'N�o quero mais continuar aqui', diz jornalista de Gaza ap�s tr�s anos sob ataques

'N�o quero mais continuar aqui', diz jornalista de Gaza ap�s tr�s anos sob ataques

"Já se passaram três anos, acho que prefiro ir embora. Não vou continuar esperando por muito tempo simplesmente na esperança de que tudo possa melhorar. Prefiro viver fora deste país." Ghada Al-Kurd é cidadã de Gaza. Há um ano, em entrevista à Folha, a jornalista narrou seu cotidiano em guerra. À época, magra, doente e com fome, Ghada contou que agradecia a Deus por sua mãe ter morrido antes de ver seus filhos mortos no conflito entre Israel e o grupo terrorista Hamas. Um ano depois, em meio a um teórico cessar-fogo —que ambos os lados se acusam de violar—, a palestina diz ser evidente que "as pessoas estão buscando uma maneira de melhorar suas vidas" e que, por isso, os cidadãos "não querem que facções controlem suas vidas". A trégua atualmente em vigor, mediada pelos Estados Unidos e anunciada no aniversário de dois anos da guerra, segue em impasse desde então. As Forças Armadas de Israel mantêm a ocupação em cerca de 60% do território enquanto dizem aguardar, para dar andamento ao acordo, o desarmamento do Hamas. O grupo, por sua vez, afirma esperar a retirada israelense para, então, entregar as armas. No chão, em meio aos escombros deixados pelos milhares de ataques israelenses, há cerca de 2,1 milhões de palestinos. Segundo o Ocha, escritório de assuntos humanitários da ONU, "a maioria permanece deslocada, enquanto ataques aéreos e hostilidades em curso continuam a causar baixas entre a população civil e danos à infraestrutura civil". Ghada diz não suportar mais a situação. "Da última vez", conta ela rememorando a semana anterior, "houve um ataque aéreo em frente ao meu prédio, à noite, e minhas filhas gritavam: ‘Mãe, estamos com muito medo’." Como jornalista, ela trabalha para agências e veículos internacionais. As filhas, que há um ano a preocupavam por estarem havia tanto tempo longe da escola, voltaram às aulas. Três dias por semana, "acordo às 6h, preparo a comida, arrumo as duas para a aula e, quando elas voltam, ficam bastante tempo ocupadas com as lições de casa", ela conta. O relatório mais atual do Ocha, de setembro, contabilizou 565 mil crianças matriculadas em espaços de aprendizagem apoiados pela resposta da ONU e outros independentes. Segundo o órgão, cerca de 200 mil crianças continuam sem acesso a qualquer forma de educação. Até o fim de 2025, todas as crianças em idade escolar não tinham acesso a escolas, segundo o Unicef, uma vez que os ataques de Tel Aviv haviam destruído ou danificado 95,5% das 815 unidades de ensino no território. Ainda assim, com a volta às aulas, Ghada conta que Fatima e Mari, de 12 e 14 anos, não gostam de sair na rua porque "têm medo de um ataque aéreo repentino". Na maioria dos dias, a jornalista só sai porque precisa trabalhar. No relato do último ano, a iminência do esgotamento físico a acompanhava: "Sinto muita pressão na cabeça, mas não tenho tempo para parar. O trabalho é a única coisa que me mantém viva." Hoje, a situação é diferente. "Pelo menos agora temos comida suficiente." A melhora na disponibilidade de comida, porém, não eliminou a dificuldade em obtê-la. O alto preço das tendas e da água também é um impeditivo para a maior parcela das pessoas. O Ocha estima que 94% da população local necessite de assistência para abrigo e itens não alimentares. Ainda calcula que 74% dos palestinos dependam da água potável transportada pelos caminhões de ajuda humanitária. "Precisamos comprar água potável. Uma garrafa de 1,5 litro custa US$ 2 [cerca de R$ 11]", conta Ghada. Junto disso, a eletricidade também precisa ser comprada informalmente. Segundo ela, o custo chega a US$ 100 (cerca de R$ 550) por semana. "Preciso de luz no apartamento para as meninas estudarem", diz. "Quando elas acordam à noite, podem acender a luz e sentir que existe uma vida normal." Desde o início da guerra, em outubro de 2023, os órgãos governamentais tiveram seu funcionamento interrompido ou dificultado tanto pela consequência direta dos ataques quanto pelo enfraquecimento do Hamas. O grupo exerce o governo de fato no território desde 2007. A Autoridade Nacional Palestina, que hoje governa partes da Cisjordânia, não tem função oficial na Faixa de Gaza há quase 20 anos. Segundo o Centro Palestino de Pesquisa Política e de Opinião Pública (PCPSR), o Hamas "perdeu apoio público substancial" neste ano —o índice caiu para 24%, ante 35% dez meses antes— e cresceu a preferência por negociação em vez de luta armada. Ao mesmo tempo, porém, a maioria dos palestinos (72%) ainda se opõe ao desarmamento do grupo e acredita que este levaria a uma nova guerra em vez de à retirada israelense. Lá Fora Receba no seu email uma seleção semanal com o que de mais importante aconteceu no mundo "Como cidadã que viveu durante muito tempo sob a Autoridade Palestina e sob o governo do Hamas em Gaza, não prefiro nenhum dos dois no controle", afirma Ghada. "Precisamos de novos rostos, de novas figuras públicas, de pessoas que realmente possam trazer um futuro melhor para os palestinos." O primeiro-ministro de Israel, Binyamin Netanyahu, mantém seu discurso de que "não haverá mais Hamas em Gaza" e que suas tropas seguirão em operação até que o grupo deixe de existir. O presidente dos EUA, Donald Trump, que se vangloriou pela obtenção do acordo, há um ano, deu múltiplas declarações sugerindo um avanço simultâneo entre o desarmamento da facção e a retirada israelense. Ambos os lados não parecem concordar. Para Ghada, não há mais espaço para esperar por isso. "Hoje estou tentando encontrar uma maneira de sair de Gaza porque não quero mais continuar aqui por muito tempo com minhas filhas. Quero procurar um futuro melhor para elas." O que foi o 7 de Outubro, maior ataque terrorista da história de Israel Na manhã do dia 7 de outubro de 2023, integrantes do Hamas e outros grupos terroristas palestinos entraram armados em território de Israel e assassinaram mais de 1.200 pessoas. O ataque foi o maior da história do Estado judeu e amplamente considerado o pior massacre de judeus desde o Holocausto. Foram atacados kibutzim, comunidades, estradas e eventos que ocorriam próximos à fronteira. Entre os vários locais atacados, em ação que durou horas e cuja resposta inicial do governo de Binyamin Netanyahu foi criticada pela demora, o evento de música eletrônica próximo do kibutz Re'im teve o maior número de mortos: 378. Além de massacrar civis, policiais e militares, os terroristas sequestraram 251 pessoas em território israelense que foram levadas para Gaza. Entre elas havia 44 pessoas já mortas. A resposta israelense em larga escala reduziu a maior parte da Faixa de Gaza a ruínas, provocou uma crise humanitária sem precedentes e matou mais de 73 mil pessoas, a maioria civis, segundo o Ministério da Saúde de Gaza. O órgão está sob autoridade do Hamas e seus números são considerados confiáveis pelas Nações Unidas.

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