O planejamento financeiro da fam�lia fica de p� sem a renda do c�njuge?

O planejamento financeiro da fam�lia fica de p� sem a renda do c�njuge?

Imagine uma pequena ponte cuja estrutura dependa de dois pilares principais. Enquanto os dois permanecem firmes, carros passam diariamente sem que ninguém pense muito sobre a estrutura. Agora imagine que uma cheia do rio derrube um deles. A pergunta deixa de ser se a ponte parecia segura e passa a ser outra: ela continua de pé sem um dos pilares que a sustentavam? O planejamento financeiro de muitas famílias funciona de forma parecida. As contas fecham, os investimentos crescem, os objetivos parecem possíveis e a aposentadoria está no horizonte, mas quase tudo foi calculado supondo que as duas rendas continuarão existindo. Por exemplo, considere um casal em que um recebe R$ 20 mil líquidos por mês e o outro, R$ 10 mil. A família gasta R$ 24 mil e poupa R$ 6 mil. Há dois filhos pequenos, um imóvel financiado e R$ 500 mil investidos. Enquanto as duas rendas existem, o planejamento parece confortável: entram R$ 30 mil, saem R$ 24 mil e ainda sobram R$ 6 mil para construir o futuro. Agora derrube um dos pilares. Se desaparecerem os R$ 10 mil, restam R$ 20 mil para sustentar despesas de R$ 24 mil. A família passa a ter um déficit de R$ 4 mil por mês antes mesmo de pensar em continuar poupando. E o problema não é apenas esse déficit: Os R$ 6 mil que antes construíam a aposentadoria também deixaram de existir. O presente fica deficitário e o futuro deixa de ser financiado. E se desaparecerem os R$ 20 mil? Nesse caso, restariam apenas R$ 10 mil de renda. Mantidas as despesas atuais, faltariam R$ 14 mil mensais, ou R$ 168 mil por ano. Talvez você argumente que, se uma pessoa faltar, as despesas da família também diminuirão. É provável. Mas essa redução dificilmente será proporcional à renda perdida. A prestação do imóvel, o condomínio, a escola dos filhos, boa parte das contas da casa e muitas outras despesas continuarão existindo. Em algumas situações, novos gastos podem até surgir, por exemplo, se a queda de receita for por uma doença grave. Por isso, a conta mais importante não é simplesmente quanto a pessoa ganhava. É quanto a família continuará gastando, quanto continuará recebendo e qual será a diferença entre esses dois números. Salário mede quanto alguém recebe. Não necessariamente mede quanto sua ausência custaria à família. Esse ponto fica ainda mais evidente quando pensamos no cônjuge que ganha menos ou mesmo em quem não possui renda. Se essa pessoa é responsável por boa parte da rotina dos filhos, leva à escola, acompanha consultas e assume tarefas que permitem ao outro trabalhar, sua ausência também possui um custo econômico. E nem toda perda de renda é igual: Ela pode durar alguns meses, como em um desemprego ou afastamento, prolongar-se por uma incapacidade ou tornar-se definitiva. Em cada situação, a necessidade financeira será diferente. Colunas Receba no seu email uma seleção de colunas da Folha As ferramentas para enfrentar cada uma dessas situações são diferentes. Reserva financeira, patrimônio acumulado e seguros podem cumprir papéis distintos. O importante é não começar pela ferramenta, mas pela necessidade. Também existe uma diferença importante entre patrimônio e capacidade de gerar renda. Um casal pode dizer que possui R$ 3 milhões e se considerar protegido. Mas, se R$ 2 milhões estão no imóvel onde mora e outra parte está em ativos pouco líquidos, o valor efetivamente disponível para sustentar a família pode ser muito menor. Patrimônio protege a família apenas na medida em que consegue se transformar em renda quando ela precisa. As dívidas também fazem parte desse teste. Se há obrigações, a perda de renda não faz, necessariamente, com que as prestações desapareçam. Em alguns casos, justamente quando a capacidade de pagamento cai, os compromissos continuam praticamente iguais. Por isso, vale fazer uma conta simples. Se uma das rendas desaparecesse amanhã, quais despesas continuariam? Quais poderiam ser reduzidas? Que novas despesas poderiam surgir? Quais rendas permaneceriam? Quanto patrimônio estaria efetivamente disponível? E por quanto tempo ele sustentaria a diferença? A resposta não será igual para todos. Folha Mercado Receba no seu email o que de mais importante acontece na economia; aberta para não assinantes. Um casal com R$ 2 milhões em investimentos líquidos e despesas mensais de R$ 10 mil talvez já tenha patrimônio suficiente para suportar a perda de uma renda. Outro que ganha R$ 20 mil por mês, mas possui apenas R$ 500 mil investidos, filhos pequenos e um financiamento elevado, pode estar muito mais vulnerável. Por isso, uma família de renda menor pode estar mais protegida que outra de renda muito maior. A necessidade de proteção não depende apenas de quanto você ganha. Depende da distância entre aquilo que sua família precisará e os recursos que já possui ou poderá receber por meio de seguros. Normalmente fazemos planejamento perguntando quanto cabe no orçamento para moradia e viagens, que escola e faculdade poderemos pagar para os filhos, quando conseguiremos comprar um imóvel e quanto precisamos investir todos os meses para manter, na aposentadoria, um padrão de vida semelhante ao atual. São perguntas importantes. Mas talvez exista uma que deveria vir antes: se amanhã uma das duas rendas deixar de existir, todos esses planos continuam de pé? Assim como na ponte, não basta saber que a estrutura funciona enquanto todos os pilares permanecem no lugar. Um bom planejamento também precisa mostrar o que acontece quando um deles cede. Michael Viriato é planejador patrimonial e sócio-fundador da Casa do Investidor. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

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