiram. Por isso, parece mais adequado dizer que os governos do PT praticaram uma redistribuição pela base e muito menos pelo topo. Essa estratégia tem suas vantagens políticas. Mexer na tributação dos brasileiros com renda e patrimônio muito altos significa enfrentar grupos com maior capacidade de organização. Redistribuir sem incomodar demais o topo é uma coalizão política mais fácil de sustentar. Além disso, durante algum tempo, havia espaço econômico para isso. O crescimento da economia e o boom das commodities permitiram que a renda dos mais pobres avançasse sem exigir uma redução equivalente da participação dos mais ricos. Também houve uma forte expansão do endividamento e a manutenção de juros elevados. Juros altos favorecem justamente aqueles que já acumularam patrimônio no passado, permitindo que ampliem seu capital com pouco risco. Por outro lado, reduzem o incentivo ao investimento produtivo, com consequências negativas no crescimento econômico. Nesse contexto, o bolo até cresceu e os mais pobres e a classe média receberam seus pedacinhos. Enquanto isso, os convidados sentados na cabeceira continuaram muito bem servidos. O texto desta coluna representa a continuação da série baseada no meu novo livro, "Os Custos das Desigualdades: uma carta às elites", e uma homenagem à música "Vida Boa", da banda Eddie. Colunas Receba no seu email uma seleção de colunas da Folha LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
O PT reduziu a desigualdade?
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