Luiz Inácio Lula da Silva (PT) conseguiu um feito histórico ao virar a eleição e conquistar neste domingo (25) a vitória no segundo turno, mas enfrentará um emaranhado de desafios muito cedo, diz o cientista político Cesar Zucco, 49. Professor da Universidade Columbia, uma das mais importantes dos EUA, Zucco falou à reportagem nos minutos seguintes ao Tribunal Superior Eleitoral anunciar que o petista superou o senador Flávio Bolsonaro (PL). O cientista político, nascido em Santa Catarina, prevê percalços no caminho do presidente reeleito que podem ser agravados por aquele que seria seu maior fracasso: Lula não passou o bastão, e o PT não tem, a essa altura, um nome para sucedê-lo a partir de 2030 —ou mesmo antes disso. Segundo Zucco, a oposição intensa que o presidente encontrará na próxima legislatura e a necessidade do Partido dos Trabalhadores de encontrar um substituto para seu principal quadro, que completa 81 anos nesta terça-feira (27), podem fazê-lo passar o bastão para o vice-presidente, Geraldo Alckmin, para que a legenda possa se reorganizar internamente. Lula conseguiu o que parecia inimaginável. Como avaliar essa vitória? O primeiro turno surpreendeu a todos, mas sabíamos que era uma eleição que seria decidida por quem decidisse sair para votar nesse instante. É muito difícil determinar o fator. Não se esperava que um candidato de 80 anos em sua sétima eleição fosse capaz de fazer esse movimento, mais de animação e energização da base do que de convencimento. Lula sai fortalecido por uma virada histórica, mas ainda terá um Congresso hostil. Os problemas muito rapidamente vão bater à porta. Há alegações de fraude e insinuações de que haverá contestação. O que podemos esperar do período que se inaugura nessa semana? Há bastante evidência de que a administração superior do TSE [Tribunal Superior Eleitoral] nesta reta final foi conturbada. Era óbvio que deveria ter havido preparação, um gabinete de guerra no TSE, antecipando problemas. Isso não significa duvidar da urna ou das pessoas que trabalham na eleição. Essa burocracia brasileira funciona de maneira impressionante. Mas a chefia do TSE tinha de ter antecipado cenários, como o problema nos transportes. Não era inconcebível que algo assim ocorresse. A presença de espírito, de tomar decisões rápidas, faltou. Por isso, haverá contestação, abriu-se margem. Houve confusão nos centros de votação. Como podemos avaliar a decisão do ministro Zanin? Cabia ao STF esse tipo de decisão, ou a prerrogativa deveria ser da Justiça Eleitoral? E, nesse sentido, como avalia a atuação do ministro Kassio Nunes Marques? Esse é um tema eminentemente jurídico e, como o STF decidiu, presume-se que o STF considere que lhe caberia decidir. Ao que parece, o pedido inicial para o TSE foi feito às 13h22. Antes das 15h, Kassio Nunes Marques deu entrevista, afirmando que estava acompanhando a situação. Meia hora depois, que estava aguardando um relatório. Às 16h07, parece ter havido um despacho formal solicitando informações a órgãos na Bahia. Então, antes do final desse prazo, houve a decisão do ministro Cristiano Zanin, do STF, em outro pedido similar. Ou seja, o ministro KNM empurrou uma decisão até uma hora em que ela não era mais exequível. Sem entrar numa discussão eminentemente legalista, uma decisão tomada às 14h30, ou 15h tinha muito mais chance de ser executada corretamente. Uma postura mais cautelosa teria prorrogado a votação nos locais com problemas. Uma decisão desse tipo teria salvaguardado o direito ao voto das pessoas, sem gerar um tumulto e, muito provavelmente, sem gerar oposição de ninguém. Lula repetiu que essa é sua última eleição. O PT, por mais de uma vez, insistiu no nome de Fernando Haddad, que não vingou. Como o senhor vê esse dilema da esquerda de renovar os seus quadros? Esse é um problema paradoxal, porque o PT tem praticamente todos os atributos de um partido bem institucionalizado. Menos um, que é a troca geracional. Tem