N�o � um empr�stimo qualquer

N�o � um empr�stimo qualquer

Empréstimos já ocuparam lugar de destaque na política brasileira. Em 1992, a chamada Operação Uruguai tentou justificar a origem dos recursos que sustentavam o alto padrão de vida do então presidente Fernando Collor. A versão fracassou e virou símbolo de uma explicação que desperta mais dúvidas do que esclarecimentos. Cada caso tem particularidades, mas a experiência requer cautela com contratos de mútuo. Compra e venda de imóveis também podem cumprir esse papel, como nos negócios do senador Jacques Wagner (PT-BA): um terreno declarado por R$ 28 mil ao TSE em 2018 foi vendido por R$ 13,8 milhões, e um apartamento declarado por R$ 1,7 milhão em 2022, por R$ 10 milhões. Permanecem, portanto, dúvidas sobre eventuais relações de Wagner com o ex-dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, a quem Flávio Bolsonaro (PL) recorreu em busca de financiamento para um filme sobre o pai, Jair. Foi essa cautela que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) deixou de demonstrar ao dizer que "todo mundo pega empréstimo" ao comentar o caso de seu ex-chefe de gabinete, Marco Aurélio Ribeiro, o Marcola. Ninguém questiona a normalidade de um empréstimo. O problema é que Marcola, então responsável pelo controle da agenda e do acesso ao gabinete presidencial, recebeu R$ 249 mil de Roberta Luchsinger, lobista que registrou dezenas de entradas no Planalto e em ministérios e é investigada pela Polícia Federal. Era esse vínculo, não o contrato entre as partes em si, que exigia firmeza do mandatário. É elogiável a saída de Marcola da equipe de campanha à reeleição de Lula, que mostra compreensão sobre a gravidade política do episódio. A alegação de que foi um empréstimo, já quitado, será examinada pelas autoridades. No plano político, porém, ela não basta. A PF investiga a atuação direta de Roberta em apurações sobre fraudes no INSS e a aproximação de outros suspeitos com o governo federal. A empresária também é amiga de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, alvo de inquéritos no STF por suposto tráfico de influência —acusações que ele nega. Nada disso comprova favorecimento ilícito. Mas revela perigosa zona cinzenta no cerne do Poder Executivo, o que é repreensível. O chefe de gabinete da Presidência é o guardião dos bastidores do poder; não pode manter transações privadas com quem tem trânsito livre em Brasília e está sob escrutínio policial. Lula acerta ao defender a autonomia da PF. Mas a liderança do Estado não se limita ao Código Penal. Cabe ao chefe do Executivo estabelecer a fronteira entre o tolerável e o inaceitável na alta administração. Ao minimizar o episódio do empréstimo, Lula emite um sinal equivocado sobre os limites da ética pública. Proteger as instituições exige afastar conflitos de interesse antes que eles se convertam em casos de polícia. editoriais@grupofolha.com.br

Original Source

Read the full article at Www1 →

KhanList aggregates and links to publicly available news content. We do not host full articles from third-party sources. Always verify important information with original sources.