pouca coisa comparável em nível internacional e nada no Brasil. E, ainda assim, o partido teve esse problema grave de achar uma troca de guarda. Não só o Lula é o candidato perene do partido desde a fundação, mas, mesmo no nível abaixo dele, das lideranças mais seniores do partido, teve muito pouca renovação ao longo desse tempo todo. O maior fracasso político do Lula ao longo da carreira dele, que é uma carreira de muitos sucessos, sem dúvida, é não ter passado o bastão, não ter fomentado outras lideranças, encontrado um sucessor para alguém que tem 80 anos. O grande desafio do PT é que a próxima eleição não é Lula, não tem como ser, é fisicamente impossível. Nesta semana, aqui nos EUA, o senhor disse que Lula provavelmente não terminaria seu mandato se tivesse sido eleito. Mesmo Lula ganhando, tenho a impressão de que não terminará o mandato. Desconfio fortemente de que exista um plano de transição. O governo vai estar numa situação muito debilitada no Congresso, e posso imaginar algum tipo de acordo passando essa Presidência ao [Geraldo] Alckmin ou alguém desse tipo que não é exatamente do PT. Isso vai dar uma desculpa para o PT não ter que ter um candidato na próxima eleição. Se o Alckmin for presidente, por exemplo, seria razoável imaginar que ele poderia concorrer à reeleição em 2030. O que daria um pouco mais de tempo para o PT se organizar e buscar outros nomes para resolver esse problema. Eleições Hoje Receba no seu email destaques das campanhas, pesquisas e disputas nos estados Lula seguiu insistindo em conquistas que ele apresentou em outros mandatos, como a retirada do Brasil do mapa da fome, o acesso à universidade pública, algo que parece não ressoar como importante para uma boa parcela do eleitorado. Existe uma desconexão entre as propostas que são apresentadas e os sonhos dos brasileiros? Não é necessariamente uma desconexão, mas as pessoas já estão dando esses ganhos como garantidos. É mais ou menos como quando o PSDB fazia campanha, lembrando que o partido tinha ajudado a estabilizar a inflação e estabelecer algum tipo de responsabilidade fiscal e ter uma moeda mais ou menos com valor contínuo. Doze anos depois, as pessoas já não consideram isso uma grande coisa. Na época em que aconteceu, elegeu o Fernando Henrique [Cardoso] duas vezes em primeiro turno. Já o [José] Serra tentou falar: "Nós somos o partido da estabilização", e já não tinha mais esse impacto, embora não queira dizer que as pessoas não achem importante. Dito isso, falamos de uma eleição que estava 50 a 50, uma situação em que não é óbvio que esteja todo mundo infeliz ou todo mundo satisfeito com o governo. O ponto relevante da tua pergunta é que, de fato, o Lula está vendendo passados. E grande parte disso não é tão estranho porque era um governo que, quando foi eleito, era defensivo, altamente minoritário, estava num ambiente de instituições dilapidadas ou enfraquecidas, com muita incerteza. A perspectiva lá atrás não era de grandes realizações. O que teve de realização foi talvez a reforma tributária, mas é uma coisa que vai demorar para fazer efeito. Esse era um governo que, se chegasse ao fim nas condições em que ele começou, seria razoavelmente bem-sucedido. A economia apresentou melhoras em muitos indicadores durante essa terceira gestão do Lula, mas isso não parece ser lido dessa exata forma por uma parte do eleitorado. Por que a percepção do avanço da economia pelo eleitor é tão distante dos indicadores? A partir da estabilização, em 1995, até recentemente, havia uma associação forte entre os indicadores, de como a economia doméstica afeta a popularidade, e a popularidade afeta o voto. Em algum momento próximo de 2018, 2020, ainda não dá para estipular com muita precisão, essa relação entre a economia doméstica e a popularidade dos presidentes, consequentemente o voto, se enfraqueceu. Quando isso começou a acontecer, tinha uma discussão forte e talvez fosse uma coisa temporária devido à Covid. A pandemia foi um choque econômico muito atípico, afetou muito a maneira como as pessoas vivem, e houve muita transferência de renda no Brasil e em outros países para compensar. É natural que a relação entre economia e preferências políticas tivesse ficado meio bagunçada nesse período. Mas não parece estar voltando ao que era. Hoje, no Brasil, pelo estado da economia atual, o Lula deveria ter tido uns 4, 5 pontos a mais de votos no primeiro turno. O que mudou? Há várias possibilidades. Pode ser que os indicadores que a gente usa não captem mais o que as pessoas sentem. E esse processo parece estar acontecendo em outros lugares. Tanto em países desenvolvidos quanto em países subdesenvolvidos. O pêndulo da América Latina virou muito rápido nos últimos dois anos para a direita. E, mais do que isso, essas administrações se mostraram muito dispostas a permitir a participação americana na política doméstica e diretamente no seu território. A submissão ao trumpismo se tornou o novo modus operandi na região? Não é que está todo mundo loucamente apaixonado pelos Estados Unidos, todo mundo à direita. Há clima antissituação, de oposição em geral. As pessoas de fato estão se sentindo pior até do que as economias justificariam. A pergunta é mais por que a direita latino-americana hoje tem essa tendência de submissão a Washington. Acho que tem uma expectativa pelo governo Trump ter indicado um interesse geopolítico na América Latina. E tem uma interpretação por parte da direita de que há algo a ser ganho com isso. Além do ganho eleitoral, há essa perspectiva de que talvez esse país tenha algo a ganhar com interesse americano. Agora, não está claro o que esse país ganhou. A médio e longo prazo, se você pensar que a política americana é de America First, se alinhar automaticamente não torna evidente que você vai ter um ganho. Pode ser que o interesse seja a possibilidade de um apoio militar em caso de necessidade. Se a direita perder a eleição, os EUA hoje parecem estar mais dispostos a exercitar uma influência militar. O sr. me dizia que, aqui nos EUA, muitos também te perguntam sobre o Supremo brasileiro. Qual será o papel do Supremo no próximo mandato? Vai ter um ajuste de contas, muito provavelmente, porque um dos poucos temas substantivos que esse contingente grande do PL, principalmente no Senado, mas também na Câmara, impulsionou para ter sucesso eleitoral legislativo foi a retaliação ao STF, além da anistia ao Bolsonaro. Se essas foram as bandeiras de eleição, e existe um interesse do legislador modal típico, porque há um conflito STF-Congresso muito forte, o cenário está posto para o conflito. Tem vários caminhos para esse conflito. Um é uma ação que desafia o Supremo logo, seja com uma tentativa de anistia do Bolsonaro, seja com uma mudança na composição ou na forma de nomeação, ou idade, tempo de mandato para ministro. Em ambos os casos, o Supremo poderia derrubar isso. E aí você teria uma precipitação de um conflito direto, uma escalada. O caminho alternativo a essa escalada seria algum tipo de acordo, no qual o Supremo perceba que com o presidente e com o Congresso contrários, talvez o Supremo não tenha como manter as posições que tem mantido hoje. Se o Supremo entender assim, poderíamos ter um cenário onde se tenha algum tipo de acordo preventivo no qual algumas dessas coisas passem em menor grau, algum tipo de anistia ou de soltura de Bolsonaro disfarçada de algum outro tipo de concessão, algum tipo de limitação do poder do Supremo que não seja tão radical quanto um impeachment. Raio-X | Cesar Zucco, 49 Professor da Faculdade de Relações Internacionais e Administração Pública da Universidade Columbia, nos EUA, é pesquisador na área de política comparada, com foco em comportamento eleitoral, ideologia e economia política da América Latina. Doutor em ciência política pela Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA).
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